Sonho negro, de Sandra Godinho

Quem conhece a obra de Sandra Godinho não duvida que ela é uma das grandes escritoras contemporâneas, dona de uma voz narrativa sui generis e de um impressionante fôlego para a pesquisa histórica. O diferencial entre algumas narrativas que se apoiam na historiografia e as desenvolvidas por Sandra, vale ressaltar, se encontra justamente no lirismo de sua voz e, sobretudo, na agudeza do seu olhar para o que há de mais humano em suas personagens. Como ocorre em seu último romance, “Sonho negro” (Caravana, 2021), narrado por Pedro, Bruno, Helena e Gabriel.

Baseado na explosão do poço 33 do campo de Enchova, na Bacia de Campos (RJ), em 16 de agosto 1984, tido como o maior acidente ocorrido com as plataformas da Petrobras, quando 37 trabalhadores morrem afogados e outros 17 ficam feridos; Sandra Godinho retoma um dos trágicos capítulos de nossa História para falar sobre a ambição de um país em se tornar autossuficiente na produção de petróleo, sob o prisma dos seus narradores, igualmente obstinados em realizar seus sonhos. Nessa perspectiva, o negrume mencionado no título se refere tanto ao projeto político-econômico da empresa estatal quanto aos desejos e caminhos trilhados pelos personagens que compõe a obra, em especial os de Pedro, Bruno e Helena.

Pedro é descrito por si mesmo como um jovem que abdicou “de baladas, namoricos e transas, exatamente na melhor época da vida, quando um jovem de vinte e poucos anos quer sexo sem compromisso, drogar-se, enlouquecer por aí, viajar sem destino, mochilão nas costas para curtir a vida”, que teve a sorte de encontrar Bruno, outro jovem tão determinado quanto ele, tido ainda por Pedro como “uma réplica humana” de si mesmo, um irmão que nunca teve, apesar de ser o seu extremo oposto. Como de praxe, a diferença entre os dois protagonistas-narradores se dá na construção de seus caracteres e temperamento de espírito. Enquanto Pedro busca a excelência profissional sem abrir mão de uma certa bússola moral — mesmo que para isso seja necessário colocar em segundo plano a própria família —, por outro lado, Bruno é aquele que não medirá esforços para “se dar bem na vida”, com toda ambiguidade de sentido que a frase em questão nos permite interpretar.

No fundo, é possível também descrevê-los como lados opostos da mesma moeda, sobretudo quando lançamos um olhar para além daquilo que a própria Helena diz sobre si mesma, enquanto uma jovem apaixonada pelas artes plásticas e pela literatura, ávida para viver uma história de amor. Dotada de um romantismo capaz de fazê-la abrir mão da faculdade, da pintura e de tudo aquilo que dava sentido a sua vida para se casar com Pedro e se entregar por inteira a esse relacionamento, o nascimento do seu filho, Gabriel, e o envolvimento com Bruno, atenuam ainda mais a crise existencial que lhe caracteriza desde as primeiras linhas de “Sonho negro.

Ao cruzar o limiar do aceitável, atingimos a possibilidade palpável de nos fazer evoluir e revirar a alma. Atingimos o patamar em que se ignora o passado ou se aprende com ele, escrutinando os escombros, colapsando essa porta que nunca se abre aos incômodos, ou que nunca se deixou abrir. Há nesse ato alguma sabedoria e a pretensa exaltação ao potencial humano, que busca se equilibrar entre a sanidade sórdida e a insensatez desvairada. A gente se julga especial, a gente sempre se julga maior que alguma coisa. Ao menos, caçamos o reconhecimento como se realmente o merecêssemos. Não merecemos”.

Ao contrário de sua personagem, Sandra não romantiza as relações representadas em sua obra, mostrando, inclusive, as angústias, incertezas e sofrimentos que a maternidade traz, bem como os descaminhos que uma entrega incondicional ao outro pode acarretar. A interpretação do que a história do trio tem a nos dizer e de que modo ela nos toca, como se sabe, depende substancialmente da abertura feita por cada leitor — o que é outro mérito das narrativas tecidas pela autora.

Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas de contos, sendo agraciada com alguns prêmios. Publicou “O Poder da Fé” (2016), “Olho a Olho com a Medusa” (2017), “Orelha Lavada, Infância Roubada” (2018) – agraciado com Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), “O Verso do Reverso” (2019) – Prêmio Cidade de Manaus 2019 de Melhor livro de Contos, “Terra da Promissão” (2019), “As Três Faces da Sombra” (2020) e “Tocaia do Norte” (2020) – Prêmio Cidade de Manaus de Melhor Romance Nacional (2020).

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