A janela é uma transversalidade do corpo, de Fernando Andrade

As boas e as más-línguas são concordantes em reconhecer que uma das tarefas mais árduas de escritoras e escritores é diferenciar-se dos demais, construir e consolidar um estilo próprio, inconfundível. Obter esse feito tanto na prosa quanto na poesia certamente é um desafio ainda maior, visto que, com raríssimas exceções, dificilmente alguém consegue transitar com maestria entre os dois gêneros — alguns gigantes da nossa literatura, dito assim de passagem, ou são notórios em um ou noutro. Vale dizer: isso não tem nada a ver com a tal prosa-poética ou poética-prosaica e termos afins, por isso atenhamo-nos ao estilo, que por si só é outro imbróglio.

Quem já leu algo sobre as obras do jornalista-escritor-poeta-crítico-literário Fernando Andrade deve ter observado algo sobre o seu estilo um tanto quanto inventivo/criativo para uns, ou confuso/difícil para outros. Assim como a sua obra de poemas, “Interstícios” (2021), resenhada aqui anteriormente, em seu mais novo livro de contos, “A janela é uma transversalidade do corpo” (Penalux, 2021), essa obliquidade mencionada no próprio título se faz presente para falar sobre os desencontros, continuidade e descontinuidade, acasos da vida, o corpo e o desejo, entre outras coisas.

No segundo conto da obra em questão, a matéria lunar e desconhecida pode facilmente ser análoga à obra literária e artística, possibilitando a cada um acolhê-la ou não, de acordo com a experiência que este contato proporciona. A intencionalidade do artista em criá-la, colocá-la à disposição de todos é outra incógnita que, olhando-a de longe, para o todo, talvez faça algum sentido, ou não, porque enquanto matéria desconhecida que é, todo e qualquer sentido atribuído a ela pertence única e exclusivamente e quem a concedeu, isto é, ao leitor. Daí o bom e velho entendimento de que, uma vez lançada ao mundo, a obra não pertence mais ao seu criador e as suas possibilidades multiplicam-se, ganha vida própria, torna-se irrefreável o seu eterno devir.

Em “Tem-se o início a linha de um conto” e “Jogo da Velha”, Fernando brinca com o imponderável, o que nos foge ao controle e decisão. Não se trata de um mero acaso porque em sua narrativa há uma espécie ordem-enigmática das coisas, nem tampouco de uma visão restrita de causas e efeitos. Assim como nos contos anteriores e nos demais que compõe a obra, o final é aporético, deixando aberto as possibilidades (janelas?) de interpretação pra onde quer que o pensamento do leitor leve. O conto seguinte, “Palavras estéticas”, não deixa dúvidas de que o sentido — ou a sua busca por ele — é também o mote pelo qual as narrativas se desenvolvem, como se os contos nascessem de uma ideia não muito bem definida (um insight?), e no processo mesmo de sua feitura é que o enredo ganhasse corpo. Diria até se tratar de uma representação do nascedouro, o registro desse passo a passo dissertativo feito tatear no escuro, a não-apresentação de algo acabado, definitivo, concluso, caso o resultado não fosse algo pensado e repensado, feito e refeito, como nenhum bom escritor abriria mão, por mais experiente que fosse.

Dizer que a janela é uma transversalidade do corpo implica concluir que este último é também abertura para outras dimensões, ou tentativa de vê-lo de outras formas, ir além dos seus limites interpretativos e convencionais. Reescrevê-lo noutra realidade, mais sensorial e imagético que físico. Como se observa em suas representações sobre a realidade e a ilusão em “O Sorriso nu”; o sentido das coisas e de si em “Canteiro”; a labuta e a ressignificação das “palavras que um dia foram cruzadas, até desfiguradas, de toda metáfora, [em] cor e matiz” em “A máquina – cabine de arroba”; a abolição das fronteiras e do medo de vocábulos soltos em “Irmãos rábula”; e claro, o conto “Uma carta da poética convidando a prosa para uma estadia de veraneio”, cujo título é autoexplicativo e remete a essa relação que se estende por toda obra.

A segunda parte de “A janela é uma transversalidade do corpo”, como o título “Desejo\corpo” sugere, os temas aí apresentados trarão a voluptuosidade como novo componente às temáticas relativas ao corpo, algumas mais outra menos, o que, de alguma forma também aparece na seção anterior. Esse acréscimo se apresenta de modo enfático logo no poema de abertura e no primeiro dos sete contos que compõe a Parte II da obra, ganhando outros contornos no decorrer das narrativas.

Qual é a relação do pensamento quando cai no corpo?”, indaga-nos a primeira linha de “A história do amor no jardim bifurcado”. Pensamento e corpo, desejo e razão, liberdade e cárcere. O dilema aqui numa provável tomada de decisão perante as possibilidades que se apresentam é, do ponto de vista volitivo, uma batalha perdida. O desejo, enquanto uma necessidade corpórea, aniquila qualquer busca racional ou mística com o fito de refrear o apetite da matéria. Que a conclusão é demasiada pessimista e inegociável, do ponto de vista schopenhaueriano, não resta dúvida. Mas a condução da questão feita por Fernando me parece outra. Manter-se preso neste “lugar circular” que seu personagem se encontra, está mais para uma entrega do que para uma fuga, do contrário não estaríamos diante de uma história de amor, como sugerido — ou isso seria o autor tentando nos enganar, conduzindo-nos a concluir o aparentemente óbvio?

A resposta mais uma vez fica por conta do leitor, como se espera de qualquer texto literário que se prese. Dizer que interpretar a prosa e a poesia de Fernando não é uma tarefa fácil é dizer mais do mesmo para quem conhece sua obra ou se deparou com algum de seus textos. Contudo, dito isso ao leitor de primeira viagem, àquele que por algum motivo resolveu embarcar em sua literatura, é mais que salutar, sobretudo para os que se aborrecem diante da incompreensão ou não se comprazem com o desafio. É certo que no panteão da literatura nacional e contemporânea há gosto para todos, e assim como existem obras como a de Fernando, difíceis de mastigar e que às vezes é necessário ruminar e ruminar para digeri-la a contento; há outras que, no entanto, descem goela abaixo feito mousse de chocolate e outras que até mesmo derretem na boca feito algodão-doce, cujo excesso todos sabem não ser nada indicado — a não ser que o objetivo seja ter um jardim mais florido e cheiroso que nem o da personagem Ana, após adubar a área de serviço.

Fernando Andrade, 53 anos, é jornalista, escritor e poeta, crítico literário. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel. Participa também do coletivo Clube de leitura onde tem dois contos em coletâneas: “Quadris”, no vol. 3, e “Canteiro”, no vol. 4, do Clube da leitura. Colabora na revista literária Literatura e fechadura com resenhas de livros e CD’s e entrevistas com escritores, poetas e músicos. Tem dois livros de poesia pela Editora Oito e Meio: Lacan Por Câmeras Cinematográficas e Poemometria. Enclave (poemas) saiu pela Editora Patuá. Seu poema “A cidade é um corpo” participou da exposição Poesia agora em Salvador e no Rio de Janeiro. Lançou em 2018, seu quarto livro de poemas, A perpetuação da espécie, pela Editora Penalux. No final de 2019, lançou seu primeiro livro de contos, Logaritmosentido, Editora Penalux. Em 2021 lançou seu quinto livro de poemas, Interstícios, pela Editora Penalux.

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