As margens do paraíso, de Lima Trindade

Fundamentado em uma harmonia triádica, As margens do paraíso (CEPE, 2019), de Lima Trindade, é um romance polifônico que eleva a expressão arquitetura do romance para além da análise dos elementos narrativos e a inerente relação personagem-espaço. Ao estabelecer uma intertextualidade entre Arquitetura e Literatura, o autor brasiliense não apenas problematiza as transformações decorrentes da interação entre sujeitos e os objetos, ou, mais precisamente, entre os indivíduos e os espaços em que eles vivem; como também se utiliza de uma certa engenharia arquitetônica para realizar a tessitura do texto.

Nessa perspectiva, a nomenclatura e a organização dos capítulos no índice são os primeiros elementos a chamarem a atenção, antes mesmo de adentrarmos no seio da narrativa.

Dividido em duas partes, num total de 33 capítulos aparentemente distribuídos de modo aleatório, um olhar mais atencioso leva a crer que o autor teve o cuidado de ordená-los em tríades formadas pelos nomes dos narradores-personagens: Leda, Rubem e Zaqueu — denominados aqui pelas iniciais L, R, Z, para facilitar a visualização da hipótese proposta. Assim, no primeiro quarteto de tríades (L, Z, R –  L, R, Z) conhecemos suas histórias e a dos respectivos núcleos de personagens secundários, as cidades onde viviam, seus afazeres, desejos e dramas pessoais. No terceto de tríades seguinte (Z, L R) desenvolve-se os anseios do trio, os entraves para realizá-los, e o anúncio dos conflitos que cada um enfrentará no dueto de tríades seguinte (L, Z, R) até culminar nos eventos que mudarão suas vidas (em Z, L, R).

Do ponto de vista simbólico, o número 3 é responsável pela expressão e sensibilidade das pessoas, sendo ainda associado à inúmeras divindades gregas, hindus, egípcias e cristã, e os estágios que representam o ciclo da vida: nascimento, vida e morte; ou nascimento, morte e renascimento. Em certa medida, o próprio título de As margens do paraíso evoca tais simbologias, uma vez que ele aponta para uma jornada a ser travada em busca de redenção, de uma terra prometida onde a vida pode ser reescrita, completamente diferente daquela deixada para trás.

Na primeira parte do livro, as vozes de Leda, Rubem e Zaqueu relatam os períodos da adolescência e juventude, suas relações afetivas e os aspectos socioculturais das cidades e regiões em que viviam: Juazeiro (BA), Rio de Janeiro (RJ), e Anápolis (GO). Na segunda parte, quando os caminhos de Leda, Rubem e Zaqueu se cruzam, as distintas vozes dos narradores dão lugar a um narrador onisciente, condutor do que poderíamos descrever como o ato final de uma ópera trágica.

Leda nos apresenta a sua trajetória, marcada pelo saudosismo da vida ao lado da mãe e do pai, o período em Juazeiro sob a tutela de um vereador que a acolheu após sua família ser expulsa da terra em que vivia, a escravidão, a violência e os abusos que se sucederam nesse período até o instante em que se viu obrigada a trilhar outro caminho.

No Rio de Janeiro, Rubem relata a sua jornada dividida entre o trabalho num guichê de passagens, os estudos no colégio, e a vida boêmia entre uma coisa e outra nas danceterias da época e nos cinemas. Ante as incertezas com o emprego e as decepções amorosas, não lhe resta outra alternativa a não ser aceitar o convite do tio Mauro para se mudar para Brasília.

Do ponto de vista socioeconômico e familiar, Zaqueu é o oposto dos personagens supracitados. Filho de um empresário inescrupuloso e influente de Anápolis, em Goiás, após sofrer um ultimato do pai para dar continuidade aos estudos ou arranjar um emprego, Zaqueu decide se mudar para a nova capital do país, movido pelo desejo de vingar-se do pai, tornando-se mais poderoso e bem-sucedido do que ele.

Notadamente marcado como um romance de formação (bildungsroman), há duas forças contrárias que regem as relações interpessoais em As margens do paraíso e atuam de modo determinante na constituição dos sujeitos. Enquanto uma é a causa das inúmeras violências que ocorrem ao longo da narrativa e revela a face racista, preconceituosa, homofóbica e misógina da sociedade; a outra é o que torna possível a convivência em meio às forças coercivas da anterior, tornando-se, por conseguinte, numa via de acesso para o indivíduo conhecer a si mesmo.

A construção da nova capital do país é o que poderíamos chamar de uma síntese, ou um espelho do que ocorre no processo de formação de Leda, Rubem e Zaqueu. Se de um lado temos uma cidade projetada para ser o símbolo da modernidade e do progresso, que carrega no âmago de suas estruturas os problemas que assolam a sociedade brasileira, da sua formação até a atualidade. Construída com o suor, sangue e a vida de inúmeros trabalhadores, e erigida no mar de lama das transações fraudulentas, violações dos direitos trabalhistas e dos direitos humanos. Do outro, as pessoas buscam a prosperidade, o sucesso profissional, a realização dos desejos mais nobres e o início de uma nova vida, sem levar em consideração os meios para tanto. Tudo é feito e justificado em nome de um bem maior, ainda que para isso seja necessário recorrer aos mais variados crimes.

A precisão com que Lima Trindade detalha a vida nos canteiros de obras, nos alojamentos, nas empresas, nos bordeis e demais espaços, é a mesma precisão com que ele constrói o caráter e a psiquê dos personagens, suas dores, medos e desejos mais intensos.

Os princípios propostos pelo filósofo britânico, Bertrand Russell, que aparece como uma das referências literárias em As margens do paraíso, não apenas serve como um dos elementos contributivos para a transformação de Rubem; como também nos serve para compreender o caráter altruísta que aparece em maior ou em menor grau em alguns personagens. Quer seja no próprio ato de presentear alguém com um livro por entender a necessidade de expansão do conhecimento e mudança de percepção da vida. Ou ainda num simples gesto de acompanhar alguém ao cinema, ajudar um desconhecido a ser aprovado numa entrevista de emprego, intervir no meio de uma briga para separá-la ou até mesmo provocar uma exigindo melhores condições nos canteiros de obras e espaços de convivência. De acordo com tais princípios, levando em consideração a preservação do homem e o caráter ético econcêntrico que deve reger suas ações, “ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém”.

Por fim, mais do que uma narrativa ficcional que se estabelece como documento histórico, podemos considerá-la ainda como um documento humano, capaz de ultrapassar as demarcações do tempo e dos espaços em que ela se constitui. Em outras palavras, As margens do paraíso é uma obra que tanto nos serve de auxílio para entender as contradições de uma cidade-símbolo e do próprio país como um todo, como também revela as diversas camadas que constituem o ser humano.

Lima Trindade nasceu em Brasília e vive em Salvador. É editor e mestre em Teoria da Literatura pela UFBA. Publicou O retrato: ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (novela, 2014), Corações blues e serpentinas (contos, 2007), Supermercado da solidão (novela, 2005) e no mesmo ano, os contos de Todo sol mais o Espírito Santo. Seus contos estão traduzidos para o espanhol, inglês e alemão.

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