Eu sou macuxi e outras histórias, de Julie Dorrico [resenha]

Vencedora do 16º concurso FNLIJ/UKA Tamoios 2019, a obra de Julie Dorrico é um resgate de identidade, da língua e da cultura de um povo pelos meandros da memória sensorial. Sobretudo a memória gustativa, marcada pelos sabores das pimentas de cheiro, malagueta e murupi.

Narrados em primeira pessoa, os contos que compõem Eu sou macuxi e outras histórias (Caos e Letras, 2019) transitam entre o verso e a prosa, ou emulam a prosa poética de uma linguagem que se apodera da oralidade para perpetuar no texto as reminiscências de sua ancestralidade.

Outro mérito a ser destacado é a contraposição às narrativas que abordam os conflitos em terras indígenas, da colonização até os dias atuais. Ou seja, o que importa na obra de Dorrico é a cotidianidade das relações entre mães e filhas, das lembranças ecoadas ao longo do tempo pelas avós e bisavós, e que constituem em conjunto com outros elementos a identidade do povo macuxi e de tantos outros povos originários. Assim, hodierno suas lutas são outras, travadas com papel e caneta, cantos radiofonizados, artes plásticas e tantas outras expressões artísticas.

Da ancestral arte de contar histórias sagradas ao redor da fogueira, Dorrico concede aos seus leitores a oportunidade de experienciar o pantonkan por meio da sua escrita. A cosmogonia dos deuses, dos diversos povos e seus grandes guerreiros, o cultivo das tradições, as danças e o sobrenatural; em “Makunaima e os manos deuses” vislumbramos um mundo até então desconhecido, invisibilizado pelas inúmeras formas de opressões e apagamento (genocídio!) da cultura indígena.

A autora não furtou-se à crítica aos déspotas do seu povo nem ao toque nas feridas incuráveis, mas ao contrário da acidez recorrente dos acertos de contas históricos, Dorrico preza por um tom pacífico e poético, o que não significa dizer que o seu discurso não possui o rigor necessário e não atinja seus objetivos. Em “O homem do ouro”, por exemplo, Dorrico aborda a ganância e a loucura pela riqueza que traz uma felicidade oca, esvaziamento de si mesmo e de todo o resto para aqueles que a possuem. Até não restar mais nada, a não ser a dor e a tristeza de mais uma perda para aqueles que ficam.

Enquanto os homens mercadorias seguem estabelecendo fronteiras, separando tudo e todos que encontram pelo caminho, Dorrico declara em sua obra não haver fronteiras para o pertencimento.

O conto que aborda a declaração supracitada, versificado feito poema e canto, mais do que uma ode aos parentes e às regiões em que vivem, é uma declaração de que o gosto – palavra repetida ao longo das estrofes – é aquilo que une a todos. De um gosto a outro, descendentes e ancestrais rompem a distância e o tempo para celebrarem a vida, num festejo que se estende de Norte a Sul, e de Leste a Oeste. De porto em porto os gostos se misturam e a diversidade dos povos se manifestam no Eu-lírico, transmutado agora numa multidão de outros tantos, para sair da individualidade e se consolidar em um “nós”: ser que se constitui em sua própria vida e noutras.

Esse autoconhecimento, igualmente descrito na obra em questão como sentimento de pertença, ou pertencimento, aparece de modo mais enfático logo no conto de abertura, “Eu sou macuxi, filha de Makunaima”. Um exórdio sobre si mesma e o mundo criado por uma linguagem reinventada pela narradora-personagem, com a finalidade de recriação incessante do seu mundo.

De um modo ou de outro, as memórias infantis que povoam Eu sou macuxi… simbolizam a busca pelas lembranças mais recônditas da memória, o seu estado originário, aquilo que constitui a todos e que se perde ao longo dos anos e do distanciamento imposto pelas vicissitudes da vida.

“O feitiço” é um conto que, em certa medida, aborda sobre tais adversidades e suas consequências. Assim como as histórias que seus avós contavam se tornavam as histórias daqueles que as ouviam, as histórias contidas em Eu sou macuxi se tornam pertencentes aos leitores que se dispõem a ouvi-las atentamente em cada palavra, em cada frase, espaçamentos, páginas em branco e nas ilustrações de Gustavo Caboco – que possibilitam uma nova perspectiva sobre aquilo que Dorrico transmite.

Ilustração do livro “Eu sou macuxi e outras histórias”. Imagem: Gustavo Caboco

Chama a atenção ainda a tecitura de “O feitiço” inteiramente em prosa, contrastando com o estilo das outras narrativas. Talvez por falar sobre a finitude da vida, a incerteza dos destinos que os espíritos terão em decorrência da falta dos xamãs e dos rituais de passagem. O conto em questão pode ser descrito ainda como um lamento, elegia ou réquiem aos ausentes. Como se a espera não fosse apenas um desejo, mas a certeza de um reencontro com a ancestralidade, quer seja espiritual ou em sonhos. Como no conto de encerramento, em que a narradora-personagem é visitada por seu ancestral, Makunaima, e a partir desse evento se reconhece como pemon-macuxi definitivamente.

Quer seja o autoconhecimento, o conhecimento de si ou o pertencimento, o caminho trilhado para um novo modo de ser no mundo, uma nova existência, é um caminho sem volta. Assim como é o daqueles que fazem da literatura e demais expressões artísticas um compromisso consigo mesmo, com seus antepassados e com os que virão. Se assim for, resta-nos torcer para que outras histórias Macuxi, Wapichana, Guaicurús, Pankararu e tantas outras rompam as barreiras sociais, mercadológicas e culturais, e cheguem às mãos de outros leitores.

Aos que ainda não leram, uma boa leitura – ou melhor dizendo, bom apetite!

Julie Dorrico nasceu nas terras da cachoeira pequena, mais conhecida como Guajará-Mirim. Mas foi às margens do Rio Madeira que cresceu ouvindo a mãe contar as memórias da família, dessas gentes que viviam lá quando acaba o Rio Amazonas. Um dia atravessaram esse rio gigante e foram conhecer os parentes em Boa Vista, em Bonfim (RR) e em Lethen (Guiana). Essa travessia, feita ainda na infância, foi, por meio da sua bisavó, o seu encontro com Makunaima e com o povo macuxi. Escreveu esse livro, objeto usado por não indígenas para contar por muitos séculos nossas histórias, para ocupar esse lugar de autoria, tão caro aos sujeitos indígenas. Também é doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.

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