O dia perdido, de Larissa de Oliveira Neves

Já que estamos em via de comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, nada mais oportuno do que falarmos sobre “O dia perdido” (Patuá, 2020), obra de estreia de Larissa de Oliveira Neves, que tem como pano de fundo o próprio evento e o teatro, ou mais precisamente, a ausência do gênero na Semana que ocorreu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Obra que contou com o apoio do edital de Produção e Publicação de Obras sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 no Estado de São Paulo, pelo Programa de Ação Cultural – ProAC/Secult/SP.

Em meio aos diálogos do grupo de artistas envolvidos na organização do evento, composto por Oswaldo, Mário, Zina, Anita e Heitor, a autora nos insere nesta celeuma sobre o teatro brasileiro, há poucos meses antes do início da Semana. Peça dividida em quatro atos e um epílogo, que ainda conta com as participações de uma personagem (in)oportuna, uma inusitada e outra especial, respectivamente: Antônio, Roberto e Paulo.

Parece até absurdo que essa falta tenha acontecido em uma Semana de Arte que ambicionava ser o divisor de águas para a Arte e a Cultura nacional, e os próprios personagens de Oliveira Neves reconhecem o peso da questão no decorrer do segundo ato. Mas, além de ser um equívoco não incluir uma das expressões artísticas mais antigas e nobres, como é o teatro, a carência do gênero na programação não deixa de ser uma crítica às produções nacionais da época e aos artistas que organizaram o evento. “A Semana acontece no palco do Teatro Municipal! Não entendem a gravidade da situação?”, interpela Oswald aos seus colegas. Entender eles até entendiam, ainda que a contragosto, mas o maior problema, para os modernistas, era a não-existência de um teatro nacional capaz de representar a modernidade que eles tanto almejavam (que fosse consonante ao que eles consideravam moderno), sem falar no pouquíssimo tempo que tinham e a falta de conhecimento para produzirem algo que resolvesse o problema.

Entre ironias, críticas ácidas e um tom humorístico variando entre o leve e o acentuado, Larissa de Oliveira Neves torna ainda mais simbólico o dia perdido em questão, isto é, aquele que poderia e deveria ser ocupado por uma peça de teatro na Semana de 1922. E por que não houve? Por que esse dia se perdeu? Não havia algo, de fato, tão moderno no país que pudesse ser encenado?

Uma das questões mais urgentes para resolver o imbróglio era “destruir o resultado aborrível da influência nefasta das comediazinhas parisienses, dedicadas aos forasteiros de vinte e trinta anos atrás no pieguismo nacional”, que dominavam as peças por aqui produzidas. A solução, portanto, não poderia ser outra a não ser abrasileirar o teatro brasileiro, ou “Melhor: apaulistanizêmo-lo”, como sugerido pelo (in)oportuno personagem, Antônio. O que não deixa de ser uma crítica aos vanguardistas da época, por terem São Paulo como a única cidade capaz de representar o projeto modernista.

O teatro está aí. No ventre da terra, clamando por parteira (…). Sim! Está aí na macumba, no sertão, nos porões, nos fandangos, nas cheganças, em todos os lugares e em todas as festanças (…). Onde o povinho se reúne e fala os desejos e os sentimentos que tem! (…). Pois tudo isso misturado tem mais um filho. É o teatro bagunça (…). Vivemos na balbúrdia, a pândega é o nosso pão de cada dia e cada noite (…). Remontemos à Grécia (…). É preciso inventar, apelar para o fantástico. A teatralidade. A mestiçagem. A confusão das profissões, convicções, instituições”.

Descrito por algumas personagens como um apêndice à Semana de Arte Moderna, “O dia perdido” lança um olhar tanto para o teatro nacional, quanto para a Semana de Arte Moderna e para seus organizadores; e, como dito anteriormente, o momento não poderia ser mais oportuno, em virtude do seu centenário. Como uma ficção que é, a peça de Oliveira Neves se ocupa mais em proporcionar um bom espetáculo e despertar a curiosidade para algo aparentemente irrelevante — como algumas falas aludem sobre a ausência do teatro no evento —, do que tecer uma tese qualquer sobre os temas que a Semana de Arte Moderna evocam. Concorde o leitor/espectador com essas questões ou não, uma coisa é certa: em vários momentos a diversão é garantida.

Larissa de Oliveira Neves nasceu em Campinas-SP, em 1978. Mora nessa mesma cidade com seu marido, três filhos e dois cachorros. Ama teatro desde a infância, encontrou seu lugar nesse universo mágico não em cima dos palcos ou no centro da cena, mas escrevendo, assistindo e lendo. Optou então por buscar conhecer a fundo a história do teatro brasileiro, onde está, também, manifesta a nossa cultura popular. Foi a história do teatro que a instigou a escrever este livro, sua primeira obra de ficção a ser publicada. É professora e pesquisadora de teatro brasileiro da Universidade Estadual de Campinas desde 2009.

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