Bofetada e êxtase, de D. B. Frattini

Todas as vezes que finalizo uma leitura, olho para a pilha de obras em minha frente e, apesar da quantidade e dos imprevistos, ingenuamente penso que será moleza agilizar a fila e gozar daquela estranha-agradável sensação de não ter algo para ler. Como devem supor, não é bem o que ocorre, em virtude dos constantes lançamentos de novos autores e dos que já estão na estrada — e isso é ótimo, considerando o tempo sombrio que vivemos, inclusive para a literatura. O mérito dessa permanência nas leituras, esse alongar-se fora do comum, é inteiramente das autoras e autores que venho lendo, reforçando o que mencionei aqui outras vezes sobre a literatura nacional contemporânea.

Já esperava que “Bofetada e êxtase” (Autografia, 2022), do dramaturgo e escritor D. B. Frattini, me proporcionasse uma experiência de tal natureza, mesmo conhecendo alguns de seus contos anteriormente publicados na Revista Tamarina. Ainda assim, não perderia a oportunidade de relê-los atentamente. Mais do que isso, não resistiria a tentação de estudá-los como quem encontra algo singular, pouco experimentado, digerido, enfim, uma espécie de direção contrária àquela que a maioria segue.

Ainda que as técnicas de composição do teatro sejam outras, é inegável a existência de uma verve dramatúrgica no estilo literário de Frattini. Ouso dizer que não há um só conto em “Bofetada e êxtase” que não seja facilmente adaptável para os palcos, não me espantaria se alguns realmente tenham saído dessa intenção e posteriormente reconfigurados para o gênero em que se apresentam. Mas isso é algo que somente o autor poderá confirmar.

Em termos de composição da narrativa, seus primeiros parágrafos são exemplares no modo como introduzir o leitor numa história, ora nos apresentando seus personagens, ora as situações, ora os ambientes. Trata-se daquele exato momento em que o palco se revela ao abrir das cortinas. Em “Faca”, por exemplo, após a narradora nos confidenciar todo seu fascínio por facas, herdado do avô, e contrastá-lo com a proeza de sua avó em cortar qualquer feitiço, encerra tal abertura concluindo que: “Com o fio certo e com o objeto no peso correto consigo cortar qualquer coisa menos o feitiço das facas.” Ou seja, toda ação inicial se direciona para a conclusão de um raciocínio, apresentando-nos em um só tempo o caráter da narradora-protagonista, o drama a ser vivido por ela e o seu provável desfecho.

No conto “Domenico”, mais do que um dilema ético, Frattini coloca em xeque os limites do amor por uma pessoa. O mote aqui é essencialmente trágico (ou bíblico?), o de que não existe maior amor do que sacrificar a própria vida pelo outro. Se assim o fosse, o conto não nos apresentaria nada novo, e o que o autor nos propõe é outra questão: seria a incondicionalidade de tal sentimento igualmente capaz de levar a cumplicidade até as últimas consequências? A resposta, que é também dúvida pairando ao término do conto, nos dá uma boa dimensão do que encontraremos nas demais narrativas que compõe a obra.

Em “A escrivaninha”, seu personagem poderia muito bem representar o típico escritor de apartamento, “debruçado sobre a escrivaninha, os cotovelos doem enquanto”, do centro de seu próprio umbigo, tenta escutar os “pensamentos esvaziados, pouco produtivos e recolhidos num espaço de tempo sem coerência ou interesse”. Há quem defenda a necessidade de uma entrega pessoal e visceral ao absurdo da vida para extrair dela o que depois será transformado em arte — salvo engano, foi Sartre, no auge do seu libertinismo quem o disse. Os opositores (homens brancos cis héteros, com suas crises de escritores e dramas circunscritos às paredes de suas caixas de concreto), como de praxe, apelarão para a imaginação, como único recurso mais que necessário e suficiente. Mas ainda que ela seja a base e saída pra tudo, observa o nonagenário de Frattini, “até a imaginação anda impraticável. [visto que] Ninguém pode nem deve exigir de uma criatura submersa num pântano de obscuridades alguma luz para celebrar o que quer que seja”. A narrativa e o seu artífice vão além dos limites inerentes a esta figura caricata que infesta a história da literatura. Êxito para poucos, convenhamos.

Mas é na construção das personagens e no dinamismo de suas ações perante a face mais crua e impiedosa da vida que Frattini demonstra todo o seu exímio talento. Sobretudo as personagens femininas, de longe as mais diversas, complexas e bem desenvolvidas. Luciana, Cristina, Beca, Cecília, Flora, Lia, Eulália, Silvia, Sophia e Priscila. Quer sejam as protagonistas ou as que ocupam uma fração de tempo menor nos palcos erigidos por Frattini, a sagacidade, o sarcasmo, o temperamento e a firmeza de tais personagens e o modo como são desenvolvidas nas tramas, a visão da realidade despida dos véus que a cobrem, demonstra não apenas o grau de consciência do autor na construção desse elemento, como também um conhecimento profundo da própria condição humana e dos arquétipos sociais. Os demais personagens de outros gêneros não ficam de fora desse rigor, obviamente, e o inesquecível Hugo de “O leão entrou na arena” é um bom exemplo.

Bofetada e êxtase” conta ainda com vinte e nove ilustrações de Rogério Bessa Gonçalves espalhadas entre as suas duzentas e setenta e seis páginas. Um atrativo a mais de uma obra que por si só é uma memorável experiência.

D. B. Frattini é mineiro de Pouso Alegre residente em São Paulo; professor de F.E.C.A. (Fundamentos Estruturais da Composição Artística); dramaturgo com várias montagens no Brasil e no Exterior; participou recentemente da coletânea de contos sobre morte e luto “Abraços Ausentes” (Editora Letraría, 2020); “Bofetada e Êxtase” é seu primeiro livro de contos.

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