Blues e Minotauros, de Bruno Gaudêncio

Composto por quarenta poemas produzidos entre 2018 e 2020, e realizado com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, “Blues e Minotauros” (Editora Leve, 2021), de Bruno Gaudêncio, é uma obra que expressa a inconformidade com o mundo, em forma de lamento, denúncia e testamento, contendo ainda nove ilustrações de Felipe Stefani, que dialogam em perfeita harmonia com as imagens poéticas tecidas pelo autor.

A escrita, o tempo, o sonho, a vida e a morte, temas que se repetem na primeira parte, assim como a memória, o cão, a criança, o homem e o animal mítico, feito pentatônicas deste blues que há dentro do eu-lírico. E, de fato, há um quê de canções de trabalho característico do gênero mencionado, como no poema de abertura “Esta vida”, dedicado a Bruno Ribeiro, ou em “Tatuagens”, “Epitáfio” e em tantos outros em que o ofício aparece. Bem como o grito extasiado e transcendente das orações, nitidamente audível no poema que traz em seu verso o “abismo que late”, ou o “som e fúria / no dizer” em “Sempre”. Mas, sobretudo, uma palavra e outra atacada numa frase feito uma Blue note ligeiramente melancólica em “Mudar de casa é como morrer”, “Lápide”, “Arcanos”, “Queda” e “Linha M (um poema de Patti Smith)”.

Só eu sei quantos / não colecionei / em meu museu interior”, “sou tantos / que não sou nenhum / dos tolos todos / que sempre fui

Ainda que os temas supracitados reapareçam na segunda parte intitulada “O labirinto é um monstro guardado”, Bruno Gaudêncio explora o lado mais experimental, diverso e alternativo de sua obra, como de praxe ocorre no B-side, sem haver, no entanto e necessariamente, uma ruptura no fluxo ou um lado completamente oposto do que nos fora apresentado antes, no tom e na forma. O que o diferencia do anterior é a intensificação na sensorialidade dos poemas, a intermitência de um jogo entre a suspensão e a vertigem que a experiência labiríntica proporciona. Esse abrir-se “(o cerco / o medo / o sono) / nas feridas / abertas / do abandono”, o consumir-se pelo fogo e “rasgar poeiras / nas manhãs / ensolaradas”, “o fim mais próximo a chegar”, nos “legados de angústia”, no zumbi de “um palmares / aceso / à resistência”.

Oriundos de um triênio marcado pelo ódio e as mais diversas formas de intolerância e violência, os poemas de Gaudêncio também são marcados pela crítica social e uma espécie de elegia ao corpo. Como nos versos de “Apontamento” e “o osso exposto / o sangue a correr / no dedo ereto / a acusar a causa // do outro”, assim como nos versos sobre um homem que morre de frio no rio pequeno em “Olhos fixos” e no “corpo / implodido / por um / meteoro / microscópico” em “Ruas vazias”, dedicado a “todos nós vítimas do Covid-19”.

É mentira morrer todo dia / a sombra das janelas / não significam quintais // olhar a boca escondendo / o sorriso / (a nuca diz tudo) // os pelos disparatados / em sua geografia especial // É verdade ressuscitar o destino / a clareza na porta / ressignifica os finais // tocar o rosto desparecendo / a tristeza / (as mãos dizem pouco) // os dedos disfarçados / em uma cartografia sem igual”.

Como dito por Andri Carvão na orelha do livro: “Blues e Minotauros é um livro de poesia que não se fecha em si, trata-se mais de uma obra aberta do poeta paraibano, que reverbera em outros muitos cantos”. Oxalá esteja certo o poeta e que este canto entoado por Bruno continue a ressoar em outros corpos.

Bruno Gaudêncio é historiador e jornalista de formação, além de escritor e professor universitário. Natural de Campina Grande (1985). Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). É membro da Academia de Letras de Campina Grande (ALCG) e sócio efetivo do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG). Possui vários livros publicados, dentre eles “Ofício de Engordar as Sombras” (Sal da Terra, 2009); “Acaso Caos” (Ideia, 2013); “O Silêncio Branco” (2015, Patuá) e “O Caos Anterior ou Uma Antologia de Si” (Patuá, 2015) e “A cicatriz que canta o incêndio da raiz” (Moinhos, 2018). Foi um dos vencedores do Prêmio Incentivo à Literatura 200 anos de Independência do Brasil – 2018. A coletânea de poemas “Blues e Minotauros” é sua produção mais recente e é fruto da Lei Aldir Blanc.

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