Ester ou Antígona, de Tadeu Sarmento

Lançado em 2021 pela editora Uboro, “Ester ou Antígona”, de Tadeu Sarmento, lança um olhar sobre a condição humana em suas múltiplas camadas e sobre a solidão, que tanto pode existir no seio familiar quanto no ambiente virtual da internet, condições estas notadamente conhecidas como vida offline e online, onde “todas as famílias parecem horrivelmente felizes”. Numa espécie de diálogo entre interlocutores ocultos, Tadeu Sarmento desenvolve uma narrativa em primeira pessoa que traz como pano de fundo a morte dos pais de Ester, que invade suas redes sociais com o fito de mantê-los vivos e se livrar do orfanato.

Uma das primeiras questões que a obra de Sarmento nos impõe se anuncia logo no título: Ester ou Antígona. Dúvida que nos remete à duas personagens clássicas, uma de origem bíblica e outra sofocliana. Em linhas gerais, enquanto a primeira é tida como exemplo de fé, sabedoria e coragem, cujos atos culminaram na salvação e libertação do povo hebreu (que havia sido condenado à morte pelo rei persa); Antígona, por seu turno, é descrita como uma personagem subversiva, cuja tragédia dedicada a ela problematiza o dilema ético em torno da obediência irrestrita ao édito de Creonte sobre o sepultamento de Etéocles e Polinices (filhos de Édipo e irmãos de Antígona, que se mataram na luta pelo trono de Tebas), ou mais precisamente, no embate entre as leis humanas e as leis divinas.

Tanto na mitologia grega quanto na judaico-cristã, suas protagonistas são reconhecidas como personagens nobres, que enfrentaram o poder de um soberano e lidaram com a morte, seja na sua eminência ou em consequência da sua consumação. Diante disso, a primeira dúvida que se impõe aponta para o dilema a ser enfrentado pela personagem de Tadeu Sarmento, ou, no modo como podemos associá-la àquelas duas personagens; cientes de que, em seu caso, importam menos as leis divinas e humanas (no sentido tradicional dos termos), do que a lei ou código de conduta que rege a comunidade virtual, paradoxalmente descrita como uma terra sem lei, onde todos assumem o poder de investigar, acusar, condenar e executar a pena ao bel-prazer. Problematização esta que se pauta ainda na efemeridade e superficialidade das ações humanas, nas regras comportamentais e jogos de linguagem que, em alguma medida, o diferencia do espaço físico (outrora definido como espaço real).

Num primeiro momento, o caráter oscilante da narradora-protagonista, Ester, acentua ainda a desconfiança sempre bem-vinda em narrativas em primeira pessoa. Entre acusar e se defender de nunca ter conhecido seus pais “tão bem quanto agora” que estão mortos, e se eximir da culpa de não ter se aproximado deles, Ester alega não ser a única culpada da relação familiar ser imperfeita e que “o erro dos filhos é sempre menor que o dos pais”, para logo em seguida reconhecer a inocência de todos neste caso. Diante disso, a outra pergunta que surge no decorrer da narrativa busca saber se o verdadeiro objetivo da órfã em questão se restringe tão somente ao seu desejo de não ser enviada ao orfanato, e por que ela mantinha os cadáveres dos pais insepultos, visto que eles defendiam “o direito que cada morto tem de ser enterrado depois de passar pelos ritos funerários, cuja função é a de recordar o quanto foram importantes e o quanto farão falta pra alguém agora que partiram”.

Em sua defesa, Ester argumenta que tudo é uma questão de sobrevivência e de conhecimento. No primeiro caso, tanto ela quanto sua mãe sofreram inúmeras violências desde a infância, tanto simbólicas quanto físicas, sobretudo daqueles que diziam amá-las e deveriam protegê-las. Violências no esfolamento da pele na hora do banho, ou no apagar de um cigarro em seu corpo, em ambos os casos e em tantos outros para saciar o prazer dos homens. É em decorrência do medo de sofrer maiores violências tanto corporais quanto simbólicas que Ester oculta a morte dos pais e se esconde (atitude esta que é possível ainda remetê-la à origem hebraica do nome “Ester”, no Midraxe, que significa “escondido”), única forma encontrada por ela para conhecer melhor seus pais e a si mesma.

Entre um segredo escabroso e outro nas conversas privadas dos pais nas redes, Ester aprende com sua mãe que “Ser razoável é ficar ausente e ninguém sentir nossa falta. Nós mulheres fomos razoáveis durante muito tempo. Muito. Por muito tempo ninguém sentiu nossa falta, mas isso ficou para trás. Os homens nunca precisaram ser razoáveis, foram criados para andarem de um lado a outro, no escritório, enquanto falam ao celular e decidem o futuro da humanidade”.

Por fim, e claro, não menos importante, uma das maiores dificuldades enfrentadas por qualquer escritor é diferenciar seus personagens a partir de si mesmos, por meio daquilo que distingue os seres humanos entre si, sem o uso de uma descrição, como ocorre quando um personagem se refere a outro. Distinção que se dá unicamente por meio da linguagem. Esse sistema complexo de comunicação humana que, dentre outras coisas, carrega consigo nossa identidade. E mesmo Ester simulando a escrita da mãe, quando esta assume a voz narrativa por meio de seus escritos (ou quando o interlocutor de Ester assume a voz narrativa), é possível perceber ali essa diferença, quer seja no uso dos vocábulos ou na própria construção frasal. Tentar descobrir quem fala a verdade nesse jogo, quem tenta enganar e quem sofrerá tragicamente por acreditar em alguém desconhecido é outro mistério muito bem articulado pelo autor.

Tadeu Sarmento é autor de “Associação Robert Walser para sósias anônimos” e “E se Deus for um de nós?”, entre outros. Ganhou o II Prêmio Pernambuco de Literatura e o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura de 2016, com “Um Carro Capota na Lua”, publicado pela Tercetto. Em 2017, conquistou o 13º Prêmio Barco a Vapor, com o juvenil “O Cometa é um Sol que não deu Certo”, publicado pela Edições SM. em 2020, foi novamente finalista do Prêmio Barco a Vapor, desta vez com dois livros.

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