As esferas do dragão, de Duanne Ribeiro

Das inúmeras formas de aceitação e vivência do luto lidas até aqui, desconheço alguma que seja mais original e inventiva do que “As esferas do dragão” (Patuá, 2019), de Duanne Ribeiro. Um romance que vai além do que seu título, capa e apresentação sugerem, para falar sobre a morte de um avô e de como a escrita tornou possível encarar novamente “uma fotografia sua sem chorar”, pois, somente ao término de “uma das versões deste texto, anos após, é que algo se completou aqui dentro e eu fui capaz de ver sua imagem sem desmontar.

Numa mistura de autoficção e realismo fantástico, Duanne Ribeiro promove uma intertextualidade entre Cultura Pop, MPB e Mitologia Grega, por meio de uma linguagem rigorosa e títulos curiosos, tais como: “Tesouro ornado de baratas”, “Quebra de samba de breque”, “Violências do afeto; Histórias de amor, ou: Romantologia”; “Alucinações do androide paranoico” e “Anciã no céu sem livros”, entre outros.

A história inicia-se com a chegada de um deus “babuíno e astronauta”, que veio convocar o narrador-protagonista, homônimo do autor, para uma jornada em busca das esferas do Dragão (“provedora de desejos, apanágios de budas e leviatãs, força mística e originária”) e, assim, poder ressuscitar seu avô materno, Antônio de Oliveira, morto “aos 73 anos em 3 de julho de 2009”. Entre as lembranças que se despontam “como estrelas, delineando o irrecuperável” e narrativas que se constituem como uma espécie de “buraco negro”, o mundo fictício da infância e a tragicidade da vida se encontram, inserindo-nos em um romance definido por Marcelo Coelho como: “ao mesmo tempo alucinatório e ancorado em dores reais”.

A mescla entre delírio e realidade é um dos elementos mais atraentes da obra. Por meio dessa subversão narrativa — intercalada por letras de bandas como The Smiths, Modest Mouse, Pearl Jam, Eagles, Bob Dylan e Arcade Fire —, mesmo as tramas se passando em lugares familiares aos nossos olhos, a impressão é a de adentrarmos noutra dimensão-mítica-fantasiosa, onde a disposição dos personagens no seio da narrativa segue a mesma lógica multiforme, unindo pessoas, “bonecos com vida, um cowboy, um astronauta, um assassino de broca na cabeça, (…) um roedor amarelo capaz de emanar descargas elétricas” e personagens dos videogames, de acordo com os espaços e os tempos desenvolvidos.

Dividido em dois núcleos distintos, enquanto de um lado Duanne Ribeiro, Antônio de Oliveira, Margarida Gomes de Oliveira, Sueli de Oliveira, Adonai de Oliveira e Katiuska, compõem o elenco factível-familiar do autor-narrador-personagem; do outro, as personagens: Hinagiku, Hikari, Shukun, Shiawase, Jintoku, Kyua, Jesus Cristo, a nuvem Néfela e os soldados do exército Jade, representam o elenco ficcional d’As esferas do dragão. E uma das primeiras questões que surgem busca responder à pergunta “quando a verdade acaba, para onde se pode ir?”

Ao que tudo indica, a verdade neste caso não se restringe a uma fidelidade entre fatos internos e externos da narrativa, ou na sua verossimilhança com a realidade. Mas se estabelece na criação de um lugar onde seja possível a existência desses dois mundos ou se possa recuperar o que se perdeu com o esfacelamento de ambos. Neste sentido, os livros se apresentam como “objetos que cortam séculos” e “vencem até mesmo a morte, por escarnecê-la, por ignorar que mate os corpos e as almas e manter intactas as vidas vividas”. E a escrita se torna uma forma de conhecer de modo mais profundo a si mesmo e ao outro. Na medida em que “conhecer uma pessoa é imergir em mitologia” e caminhar “pelas memórias, espaços, expectativas; [onde] o outro funda em nós uma realidade: olhar nos olhos é sempre um convite a que nos invada uma nova teofania”.

A contradição entre o fato e o delírio extraía verdades das falácias e vice-versa”. “O outro é sempre um sol”. “A morte é o único ponto de vista”. “Como aceitar ou suportar ou admirar o paradoxo das várias pessoas que existem a partir da mesma pessoa em diferentes instâncias de relação”? “O amor é então essa aurora boreal que para se estender no tempo fará às vezes de âncora”. “O choro é a reinvenção da pessoa como memória, é a reorganização das memórias não mais como dínamo, mas arquivo”. “O horizonte é a mão de alguém”.

Partida, iniciação e retorno. Mais que acompanharmos a jornada de um herói, com suas etapas habilmente construídas, “As esferas do dragão” é um convite a refletirmos sobre os encontros e desencontros da vida, e mais que isso, sobre como “estar preparado para perder a pessoa que [nos] preparou para tudo”. E quantos de nós não estamos travando uma verdadeira epopeia contra um vírus assassino que até o momento vitimou mais de 400mil vidas?

Duanne Ribeiro é jornalista, mestre em ciência da informação, especialista em gestão cultural e graduado em filosofia pela Universidade de São Paulo. Trabalha como analista de comunicação para o Itaú Cultural. Edita a Úrsula, revista online de política, humanidades e comportamento (revistaursula.com.br), mantém o blog duanneribeiro.info e escreve eventualmente para publicações como Cult, Bravo! e Digestivo Cultural. Em ficção, foi um dos selecionados da segunda antologia Ficção Científica do Brasil, com o conto “Sine Wave”, hoje reescrito, e publicou a novela “Nikolai e Nataniel” na revista Humanidades em Diálogo. Mora em São Paulo (SP).

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