Estive no fim do mundo e me lembrei de você, de Adriane Garcia

Pensar no que somos, no que poderíamos ou deixamos de ser é uma das tarefas mais árduas, necessárias e enigmáticas que, volta e meia, nos vemos confrontados a encarar. Assim como a pergunta titular da obra do sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, “Para onde vai o mundo?”. Concordo com a relação de interdependência passado/presente/futuro que ele faz e com o argumento sobre a crise da humanidade, segundo o qual “a humanidade viveu sua morte potencial antes mesmo de ter sido concebida”, sobretudo a ideia de que “é a ameaça de aniquilamento que possui a virtude genesíaca da humanidade, e que transmuda a ideia abstrata em realidade factível”. O que não dista do jogo entre o real e o imaginário feito por Adriane Garcia em “Estive no fim do mundo e me lembrei de você” (Peirópolis, 2021), pertencente à coleção Biblioteca Madrinha Lua.

Por mais sério e assustador que essa ideia de aniquilamento possa transparecer, gosto da leveza com que Adriane imprime seus versos, como quem busca ou produz vestígios de algo belo em meio à catástrofe, ainda que a maioria não queira ou não consiga ver. Como no poema de abertura, “Souvenir”, em que seu eu-lírico fotografa a si mesmo e sorri, mesmo estando neste “lugar estranho que é o Fim do Mundo”, o lugar “sempre prestes a acabar”, tão somente para se “lembrar de que o Fim do Mundo/ Foi o máximo de céu/ O máximo de inferno”, mas, sobretudo, “Para lembrar que esta foi a minha única viagem/ Para te lembrar de mim/ Quando eu não estiver mais/ Aqui”. Lugar denominado no poema seguinte como “A bola azul de Yuri Gagarin”, “nave e casa/ Onde nos ferimos/ Como quem proclama/ Que não merece”, visto como “Terra minguante” pelos olhos de quem se cobre de poeira lunar e entrega-se ao sonho em suas crateras.

O planeta Terra e a humanidade coexistem sob a constante ameaça de um nunca mais. Contudo, embora haja um quê de despedida numa frase e outra entre os quarenta e oito poemas que compõe a obra de Adriane Garcia, há também um desejo de continuidade, um porvir ou recomeço, se acaso o fim do mundo passar, como observou Renato Russo em “Vamos fazer um filme”.

A força da imaginação, a capacidade de enxergar cores numa tela preto e branco. A fragilidade da vida feito vidro e a grandeza das pequenas coisas. A edificação da memória enquanto exercício em um caderno e de um castelo de areia no encontro das mãos de duas crianças a brincar. Mas as palavras que nos falam do sublime também reverberam o grito da denúncia. A inconformidade para com a violência humana ao seu semelhante, às construções arquitetônicas que, quando não abrigam, revelam a face mais hostil da sua utilidade.

É quando o fim anuncia sua vinda na erupção de um vulcão, nas “tempestades que rompem os telhados de amianto”, nos vírus que “atacam os rins, o fígado, o pulmão, a medula, o diabo”, no atropelo dos pais pelos trens de ferro, no estupro das mulheres quando retornam do trabalho, nos aviões que caem, nos barcos que afundam, na guerra declarada pelas nações, nas bombas soltas numa igreja, nas ordens de despejo, nas bocas dos tubarões, nas mãos de adolescentes armados dentro de uma creche, nos campos de refugiados, na queima do pantanal com suas cinzas espelhando-se em outras regiões.

Há uma infinidade de coisas no mundo esperando o fim e outras tantas alheias a ele. A manada de gnus, o casal de maritacas, o santuário de corais, a ursa e o seu filhote, a rosa, os baobás e os carneiros. As árvores à espera de um abraço e de alguém para dançar em volta delas, os elefantes em sua majestade caminhando “sobre a terra do Congo”, “os cormorões, as gaivotas-monjas, os atobás peruanos/ [que] Descem o Atacama”, o tigre da Sibéria em sua solidão. No pugilismo, “Lá onde só há/ Oceano e céu/ A onda bate contra o paredão de gelo// Choque/ Espuma/ Fúria do sal// Branco contra branco:// Vence o azul”. Tudo é encontro, tudo é “enquanto, no equilíbrio de vida/ e morte”.

Mas se há algo tão pulsante nos poemas de Adriane quanto a própria vida é a lembrança sublinhada desde o título em sua obra, sem a qual a humanidade não passa de um mero acontecimento na existência de todo resto. Não apenas a lembrança do horror que ameaça ou da exuberante natureza que nos cerca. Como também a lembrança de que “até mesmo a aridez é importante”, pois “O vento não sopra apenas desejos da infância/ Também nutro o mar, carregando a areia do deserto” e que “Por incrível que pareça/ Há gente cuidando de gente/ E de outros bichos”, e “quando nos formos/ Tudo será sem nós”.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019) e Eva-proto-poeta (ed. Caos & Letras, 2020). Participa de várias antologias. Tem poemas traduzidos para o inglês e o espanhol em diversas revistas no exterior. Em 2017 foi co-curadora do FLIBH, com o escritor Francisco de Morais Mendes.

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