Entre-Terras, de Amanda Kristensen

Lançado em 2020 pela editora Patuá, “Entre-Terras” marca a estreia de Amanda Kristensen na literatura, reunindo seis histórias que problematizam a condição humana, questões sociais e o autoconhecimento, tendo como ponto de partida os traumas da infância e seus reflexos na vida adulta. O que nos permite até caracterizá-las como “Contos de formação”, tomando de empréstimo o termo Bildungsroman, geralmente aplicado a obras mais longas em que se nota um caráter formativo nas experiências de vida das personagens.

É o que se observa, por exemplo, no conto de abertura, “Aviso da Meretriz”, conduzido por Amanda Kristensen por meio de um lirismo prosaico, próximo do estilo empregado pelos cordelistas, cuja própria primeira divisão do conto (“1 – cordel”) indica a referência — e que reaparecerá em “Carlinhos: o banguela de campinhos”. Diante da trajetória sofrida da protagonista, os traumas da infância e vida adulta, da tragédia que recairá sobre a cidade e até mesmo diante da forma explorada por Kristensen, o que talvez menos chame a atenção no conto é justamente o que eu considero mais relevante e que acredito ter sido um dos fios condutores de grande parte da obra: me refiro ao valor da palavra, e mais precisamente, aos conceitos de injustiça testemunhal, credibilidade e preconceito epistêmico teorizados pela filósofa inglesa Miranda Fricker.

De acordo com a filósofa, enquanto a injustiça testemunhal diz respeito ao deficit de credibilidade que o ouvinte atribui ao falante; e o preconceito epistêmico se estabelece de acordo com o grau de credibilidade do que uma pessoa fala de acordo como o gênero, a etnia e a classe social, bem como na interseção dessas categorias que influenciarão a maneira como cada pessoa é percebida pelo seu receptor; ou seja, no modo como alguém é engenhosamente rebaixado ou desfavorecido de acordo com seu status como um sujeito epistêmico. Não à toa o desdenho do alerta proferido por uma travesti incidirá fatalmente no desenrolar do conto supracitado.

A questão valorativa do que o outro diz e do que ele pode compreender, de acordo com seu status, reaparece no segundo conto, “Cheiro de hortelã”, que narra o encontro de uma estudante de medicina com um idoso que produz óleo de hortelã. Como uma conhecedora do existencialismo heideggeriano, o discurso da narradora-protagonista nos chama a atenção ainda para questões ontológicas, místicas e bioancestrais, enquanto rememora o encontro com o misterioso senhor numa rodoviária no norte da Bahia e reflete sobre a indesejada gestação, o relacionamento com o colega de faculdade de quem engravidara, a carreira profissional e seu futuro.

Seja ante a incredulidade no relato de uma criança ou no de uma esposa com a sanidade mental sob suspeita, em “O tatu de Sento Sé” e “O analista”, Amanda Kristensen retorna aos conceitos de Fricker, unindo-os à questão da avareza e do ciúme. Aqui, mais uma vez, a autora desenvolve com leveza um mergulho na interioridade humana, explorando o seu lado mais obscuro, assustador e cruel. A fantasia, o delírio, o sonho e uma certa aproximação da linguagem oral, vez e outra ornada de um lirismo que confere à obra a impressão de estarmos ouvindo contações de causos aos pés da fogueira e a Literatura de cordel, tornam a experiência estética literária mais aprazível. Sobretudo pela não-utilização de um tom professoral, hermético e filosofante que algumas autoras e autores recorrem diante das grandes questões humanas como a felicidade, o corpo, a alma, a vida e a morte.

Muito daquilo que somos tem a ver com o lugar que viemos e onde estamos, e às vezes, até mesmo os não-lugares — este espaço afetivo, memorial e, portanto, não-físico —constitui o ser de uma pessoa. E embora os personagens de “Entre-Terras” se transportem para esses não-lugares nos momentos mais diversos ao longo de suas jornadas, essa ideia se mostra de modo mais evidente no conto “As ilhas de Célia”, com os refúgios mentais da protagonista na contemplação do pôr do sol e “no barulho da água do rio do sítio da avó, no bolo de fubá que só aquela senhorinha sabia fazer”. Mas o entrelaçamento desses espaços não se restringe ao físico e o não-físico. Em um só passo podemos sair do Nordeste para o Sudeste e Sul do país, e mais do que isso, perceber quão ínfima é a distância entre um lugar e outro quando se estreitam as relações interpessoais e os laços familiares, e até mesmo o que fomos, o que somos e o que desejaríamos ser.

Amanda Kristensen é natural de Bocaina, SP, e reside em Cascavel, onde é professora de Língua Portuguesa. É graduanda em Letras (Unesp) em Araraquara, Pedagoga, Mestra e doutoranda em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).

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