O sêmen do rinoceronte branco, de Cinthia Kriemler

Basta olhar pela janela, colocar os pés na rua, ler os noticiários e conversar com as pessoas para constatar o espelhamento entre a ficção e a realidade, ou ver romper-se a suposta linha tênue que as aproximam e separam-nas. Sobretudo quando a face mais vil da humanidade se apresenta sem nenhuma desfaçatez. Em tempos assim, dizer que a arte nos salva é mais uma esperança do que uma certeza. E o maior mérito de uma artista, alguns dirão, é ter a proeza de ainda causar o espanto nascedouro de um pensamento crítico e um despertar para a existência, no sentido robusto do termo — não se esquecendo de revelar a beleza daquilo que de outro modo não poderia sê-lo.

Em O sêmen do rinoceronte branco, lançado pela Editora Patuá, em 2020, Cinthia Kriemler não se exime dessa árdua tarefa. Muito pelo contrário. Notadamente reconhecida pelo tom das suas narrativas e uma estética marcada pela crueza e o lirismo, Kriemler se apropria das relações humanas e do ser embrutecidos pelo próprio homem, para (des)lapidá-los por completo e, assim, representá-los em sua inteireza.

Logo na abertura de sua obra, o jogo entre luz e sombra no conto “Chiaroscuro” vai além da miscigenação para falar de amor e ódio “no apartheid das cores”. O registro cru e virulento se desenvolve como numa prece, em que o companheirismo e a solidão caminham lado a lado, conduzidos por uma voz igualmente dividida entre a esperança e o medo, marcados pela repetição de uma sentença que é ao mesmo tempo súplica e afirmação.

Os contrastes presentes nos demais contos de O sêmen do rinoceronte branco, não se restringem a um conceito dualista sobre realidades insubordináveis e irredutíveis de uma visão teleológica do mundo. São matizes graduadas de acordo com os temas, as personagens, os espaços, as vozes narrativas e as intenções artísticas.

O rito de espera da morte por alguém que já é morto em sua existência e não respira “para não sentir o cheiro da podridão que vai além das fezes dos animais e do mijo dos bêbados e da porra dos homens que trepam com as prostitutas no beco e das línguas que envenenam histórias dos operários”; a negação e a fé que cegam quem “não aguenta mais saber” das mentiras, promessas e consequências inerentes aos que se entregam ao alcoolismo e a morte é apenas uma questão de tempo; e as mulheres que nutrem o desejo e esperam: o retorno de quem ama, a superação e a mudança, o reencontrar-se com os que partiram para sempre e o sentido trágico da vida que em questão de minutos encerra tudo.

No conto que dá nome à obra, a visão (ou sua ausência) é o leitmotiv que rege as histórias sobre: a morte do último rinoceronte branco do norte; as 276 meninas sequestradas em Chibok; as 110 raptadas em Dapchi; os irmãos Aylan Kurdi e Galip que morreram no mar ao fugirem da guerra; e o assassinato covarde de Ágatha Vitória, Guilherme, Alana, Kayo, Larissa e Adrielle nas periferias do Brasil. “Não ver” nesses casos e tantos outros “é alienação desejada”, sentencia Cinthia Kriemler. Alienação de uma sociedade que se diz preocupada com a vida e que, no entanto, se porta como o maior predador e algoz de sua própria espécie. “Ver é inquietação”, e aqui, como em outros contos, a inquietação é a latência que move tanto a feitura da obra quanto a experiência estético-literária que ela proporciona.

Inquietação, latência e espanto. Esta última, que na sua origem grega é correlata a “trauma”, é também sinônimo de “perplexidade”. O extremo oposto dessa reação perante as ações do homem e às próprias vicissitudes da vida, isto é, a indiferença e o conformismo, é o que torna possível as grandes tragédias de nosso tempo, como Hannah Arendt afirma. Em resumo, é o não se sentir traumatizado e o não inquietar-se que faz com que a banalidade do mal se efetive e repouse naqueles que não pensam criticamente sobre si mesmos.

Há uma estrofe no poema “Ao leitor”, de Charles Baudelaire, em As Flores do Mal, que sintetiza muito bem o que as personagens de Cinthia Kriemler vivenciam em O sêmen do rinoceronte branco: “Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada/ Não bordaram ainda com desenhos finos/ A trama vã de nossos míseros destinos,/ É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada”. O conto “Carma” talvez seja aquele que melhor se encaixe em tal analogia. É nele que a autora imprime com maior impetuosidade suas frases curtas e precisas, de tal modo que não há como não sermos arrastados pela narrativa. A obra inteira, por sinal, tem essa força avassaladora. E mesmo em contos mais breves, como “Em nome”, “Aposentadoria”, “Dias de contagem”, “Lixo” e “Explodir as pontes”, por exemplo, não há como sairmos incólumes de suas leituras.

Não por acaso (e mesmo que talvez seja), Cinthia Kriemler encerra a sua empreitada com o conto denominado “Coragem”, seja para se expressar ou para questionar, mesmo quando sonhar é um ato perigoso, acreditar é o pior entre todos os vícios e “a fé se torna o pior inimigo”. É mais que necessário ter coragem para dizer aquilo que é preciso, antes que o tempo, alheio às nossas vontades, torne vã as nossas intenções — assim como para reconhecer as nossas impotências.

Após ter seu nome entre os semi-finalistas do Prêmio Oceanos (2016) e os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura (2018), não me surpreenderia se a cronista, romancista, contista e poeta, Cinthia Kriemler, estiver entre os laureados de algum renomado prêmio literário deste ano. E não será sem tempo.

Nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília desde 1969. É escritora, graduada em Comunicação Social/Relações Públicas e especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social pela UnB. É autora, pela editora Patuá, de Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) – Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Patuá, 2015) – semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014) e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Publica textos e poemas em antologias e em revistas literárias.

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