Um mundo em que existem baleias, de Gabriel Schincariol Cavalcante

Se viver é um ofício, como disse Jean-Jacques Rousseau, e antes da vocação dos pais, a natureza nos chama para a vida humana, não raro é o embate travado entre os desejos e a liberdade da criança com o cuidado e o autoritarismo dos pais. É neste sentido que, mais do que um olhar das crianças para a vida, ou dos adultos para elas, os doze contos que compõem “Um mundo em que existem baleias” (Patuá, 2021), de Gabriel Schincariol Cavalcante, podem ser descritos como um retrato da vida humana em seu estado mais pulsante e originário.

Gabriel inicia sua obra com o conto “O nome”, cuja personagem Ana trava uma verdadeira jornada filosófica em busca do sentido e motivo pelo qual recebera tal nome. Chamei de jornada filosófica porque o problema levantado por Ana remonta desde a Grécia Antiga até a modernidade, não sem antes provocar um escarcéu entre os medievais na famigerada querela dos universais, entre realistas e nominalistas. Em linhas gerais, enquanto para os Sofistas, um nome não designa por sua própria natureza a coisa, Platão rejeitava tal hipótese afirmando que os nomes são ao mesmo tempo convencionais e constantes, visto que as coisas têm uma natureza fixa e o nome é adotado para exprimir essa natureza. Argumento semelhante ao proferido por Ana, após sua mãe dizer que a escolha do seu nome se deu na mesma lógica que ela usou para “chamar o [cachorro] Tobias de Tobias. Ana olhou para o cachorro, para o focinho do cachorro, para a feição de Tobias do cachorro, e disse, apontando o dedo, mais sussurrou do que disse, Ele tem cara de Tobias”.

Em “Caravelas”, o corpo e a normatividade se tornam na questão a ser investigado por dois personagens, na hora do banho compartilhado. Logo no primeiro parágrafo o narrador observa: “Um corpo não é mais que um corpo, composto por cada um dos seus membros, os braços, as pernas, o nariz, o sexo, os contornos, articulações, juntas, rejuntes, nervos, músculos, quebra-cabeça bem montado e fixado para dar vazão à existência que se confina no fundo do crânio”. E mais adiante os personagens especulam: “E se não tivéssemos nariz?, Se não tivéssemos nariz desde o princípio não saberíamos o que é um nariz, então seria normal não ter nariz. Mas e se hoje, eu não tivesse um nariz?, Aí seria muito estranho, já que o mundo todo tem nariz. (…) tudo é questão de acostumar, eu acho. Descobriram na imaginação infantil o que significa um padrão, um padrão é algo que se repete, que se replica e assim, ao longo do tempo, toma contornos de normalidade, fazendo om que todos olhem para aquilo sem nenhuma surpresa”.

Quer seja ante a pergunta pelo ser das coisas, da essência e natureza dos fenômenos linguísticos e demais questões problematizadas na obra, o que mais chama a atenção em “Um mundo em que existem baleias”, é a forma como o autor diferencia a postura das crianças e dos adultos. Enquanto os pais, detentores do saber, sempre aptos a darem respostas, acham graça e riem das perguntas que as crianças os fazem — quando não se espantam e as reprimem violentamente ao flagrarem-nas investigando algo por conta própria. As crianças, por sua vez, são representadas por Gabriel com toda sua ingenuidade e intrepidez de espírito, movidos por “aquela decisão de quem não sabe o que o perigo significa”, no que o conto “Pedagogia de menino” bem descreve como “coragem cega da infância”, visto que “Nenhuma criança se queima com a panela por vontade própria. Nenhuma criança pula da janela por vontade própria. Nenhuma criança coloca a mão na boca do cachorro por vontade própria. [Pois] A criança investiga por vontade própria, porque precisa descobrir, porque precisa crescer, porque precisa ser”.

A opressão familiar metaforizada em um monstro no conto “Hierarquia”; a incompreensão dos pais ao mundo em que os próprios filhos vivem, em “O que é que dá no pé de manga”; a teofobia na infância e o absurdo do mundo em “O papa também morre”; a impossibilidade do afeto e de ser a si mesmo em “Lugar na mesa”; o saber e o não-saber o que se sabe em “Caminho de casa”; os rituais de iniciação e a ruptura da barreira entre o real e o midiático em “Grande mas não dois”; o não saber o que fazer diante de uma revelação em “A descoberta do pai”; a crença inquebrantável entre dois corações amigos no cenário mágico de suas realidades em “Molho de mil tomates”.

Por fim, no conto que dá nome a obra, “Um mundo em que existem baleias”, a criança-protagonista sente dentro de si o inquietante desejo de adentrar no mar, não apenas “porque ele não precisava nadar em círculos para fazer a água dançar”, mas porque, assim como ele, “O mar estava vivo, ele tinha certeza, porque só isso explicava a água vindo crescente, para desmoronar perto da areia”. Como todo e qualquer limite imposto pelos adultos, não há lógica ou cabimento para uma criança em não poder experienciar ao máximo o que arde em seu peito. Embora, eventualmente reconheça que tais imposições visam apenas o seu bem e não a sua infelicidade — o que, em certa medida, não deixa de ser um paradoxo.

Gabriel Schincariol Cavalcante nasceu na cidade de Boituva, no interior de São Paulo. Estudou na Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar, em Barbacena, onde começou a escrever com maior frequência, como contraponto ao restrito regime militar. É formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Foi premiado na 4ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa com o artigo “O passado que não passou”, e venceu o concurso Nascente 2019, maior concurso cultural da USP, com a coletânea de contos “A história dos homens”. É escritor, ainda que a sua ocupação no imposto de renda diga outra coisa.

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