Essa Terra, de Antônio Torres

Publicado em 1976, Essa Terra inaugura a trilogia do escritor baiano Antônio Torres, seguida de: O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006). O conjunto de elementos simbólicos referentes ao sertão brasileiro presentes em Essa Terra, insere a obra no corpus ficcional que problematiza a temática nordestina, a exemplo de O Sertanejo (1875), de José de Alencar; Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha; Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos; Seara Vermelha (1946), de Jorge Amado; e Grande Sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa.

Na obra em questão, Antônio Torres apresenta-nos um novo Sertão na Literatura Brasileira, cuja oposição às urbes, litorais ou cercanias interioranas, figura-se como um elemento à parte; o que permite, por seu turno, um aprofundamento maior na trama das personagens – ainda que a representação destas se nos apresente de forma genérica, ou rarefeita.

Semelhante à volubilidade da memória, em certa medida, as imagens desse Sertão distam de qualquer quadro uniforme outrora apresentado. Sobretudo porque o sertanejo já não é mais aquele ser idealizado, e até mesmo no que diz respeito à questão migratória (os retirantes), importa mais o resultado último do insucesso na vida, do que as causas do seu revés. No limite, interessa menos observar a invocação migratória frente ao projeto de progresso da nação e as contradições sociais desse processo; do que a interioridade das personagens, as vicissitudes de um sujeito constantemente em conflito, o estado de angústia à flor da pele ao retornar para a terra natal e o sentimento de não-pertencimento ao lugar de origem. Soma-se a isso, a condição trágica do retornado nordestino e as soluções encontradas para resolução dos problemas e/ou a desistência de tudo por meio do suicídio.

O desenvolvimento de Essa Terra se inicia justamente a partir do suicídio do personagem Nelo — irmão do narrador-personagem, Totonhim —, para em seguida, somente aos poucos passarmos a conhecer sua trajetória de vida e a daqueles que o cercavam. Nessa perspectiva, é possível dizer que a questão da morte/suicídio pode ser compreendida como um Leitmotiv no processo narrativo da tragédia torresiana.

Embora o suicídio de Nelo seja um assunto recorrente, tanto na voz do narrador e dos membros da família, quanto na memória e no relato dos demais moradores de Junco, é pertinente ressaltar que sua morte não se limita a um pano de fundo para falar sobre a trajetória de um retirante sertanejo em busca de uma vida melhor numa terra prometida e a sua derrocada. A morte é inerente à própria vida como duas faces de uma mesma moeda. Um condicionante existencial que não se encontra apenas ao término de uma jornada. Sua presença é constante.

Guiados pela voz narrativa de Totonhim, Antão da Cruz Filho, adentramos no turbilhão de imagens que compõe uma espécie de cartografia da memória de Junco, cidade interiorana da Bahia, atualmente denominada Sátiro Dias. Seu irmão mais velho, Nelo, é um personagem mítico, criado pela família e pelos moradores de Junco, seu filho ilustre: “Um monumento, em carne e osso. O exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens”. Sendo herói e anti-herói, o conflito consigo mesmo está intimamente ligado a essa condição dupla, dicotômica, paradoxal. E se o arco do primeiro trilha uma jornada laureada com a vitórias, a trajetória do segundo não está livre de um fim malogrado.

Não obstante o lugar que Nelo ocupa na trama — se representa apenas mais um personagem comum em meio a tantos outros, ou representa um dos protagonistas —, os infortúnios de sua história são desnudados após seu retorno à terra natal, culminando em seu suicídio. A lembrança de sua vida e morte ecoa na memória de todos pela estrita relação estabelecida com a dor, que não se restringe à morte trágica de um personagem, vale ressaltar, mas ao próprio fim de uma figura mítica. Ou seja, sua morte é representada de duas formas no seio da narrativa, em momentos distintos entre uma e outra.

A segunda nos é enunciada ao término do primeiro capítulo, quando Totonhim adentra em casa e encontra o pescoço do irmão “pendurado na corda, no armador da rede”. Uma morte corpórea, por assim dizer, que ao invés de relegar o personagem a um segundo plano na trama, como de praxe acontece, acaba ascendendo-o a uma representação simbólica na figura do enforcado. A primeira morte, por seu turno, diz respeito ao personagem mítico de Nelo, tido como o melhor filho que a família Cruz já teve, única estrela a brilhar entre os irmãos, “miragens sobre o poente, nosso sol atrás da montanha, sumindo no fim do mundo”. Como primeiro a se aventurar em uma terra desconhecida, Nelo representa a ousadia, a sagração de um povo pelas conquistas do seu herói: “nossa sombra ao meio-dia, nossa árvore de todo dia”.

Ciente ou não da sua morte simbólica, Nelo resolve encerrar sua jornada em Junco, vestido “como se tivesse pensando em sair, como se a morte não tivesse sido uma coisa premeditada”. A cena em questão está longe de ser uma despedida, numa alusão às considerações sobre o suicídio feitas por Nietzsche, para quem a morte voluntária é uma forma orgulhosa de morrer. Contudo, parece convincente dizer que a vida já não causava ao Nelo tanto orgulho. Ao menos, não a vida como realmente era, distinta das ilusões que os moradores de Junco tinham: um rapaz rico como o cão, que sempre teve sorte, desde quando era menino. Morrer antecipadamente, nessa perspectiva, pode ter sido a única resposta, ante a possibilidade, ou melhor dizendo, ante a iminência do inevitável desnudamento de quem verdadeiramente era. E ainda que Nelo tenha feito ou não uma real avaliação do que foi alcançado em sua vida, tudo leva a crer que àquela altura isso pouco importava.

