A teoria da felicidade, de Kátia Borges

A celebração da vida, das afetividades do passado ao presente e seus aprendizados; a intrépida infância trilhando suas vivências numa playlist mnemônica; a prosa poética sobre o cotidiano; os encontros, desencontros e o mergulho na interioridade das coisas como num salto de um píer no Porto da Barra. Lançado em 2020 pela Editora patuá, A teoria da felicidade, da escritora soteropolitana Kátia Borges, reúne 43 crônicas sobre as suas experiências e seu olhar atento sobre si mesma e o mundo ao seu redor.

O velho Aristóteles e seus conterrâneos diziam que a finalidade última do Homem, o bem supremo da vida a ser buscado a todo custo, não é outra coisa senão a Felicidade. Mas o que ela é e como reconhecê-la na voracidade do tempo, dos nossos desejos, perdas e agonias? Se para os gregos somente no término de nossa jornada é possível responder de modo cabal a tal pergunta, o que as crônicas de Kátia Borges nos propõem é uma teoria de outra espécie, pautada num saber que nunca é por inteiro, ainda que se saiba algo sobre muita coisa.

Essa outra forma de ser feliz também está na surpresa que cada novo ciclo revela e a percepção do quanto é possível aprender cada vez mais. Não se esquecendo da “fragilidade de tudo aquilo que vive em camuflagem de beleza e existência simples”, cientes, portanto, de que tudo pode estar ao nosso alcance e às vezes fora dele.

Esse passeio por “uma série de recordações da infância” guiado por Kátia Borges, como se a memória fosse esse imenso salão a ser revisitado, é antes de tudo um chamamento à contemplação da vida como obra de arte e àquilo que da sua experiência estética podemos obter; e um se colocar de prontidão e agir quando o sentido das coisas se perde e a beleza se esconde no mar de névoas das nossas angústias e incertezas.

Assim como o mundo, com suas misérias, enganos e horrores contracenando com seus encantos e mistérios, a infância é uma espécie de não-lugar onde habita o outro Eu, que, apesar de nos acompanhar, nem sempre o enxergamos ou permitimos a sua presença. O diálogo estabelecido pela autora com sua infância é também um querer que o seu leitor revisite este mundo, muitas vezes esquecido ou demasiadamente distante. Nesse sentido, sua teoria também se constitui numa querência e precisão, seja a de observar pássaros, rever o verde e o azul do mar com suas “ondas espargindo seu salitre nas rochas do quebra-mar”; ou de praticar a felicidade, adquirida feito aprendizado.

O conhecimento de si mesma e a cabeça sempre erguida; as mágoas da adolescência expurgadas na escrita como acerto de contas; o temor ao imaginar a perda da poesia, possivelmente a única capaz de transformar a tristeza em algo que valha a pena. Se o paraíso é uma miragem desfeita assim que alcançada, é preciso coragem para seguir, como se tal palavra fosse um imperativo. Coragem para se lançar no desconhecido que é a vida, não como atleta olímpico em busca da perfeição no mergulho, mas como a criança que lança o corpo desafiando o salto e tudo o que acontece ali mesmo, entre o impulso e o impacto na água.

A poesia, por sinal, é certamente o traço mais marcante nA teoria da felicidade. Kátia Borges é notadamente uma poeta por excelência, no sentido aristotélico do termo. Não apenas pelo lirismo de suas frases e as imagens construídas com a argúcia de quem enxerga além dos lugares-comuns. Mas, sobretudo, por ser capaz de transformar a pequenez das coisas e a cotidianidade no que há de mais sublime, como quem vê a beleza no reluzir das estrelas mortas e na nossa impotência perante o tempo que tudo leva, ou na velhice feito “um menino que pede trocado na janela quando o vermelho invade o sinal e agradece com um sorriso ‘valeu, tia!’” — se acaso estranhar os exemplos, não se engane! Nem tudo o que é sublime é belo, ainda que o inverso seja.

Impressiona também as passagens aforismáticas tecidas na obra em questão. A capacidade de sintetizar os argumentos, de dizer o que é preciso em poucas palavras, não apenas dinamiza a leitura, aumentando o fôlego e o apetite para que todas as páginas sejam devoradas de uma só vez, como também revela que estamos diante de uma autora que é senhora da sua escrita.

Ao teorizar sobre a felicidade, Kátia Borges não se esquiva da tarefa de falar do que é oposto, e mesmo que pretendesse, o esforço seria nulo, uma vez que ao recordarmos daquilo que suscita em nós os melhores afetos, em algum momento estaremos diante da nostalgia, que na sua essência é o reencontro com a dor e o sofrimento. Por mais que recordar da infância pareça uma busca por refúgio, uma forma de escaparmos do estado de coisas imposta pela vida adulta e a proximidade com o fim da vida, retornar a esse não-lugar implica menos uma fuga do que um olhar pra trás e reaprender a ver as coisas com uma insaciável curiosidade. É ela que move nossos pensamentos em “O que você está pensando neste exato momento?”, e pode até mesmo ressignificar a notícia de uma fatalidade e sobretudo a despedida, como em “Pequeno roteiro para um filme sem final”.

Por tudo o que me foi possível dizer e não-dizer sobre A teoria da felicidade, resumo minha análise com as palavras de Antônio Torres em seu texto de abertura: “Feliz de quem vier a ler este livro”.

Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), TicketZen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012) e São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia (Éditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthlogy of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013). Escreve crônicas semanais desde agosto de 2018.

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