Limbo, de Eduardo Sabino

Relançado em 2021 pela editora Caos & Letras, com o apoio do edital de Publicações Literárias da Lei Aldir Blanc, “Limbo” reúne contos escritor por Eduardo Sabino entre os anos de 2009 e 2019; e trançam, de certa forma, o caminho estilístico do autor, da sua estreia até “Estados Alucinatório” (2019). Dividido em seis partes (Tipos humanos; Contos de flanagem; Tributos; Novas sociedades; Bíblicos e Mitos de origem), além da heterogeneidade nos temas, os contos trazem ainda uma variedade de ritmos e formas que, se não revelam distintas facetas do autor, certamente amplia os alcances daquela voz autoral encontrada em suas obras anteriores.

É o que se observa, por exemplo, logo em seu conto de abertura “O morto”, em que, de uma só vez, uma criança se desencanta com sua primeira visita ao cemitério e contato com um morto, relembra de um trauma vivenciado na escola e conhece o próprio pai até ali tido como inexistente. Há uma espécie de indolência no conto em questão. Uma indiferença do personagem-narrador ao se deparar com o que, noutros casos, costuma ser retratado com arroubo de espírito ou até mesmo uma catarse. O que corrobora com o argumento sobre o título feito na apresentação ao mesmo tempo reforça a ideia de que nenhuma escolha editorial é feita por acaso.

Um nonagenário bom de lábia, a vida por um fio nas mãos de um barbeiro, a derradeira montagem de uma travesti, o peso na consciência de quem apenas queria fazer o bem, o imaginário infantil alimentado pelo veneno dos adultos, o clímax e o anticlímax de uma tragédia profetizada, a espetacularização da vida, a indigesta ceia de Natal em família, a efêmera passagem humana e a eternidade dos encontros. A primeira parte de “Limbo” é um desfile de personagens, alguns com seus destinos trágicos e outros nem tanto. Todos conduzidos com uma leveza no tom, sem abrir mão da ironia e da crítica mais séria, quando necessário.

Na segunda e na terceira parte, Eduardo Sabino discorre sobre a solidão das pessoas e a necessidade dos encontros, seja aquele que vai ao cinema “para ouvir as risadas da plateia”, ou os que contemplam o vazio de um local outrora ocupado por uma violinista urbana “para suportar a ausência da beleza onde um dia ela habitou”, os que temem e planejam a vida e o futuro com a vinda de um bebê, ou aqueles que festejam a morte de uma personagem qualquer num filme de terror e a partir dali se tornam amigos. Em tais contos, Sabino transforma a cidade noutro personagem à parte, e assim, mesmo não conhecendo suas ruas, alamedas, espaços comerciais e públicos, ao longo das narrativas nos familiarizamos a eles como se ali estivéssemos.

Nas três últimas partes, adentramos na espiral de uma representação real, fantástica e especulativa, característico das obras anteriores de Eduardo Sabino. “Por que estamos sós”, “Sujeitos on-line”, “As máquinas da revolução”, “A cidade do tempo estagnado”, “Bruce e as leis de metal”, “O Gênesis segundo um andarilho”, “O evangelho segundo Dow Jones”, “Ela aqui agora”, “O quarto da infância” e “Mistos de origem”, gosto de olhar para o sumário, buscar ligações entre os títulos antes mesmo de conferir as narrativas, ouvir a sonoridade que, às vezes, deles ecoam. Hábito um tanto quanto dadaísta, reconheço. E, no entanto, por mais díspares que sejam os temas contidos em “Limbo”, e o período correspondente à feitura dos mesmos, não há como não reconhecer aí uma unicidade que independe da intenção, do projeto a ser executado. Alguns chamam a isso de visão de mundo do autor, o que, na falta de uma expressão melhor, me parece apropriado ao caso.

A resposta para a solidão humana no universo, os membros fundadores de uma “Igreja Hexagonal do Menino Digitalizado”, a reviravolta no mito da revolução das máquinas, o horror enigmático de uma comunidade longeva, o julgamento do inimigo comum de duas tribos rivais (onde fatalmente me vejo na pele do protagonista), o revisionismo profanológico da criação, a Boa Nova anunciada pelo indicador financeiro do mercado de ações norte-americano, o pretexto prolífico diante da morte, o pavoroso e benquisto quarto da infância, a inveja incorpórea dos imortais, as venturas e desventuras que dão origem e edificam uma vida literária. Eduardo Sabino erige um novo significado para o limbo cristão com sua obra. Desconfio que não se arrependerão aqueles que o adentrarem.

Eduardo Sabino é autor dos livros de contos “Estados Alucinatórios” (Caos e Letras, 2019), “Naufrágio entre amigos” (Editora Patuá, 2016) e “Ideias Noturnas sobre a Grandeza dos Dias” (Editora Novo Século, 2009). Recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015, organizado pelo jornal O Globo e Amazon, pelo conto “Sombras”. Já teve texto publicado em Portugal, Argentina e Moçambique. É um dos fundadores da Caos e Letras.

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