Embora a narrativa não fale de um estado depressivo, é nítido perceber a variação pendular de Nelo em várias cenas. Numa delas, por exemplo, ele permanece deitado na cama por vários dias, aborrecendo Totonhim a ponto de sofrer represálias. Longe da agitação dos amigos e familiares em comemoração ao seu retorno, Nelo perdia a noção do tempo contemplando a casa e os pastos “como se estivesse diante do túmulo de alguém que tivesse amado muito”. Para seu irmão, Totonhim, Nelo era “um homem, que já chegou aqui morto”, e ele “tinha o Brasil inteiro para fazer isso”, mas preferiu morrer na casa de um ente, em sua terra natal. Parte da sua família se encontrava em Feira de Santana e a outra espalhada pelo estado. Restava-lhe apenas um passado familiar, a existência de um mundo cujas cores permaneciam vívidas na memória, esta que, de acordo com o historiador Jacques Le Goff, é o: “elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje na febre e na angústia”.

A angústia de viver uma vida que não cabe em nenhum lugar. Passado, presente e futuro perdem os seus significados quando o sujeito se encontra sem direção, desenraizado do lugar que deveria ser o seu porto-seguro, onde deveria encontrar-se consigo mesmo e com os seus. Talvez isso explique porque ao término do último parágrafo Totonhim reconhece que o irmão escolheu o momento certo de partir: “Nelo, querido, não vou chorar a tua morte. Fostes em boa hora. Agora eu te entendo, é bem capaz que eu já esteja começando a te compreender”. A “boa hora” em questão, indo além da substancialidade para alcançar maior representatividade e/ou força simbólica, diz respeito a uma espécie de dever cumprido por aquele que se dispõe a uma jornada. A consciência do limite entre a existência e a finitude da vida. O devir de tudo o que um dia foi não terá sentido; pois o que importa é o agora em seu estado permanente.

Compreender esse profundo desencanto com a vida só é possível se observarmos de perto o não-pertencimento que Nelo sentia. Ao sair de Junco para São Paulo, ele buscou ser o autor de sua própria história, longe da vida e o destino comum de amigos e familiares, para quem Nelo era exemplo. “Foi contigo que as mudanças começaram, porque foste o primeiro a descobrir a estrada. Mas de ti só tínhamos as boas notícias. O brilho da tua estrela iluminava as nossas noites mortas, no pé do pilão, fazendo calos nas mãos e reclamando da vida”. A cidade grande era a “Terra prometida” onde os seus sonhos se tornariam reais. E mesmo sem uma descrição detalhada de como era sua vida na metrópole paulista, não é difícil imaginar que as remessas de dinheiro feitas para sua mãe trazia-lhe algum tipo de contentamento. O suficiente para criar a ilusão em seus conterrâneos que possuía uma fortuna. Mas os tempos agora eram outros. Em suas próprias palavras, Nelo havia se tornado num “cidadão subdesenvolvido”, e o que isso significa é o que somente o contexto histórico pode nos dizer.

Apesar de Antônio Torres não fixar o tempo histórico em que se passa a narrativa, o que impossibilitaria uma análise mais precisa de que Brasil estamos falando e, sobretudo, quais as reais condições econômicas São Paulo vivia; a lembrança de Antônio Conselheiro, Lampião e uma certa guerra civil do Japão que se mantinham frescas na memória das personagens, não deixam de ser bons indicativos temporais. E embora seja possível ter uma ideia de como era a vida no Sudeste e Sul do país, segundo as palavras do próprio Nelo, “agora não é como naqueles velhos tempos, não. A coisa mudou sucessivamente, nas resoluções intempestivas da minha vida”.

Para além da apresentação que o autor faz de um sertão simbólico, repleto de imagens que não se restringe a uma localidade específica, ainda que o cenário de Essa Terra seja parecido com o de tantos outros, é possível vislumbrar outras paisagens. Adentrar em um sertão multiverso, que não se limita ao plano físico, espiritual e imagético. Um sertão que estende seus limites ao mesmo tempo em que estreita as fronteiras de si mesmo.

Por mais que a presente obra esteja inserida nos estudos literários sobre o sertão, Essa Terra não se limita a falar unicamente sobre as questões sociais de um povo, uma região e país.Trata-se de uma obra que do início ao fim traz no seio da sua narrativa um dos temas mais universais, mesmo que para isso as imagens mais reluzentes sejam outras, e não aquela sobre a morte e o suicídio. Talvez isso explique o extraordinário sucesso da obra, tanto em território nacional quanto no exterior. Se o fascínio pela temática nordestina foi a mola propulsora no ano de sua publicação ou não, isso não podemos afirmar em definitivo. O certo é que ela ainda cativa novos leitores, seja por aqueles elementos simbólicos da literatura sertaneja-nordestina ou pela universalidade de um tema tão curioso quanto a finitude da vida.

Antônio Torres da Cruz é natural de Inhambupe chamado Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), no sertão baiano. É o oitavo ocupante da Cadeira nº 23 da ABL. Estreou na literatura em 1972, com o romance “Um cão uivando para a Lua” (1972/2002), considerado pela crítica a revelação do ano. Seu universo romanesco é constituído de cenários rurais, urbanos e da História. É também contista, cronista e autor de uma história para crianças. Sua obra tem tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países, da Argentina ao Vietnã. Pertence também à Academia de Letras da Bahia, na qual ocupa a cadeira 9, sucedendo a João Ubaldo Ribeiro. Entre seus livros mais conhecidos figuram os que compõem a trilogia “Essa Terra” (1976/2001), “O cachorro e o lobo” (1997/2015) e “Pelo fundo da agulha” (2006), merecendo destaque também os romances “Um táxi para Viena d’Áustria” (1991/2013) e “Meu querido canibal” (2000/2015), assim como o livro de contos “Meninos, eu conto” (1999/2001).

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s