Relatos insignificantes de vidas anônimas, de Rosana Vinguenbah

Após estrear com o romance “Sopa de pedras” (Penalux, 2018), Rosana Vinguenbah lança seu primeiro livro de contos, intitulado “Relatos insignificantes de vidas anônimas” (Caos&Letras, 2021). Assim como na obra anterior, os cenários e personagens construídos por Rosana em seus contos retratam a vida interiorana de um Brasil profundo, cuja realidade se distancia em inúmeros aspectos daquelas relativas aos grandes centros urbanos. Incluindo em sua atmosfera elementos do realismo mágico, além de demonstrar uma estética bem mais apurada e maior refinamento na escrita.

Em seu conto de abertura, “Herdeira do tempo”, sua crítica à modernidade pode até passar desapercebida pelo leitor mais apressado, visto que, embora o relógio de Corina precisasse de conserto “para que a vida das pessoas não perdesse o controle”, o fato de o relojoeiro nunca ter “visto em sua vida uma engrenagem como aquela” é uma mera casualidade diante da troca do “mecanismo por um mais moderno”, razão pela qual “a partir daquele momento, todos se tornariam reféns do tempo”.

É possível também estabelecer em tal conto uma visão antinômica sobre o regimento do tempo na perspectiva masculina e feminina, simbolizada por Corina e Cronos. Enquanto o deus grego teve que castrar o pai e jogar seus testículos no oceano para se tornar o senhor do céu e passar a devorar os próprios filhos até ser derrotado por eles na Titanomaquia; Corina, que “De sua avó, recebeu os ensinamentos que a transformaram em protetora do tempo”, apesar de não ter sido “abençoada com a maternidade”, sem nenhum rancor “ajudara muitas crianças a vir ao mundo”. Isto é, se de um lado a masculinidade transforma o patriarcado numa carnificina pelo poder, do outro, o feminino conduz o matriarcado com sororidade e zelo em prol da vida humana — o que me faz pensar se a história não teria um final diferente se o relógio de Corina fosse consertado por uma relojoeira.

Em “Cheiro de caju”, Rosana se arrisca a deixar registrado a sua versão da clássica rivalidade entre irmãos, por meio das personagens Dora e Dulce, a primeira descrita como “doce e carinhos, enquanto Dulce tinha uma personalidade impetuosa”. Notadamente conhecido pelo conceito de Rivalidade fraterna, Freud chegou a dizer que “Provavelmente não há quarto de crianças sem violentos conflitos entre seus ocupantes. Os motivos de tais desavenças são a rivalidade pelo amor dos pais, pelas posses comuns, pelo espaço vital. Os impulsos hostis são dirigidos contra membros da família mais velhos e também mais novos”. E no caso das personagens de Vinguenbah, apesar de “o sentimento inútil de ódio e inveja que dominava Dulce” não impedir que sua irmã florescesse, inevitável foi não se definhar de ódio e tornar insustentável a convivência com Dora e os pais. Arrisco dizer que a maior sacada de Rosana, neste caso, foi a forma como finaliza o conto, sem pesar sobre os ombros de Dulce a culpa e o arrependimento pela decisão tomada ao fim de tudo, como acontecera com o filho pródigo. Ter dias que a saudade aperta, não significa dizer que alguém arrependeu-se amargamente do que fez, mas que, em outros dias, sua decisão pode ter sido a mais sábia na vida. Se essa interpretação é válida ou não, isso Rosana deixa a cargo do leitor, como de praxe deve ser e ocorre com as melhores histórias.

A guarda de um segredo até a ida para o túmulo em “Segredo”; a prova do próprio veneno e o anti-ciganismo xenofóbico em “Discórdia”; a subversão juvenil em busca da liberdade e a coerção sociofamiliar em “Más companhias”; a violência conjugal e a ressignificação da vida entre os mortos em “O buraco”; a dureza e a simplicidade da vida campesina e a crueldade infantil em “O encantador de galinhas”; a decadência do mundo e a memória olfativa em “Répteis e sementes”; o levante ancestral dos quilombolas contra a escravatura em “Nadifa de Catunda”.

Rosana finaliza sua obra com o conto “Máquina fotográfica”, notadamente um dos mais encantadores e ternos de “Relatos insignificantes…”. O motivo condutor da narrativa é a memória, metaforizada pela mania acumulativa que muitos de nós temos por objetos que poderíamos facilmente nos desapegar, e inúmeros deles até mesmo sequer guardá-los. Por isso, a tarefa inicial da personagem é aquela que deveríamos fazer com certa frequência: “praticar o desapego”, jogar “no lixo tudo o que não servisse mais” e “abrir espaço para que novos objetos pudessem ser entulhados” — visto que, inevitavelmente, voltaremos a acumular um objeto e outro ao longo da vida. A maior dificuldade em tal tarefa está no desapego a determinados objetos, muito em conta pela memória afetiva que eles suscitam, como no caso da máquina fotográfica que nomeia o conto. Mas se “um dia, nossas lembranças farão parte de um amontoado de tranqueiras guardadas em uma caixa papelão, no quartinho de despejo de alguém” — frase esta que considero uma das mais bela da obra —, saber que, mesmo vivendo no anonimato para muitos, ter alguém para acumular e reviver nossa memória, indubitavelmente é o nosso bem mais precioso.

Rosana Vinguenbah nasceu em São Paulo e é radicada em Minas Gerais desde a infância. Bióloga, atua como Funcionária Pública Administrativa. Autora do romance “Sopa de Pedras” (Penalux, 2018), teve um texto selecionado para a coletânea de contos “Retratos de uma Vida em Quarentena” (Dublinense/Elefante, 2020), e venceu o Concurso Literário Pintura das Palavras, entre mais de mil textos enviados, com o conto “Baixo Augusta”. Mantém o perfil @rosana_vinguenbah no Instagram, onde fala sobre livros com ênfase em Literatura Nacional Contemporânea.

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