Mulheres de Hopper, de Katia Marchese

Numa época em que o temor da solidão assemelha-se ao de um vírus assassino e, por vezes, se revela mais temível ainda, sobretudo por aqueles que anseiam milhares de seguidores e fazem da vida a busca por likes; ao contrário da solidão, do vazio, da desolação e estagnação da vida humana expressas nas obras de Edward Hopper, Katia Marchese revela-nos a outra face da cotidianidade das mulheres comuns em “Mulheres de Hopper”, lançada pela Editora Patuá em 2020. Obra que reúne vinte e seis poemas ilustrados por Isabela Sancho, inspiradas nas telas do pintor norte-americano tematizadas em: Trajetos, Janelas, Quartos e Casas.

Assim como as obras de Hopper representam curtos momentos saturados de sugestão, a aparente brevidade dos poemas de Katia Marchese se desfaz no exato instante em que suas palavras nos tocam. Em seu poema de abertura, “Rota 86”, mais do que arrebatar e sugerir uma infinidade de possibilidades de um final feliz, seus últimos versos soam como Ouvertures e Prelúdios de histórias que estão prestes a ganhar vida. Como se os eventos antecessores se assemelhassem ao afinar dos instrumentos e o burburinho do público e seus primeiros acordes nos lançassem diretamente para o coração da trama, no meio da ação, sem qualquer preâmbulo, e o término nos revelasse o incidente mais substancial e crucial da narrativa.

Ao contrário do que sugere a Arte Poética de Horácio e a sua famosa in medias res, nas Mulheres de Hopper importam menos os caminhos anteriores de suas personagens do que seus destinos futuros, pois é justamente para esses trajetos vindouros que as palavras finais nos apontam ante “a velocidade dos seus sapatos”. Ou como declara o eu lírico em “Deriva”: “Obedeci/ saí da ilha, saí de mim/ Em terra seca, à margem/ à beira do vão, sempre espero chuva// A poça dirá ao meu rosto quem era minha cidade?// Não importa/ a mãe cobria os espelhos/ não ensinou vaidades”.

Se por um lado as obras de Hopper representam o isolamento social da vida moderna, o silêncio perturbador na incomunicabilidade das figuras humanas e na solidão do universo feminino, sobretudo entre as duas grandes guerras — sempre à espera dos homens que partiram —; por outro, as imagens poéticas tecidas por Katia Marchese representam a solidão de uma outra espécie, àquela em que ocorre o encontro do Eu consigo mesmo e com o outro que habita o ser — avós, mães e filhas —, estabelecendo diálogos ancestrais, contemporâneos e vindouros: “A cabeça balança/ consente o parto/ O que dói são as linhas/ na barriga treme o desvio// Os olhos grifam/ ela está no meu rosto/ eu vejo, todos os dias/ ela está no meu rosto”.

Diante das janelas, na quietude dos olhos e da memória, encontra-se o corpo feminino que traz a vida ao mundo e aceita “a morte para reger o descompasso do corpo”. “Ficar a sós com seus ossos e cabelos/ Compreender as articulações/ emprestar fios ao movimento// A poltrona escolhe o sol// Até que a carne termine seus preenchimentos/ calça os sapatos negros e ensina luto aos pés pequenos”. Para tais mulheres, tão precioso quanto o riso e o choro, o amanhã é um bem a ser guardado. Não como se o agora fosse algo a ser vivido com cautela, longe do risco de não poder experienciar o que vem depois, mas sim como um chamamento. Um despertar sempre novo, anunciado por um galo em todas as manhãs, na constância desse tornar-se mulher que vai além do nascimento, cujo passar dos dias não é outra coisa senão acúmulo de incompletudes de um ser eterno em seu devir, visto que “Mais do que todos os sóis/ a noite drena o que não fui”.

Entregues às conspirações de seus desejos, as ilusões se dobram na disposição de braços e pernas ávidos em atender ao apelo da vida, dentro ou fora dos quartos, pois quando dentro deles, estamos sempre “oferecendo aquilo de que mais precisamos”, como quem “sabe que pode devorar um homem” e “sem mastigar, cuida/ para que o adormecido não desperte/ e não leve da vida impressão ruim”. Mulheres que são como moradas de si mesmas e de quem mais elas oferecerem acolhimento, mantendo “o fogo de Héstia/ e a alma das coisas” sempre acesos. Pois quando em suas casas residem “a mesma tristeza da casa vizinha”, e o cheiro de gás e o incêndio as consomem por inteiro, é justamente do outro lado da porta que se pode avistar a escada e a rua “que lá embaixo começa”, onde é possível gozar da liberdade e do prazer que a solitude oferece.

Katia Marchese, Santos, 1962. Consta nas antologias: Senhoras Obscenas I e III (Benfazeja, 2017 e Patuá, 2019), Tanto Mar sem Céu: Laboratório de Criação Poética (Lumme, 2017), Casa do Desejo: a literatura que desejamos (Patuá, 2018), Poesia em Tempos de Barbárie (org. Claudio Daniel; Lumme, 2019), Hilstinianas (Patuá, 2019), 80 balas, 80 poemas (org. Claudio Daniel; Zunái, 2020 [versão digital]), Coleção A Poesia Sobrevive (conjunto de cartas – Literatura SESC Campinas, 2020). Poemas nos periódicos: Germina, Musa Rara, Portal Vermelho, Zunái, Ruído Manifesto e Jornal Tornado – Portugal, O Rascunho, Revista Gueto. Publicações: plaquete Por favor, diga meu nome (edição Coletivo O Ateliê de Poesia; com a produção gráfica de Uva Costriuba, 2019). Formação no Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) de 2019 (Casa das Rosas – Museu Haroldo de Campos de Poesia e Literatura/SP). Participa do Coletivo O Ateliê de Poesia. Foi contemplada pelo ProAC Poesia de 2019, edital do Governo do Estado de São Paulo, com o projeto do livro Mulheres de Hopper. Mora em Campinas e é consultora em projetos de gestão pública. Mulheres de Hopper é seu primeiro livro.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s