Morte certa, de Dau Bastos

Composta por “Mar Negro” (Ponteio, 2014) e “Espiral” (Ponteio, 2017), o escritor e professor Dau Bastos encerra a sua trilogia alagoana com “Morte certa” (Patuá, 2021). Uma obra instigante que tece um panorama sociopolítico-cultural e intelectual de dois períodos significativos da nossa recente história, situados entre as décadas de 80 e 90 do século passado, tendo como cenário a zona canavieira de Alagoas.

Partindo de um acerto de contas definitivo que o narrador e protagonista, Artidoro Baraúna (mais conhecido como Doro), almeja realizar ao retornar para a sua terra natal — cujo objetivo era partilhar as terras da fazenda Cacimbinhas com os cortadores de cana e demais funcionários residentes nela e depois cometer suicídio —, aos poucos nos embrenhamos numa trama com aspectos muito mais amplos e profundos do que as desventuras de um sujeito malsucedido nos negócios e no amor. E apesar de Doro relembrar o tempo inteiro o seu desejo suicida, o engano, a trapaça e a traição são sinônimos para o mesmo leitmotiv que orienta a narrativa como um todo e move as ações de um núcleo maior de personagens, como o prisma pelo qual se decompõe a historiografia nacional e regional.

Quer seja a traição do pai, da esposa, a falcatrua dos usineiros para adquirir as terras dos produtores falidos, a manobra do Governo para beneficiar os latifundiários/apoiadores cobrando mais impostos dos consumidores, ou ainda o Confisco das poupanças realizado pelo ex-presidente Fernando Collor, ‘impeachmado’ em 1992; o caráter audacioso de  “Morte certa” se dá justamente na compilação de dados históricos e referência à figuras importantes como Dom Hélder, Miguel Arraes, Paulo Freire, Carl Rogers, Celso Furtado, Sivuca e Hermeto Paschoal, entre outros, muito bem articulados à trama pelo autor. Como, por exemplo, no subcapítulo “Socráticos”, em que dois funcionários recém-chegados de Pernambuco replicam a pedagogia freireana utilizada em Angicos, para alfabetizar os funcionários da fazenda e posteriormente organizar um levante contra o patrão.

Do ponto de vista microcósmico, isto é, olhando de perto a construção do narrador-protagonista, Doro, apesar de a pulsão de morte em que ele se encontra nos ser apresentada mais como uma ideia fixa no início da obra — razoavelmente justificada por ser corno, não ter a aprovação do pai e o culpá-lo pela morte da mãe —, pouco a pouco essa estranheza, ou falta de uma atmosfera melancólica e desesperada, ganha ares estratégicos do autor. Ou seja, o próprio narrador/pretenso-suicida passa a desconfiar da narrativa idealizada, saindo da condição de criatura “afundada em fiasco, com a autoestima destruída e o emocional em frangalhos”, para aos poucos reconhecer que “em menos de três dias contornei tantas possibilidades de me matar que o plano [de conferir um sentido social à morte] caiu completamente no ridículo”. O que só é possível quando esse olhar para si mesmo se expande, e o indivíduo em questão percebe o quão pequeno e insipiente são os seus problemas diante dos tormentos que afligem os menos afortunados e de uma realidade imposta pelos poderosos.

Felizmente estou livre de tal condicionamento, pois não tenho filho nem mulher. Uma família nunca me deixaria transformar o que resta da propriedade em paga a antigos moradores, que se sucederam na serventia e, de uma hora pra outra, foram afastados com o ressarcimento certamente lesivo, pois pai sempre os viu como privilegiados simplesmente por terem teto, farofa e charque. Sim, farei um levantamento dos sobreviventes com direito a pedaços da sobra e, antes de me matar, registrarei seus nomes nos documentos dos lotes, devidamente lavrados em cartório”.

Morte certa” nos apresenta uma pequena e considerável fração da cultura nordestina, seus costumes, conhecimentos, crenças, artes, a moral e suas leis, bem como os mandos e desmandos que forjaram seu povo, a natureza bravia da região e o modo como o homem a modificou e foi modificado por ela. Embora essas imagens sejam representadas com todas as suas cores, formas, luzes e sombras, muitas das referências supracitadas se encontram em um detalhe e outro no seio da narrativa, como numa menção ao lampião Aladim, copos Nadir, expressões regionalistas ou até mesmo num único vocábulo inserido no parágrafo, como se fosse uma assinatura diminuta gravada no canto de uma tela. Além, é claro, de trazer em seu elenco os mais variados tipos, alguns bem conhecidos dos clássicos regionalistas e outros menos explorados, o que torna a obra ainda mais atraente.

Dau Bastos nasceu em 1960, na cidade de Maceió. É professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde mantém a oficina Contos do Fundão. Tem, entre seus livros, a tese Céline e a ruína do Velho Mundo (EdUERJ, 2003) e a biografia Machado de Assis – num recanto, um mundo inteiro (Garamond, 2008). Dedicado sobretudo à produção de narrativas, lançou Das trips, coração (Marco Zero, 1984), Snif (Marco Zero, 1987), Clandestinos na América (Relume Dumará, 2005) e Reima (Record, 2009). O romance que o leitor tem em mãos forma, juntamente com Mar Negro (Ponteio, 2014) e Espiral (Ponteio, 2017), o que o autor chama de trilogia alagoana, resultante do esforço de recriar ficcionalmente suas raízes, situadas entre o litoral e o agreste.

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