Insônia tropical, de José Petrola

Lembro-me vagamente de uma anedota feita por um professor de filosofia num congresso sobre um certo colega do norte-europeu. Acostumado com o clima soturno, melancólico e frio de sua terra natal, o gringo considerava um absurdo produzir filosofia e até mesmo arte por essas bandas. As cores, os sons, a vivacidade delirante de tudo que seus olhos viam. Como um povo tão feliz, ou com tantas razões para se alegrar em virtude de uma natureza tão exuberante poderia ter tempo e preocupações com as grandes questões humanas?

Tivesse José Petrola lançado Insônia tropical (Patuá, 2021) naquela época, certamente indicaria seu livro como uma das obras que problematizam a tropicalidade deste país.

Distribuídos em quatro partes (Na terra das palmeiras; Não é mais sertão; Jogo de guerra; Ensaio medroso sobre o precipício), os vinte contos que o compõe têm a medida e o tom certeiro que as histórias pedem.

Como explorador e aventureiro que é, Petrola conhece bem o território que pisa, assim como a sua gente transformada em personagens, seus dramas, suas dores, paixões, manias, subversões e fetiches. A burocracia do funcionalismo público é outra marca da tropicalidade desta nação muito bem representada pelo autor, sobretudo a de uma estatal, como suas potencialidades e fraquezas usufruídas por aproveitadores. Mas o que mais chama a atenção em seus contos é o modo como suas personagens transitam por esses espaços e como elas lidam com as mais diversas situações, sejam elas físicas ou mentais.

Como não poderia deixar de ser e o próprio título indica, a insônia é o motivo condutor de vários contos, especialmente na primeira parte. A duplicidade de si vivida/sonhada pelo narrador em “Lisboa imaginada (Os trópicos não têm suspense)”; a metanarrativa e/ou drama romântico dentro do drama romântico em “Branco”; a volatilidade das coisas em “A doença da noite”; o estado prolífico e impiedoso da noite em “Insônias”; os caminhos e descaminhos de uma jornada interior em “Maíra e minhas sete vidas”; o estrangeirismo e a vertigem em “Na terra das palmeiras coloridas”. O curioso em tais contos é a possibilidade de lê-los como partes constitutivas de uma narrativa maior, tamanha harmonia que eles transmitem, sem que os fatos, as personagens e seus dramas sejam uma mera repetição.

Na segunda parte, “Não é mais sertão”, ocorre tanto uma mudança espacial quanto estilística. Enquanto na parte anterior os cenários são mais urbanos e no próprio ritmo e demais elementos da narrativa essa urbanidade se mostra evidente — mesmo quando dentro da psiquê/pensamentos/sonhos de alguma personagem —, aqui os cenários, a atmosfera e a própria escrita são de outra ordem. Não fosse o caráter continental do país, com suas características regionais tão distintas, tais contos até poderiam parecer deslocados na obra, se comparados unicamente aos da primeira parte. O que no decorrer da leitura se torna menos perceptível, isto é, menos dissonante, em virtude dos demais lugares e não-lugares explorados nas partes III e IV, e demonstra uma certa coesão ante a multiplicidade.

O leitor menos avisado e cheio de pudor pode até se espantar ou sentir-se incomodado no modo como Petrola encara alguns temas como a prostituição, por exemplo, ou na escolha dos próprios vocábulos, sobretudo nos primeiros contos. Todavia, olhando-os de longe, ou a obra como um todo, essa impetuosidade e intensidade das narrativas segue numa descendente e/ou arrefecimento, por assim dizer, a ponto de o dizer tornar-se não-dito, furtivo, velado, fora de cena, como no conto “Miguel, que não existiu” — embora, neste caso, a moderação seja mais uma censura imposta pelos próprios agentes da narrativa do que pelo autor a si mesmo, com o intuito de abafar os casos de pedofilia na igreja.

Não deixa de ser uma escolha ousada ordenar os contos de Insônia tropical assim, numa espécie de anticlímax estrutural, e, de certo modo, um alívio, como num respiro mais profundo após acordar de um pesadelo. Ainda que o derradeiro ato desta obra esteja longe de não carregar o seu devido peso, desde a primeira frase até a última linha.

José Petrola nasceu em São Paulo em 1988. Formado em Jornalismo e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, começou sua carreira como repórter na Folha de S.Paulo. Desde 2012, mora no Rio de Janeiro e trabalha na Petrobras, tendo atuado nas áreas de comunicação e responsabilidade social. Surdo oralizado, busca na palavra escrita o som do mundo. Foi aluno da Oficina Literária Ivan Proença por três anos e integra o coletivo Clube da Leitura. Estreou com o livro O Beco do Rato (Ed. Jaguatirica, 2018) e tem diversos contos e poemas publicados em revistas e antologias.

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