Toró, de Daniel Pala Abeche

Vindo a lume no momento em que o fogo, a seca, o apagão e inúmeras outras tragédias ambientais e políticas nos assolam, a presente obra de Daniel Pala Abeche inspira-nos a meditar sobre o estado de coisas em que estamos submersos, quer sejam as tragédias sociais e humanas, ou a nossa própria interioridade e os seus escombros.

Composto por mais de oitenta poemas, “Toró” (Patuá, 2021) se divide entre uma abertura intitulada “Prelúdio da tempestade” e noutras quatro partes: “Noturnos”, “Penumbra reversa”, “Transições (in)transigentes” e “Atônitos”.

Em “Perder-se”, o eu lírico se vê diante da partida interpelada pela dúvida. O apelo é o de “se perder com uma bússola inerte/ desmagnetizada/ sem gê-pê-esse/ ausente de qualquer possibilidade de/ mapear-se/ cego ao farol das certezas numa praia/ qualquer/ distante da firmeza e do equilíbrio do/ indubitável”. A palavra final não poderia ser outra senão “ventura”, deslocada dos demais versos como quem se liberta ou não quer se prender. Assim é a vida, um caminho de incertezas cujos passos estão sempre à beira da felicidade, do infortúnio, do perigo, da ameaça, da sorte ou da morte. Independentemente do nosso desejo e disposição. Permanecer inerte é estar sob o risco daquilo que o segundo poema (“Inércia”) denuncia: a proliferação do que há de mais indigesto e mergulhar no atordoamento de insolentes impropérios dos que se contaminaram e permaneceram anestesiados ao horror que agora paira em todo canto.

Daniel Abeche desenvolve seus versos explorando os aspectos dicotômicos/ambivalentes das coisas, como no caso da noite, que norteia a primeira parte da obra. Se de um lado o tema e a sua atmosfera são carregados de angústia e pesar, como em “Noite adentro de si mesmo” e sua “busca pela paz interior inalcançável” frente ao “velório das quietudes no silêncio/ ensurdecedor da noite”. Do outro, a noite se nos apresenta em todo seu esplendor, ante “as estrelas na varanda da/ contemplação// o céu, em sua completude” preenchendo os “vazios de seu devir”. Noite que em tais casos é também oportuna para ingerir a “primeira e última dose do otimismo do dia” e varrer “para algures as inquietações do coração”, as angústias, os rancores, os dissabores no ambiente, as persistentes desilusões” e, quem sabe, enfim, ter uma boa noite. Ainda que ela não seja mais “habitada pelos errantes e pelos poetas” e agora tenha se tornado “habitat dos intolerantes e dos falsos profetas”.

É no caráter multifacetado das experiências humanas, ou, se preferirem, da sua condição e vivências, que os poemas de “Toró” são compostos. Tal qual a “Penumbra reversa, ou alguma esperança diante de tudo isso” e algum bom vento, tornado em si, incongruente, incauto, ante a democracia feito “figura obscura as ambições alheias/ sucateada diante do devir/ não almejada/ sobrevive/ moribunda viva quase morta”, ansiosa para borboletar-se entre os lírios e a poesia, no deleite e no âmago das coisas invisíveis, “jocosa sensação que esvanece diante da razão”, desencanto, virtude, os farelos de mim mesmo atuando feito casulo no delírio mnemônico de um trauma.

Em “Transições (in)transigentes”, Daniel abre a terceira parte de sua obra com “poetar-se”, ciente de que, mais do que alento, refúgio ou reflexo de um mundo distinto daquele que a visão comum enxerga, a Arte é força motriz para o desgarrar-se do que nos aprisiona e oprime, além de converter a pena em martelo na tarefa cada vez mais árdua e urgente de transformação do mundo. O tom imposto pela voz do eu lírico aqui emana saudade de uma vida dividida entre o que há de mais intenso e rarefeito na memória. Não se trata de um saudosismo pueril daqueles de que anseiam reviver o que já não mais existe, mas o que aflora numa consciência que sabe não ser mais o mesmo a cada instante, pois “os calos e as rugas não sinalizam imperfeição/ nem refletem algum tipo de desgaste/ são conquistas de quem chegou longe o bastante/ de gente que merece nossa devoção”.

No quarto capítulo e último capítulo, “Atônitos” é a palavra que o denomina e serve de mote ao poeta para compor seus versos. É nele que aparece de modo mais enfático o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, um dos principais autores da virada linguística, da lógica e da filosofia da linguagem. Assim como o pai do “Tractatus” e das “Investigações Filosóficas”, Daniel Abeche transforma o seu “Toró” num jogo de linguagem, como quem não teme a violência das águas, do vento, das enxurradas ou de se molhar por inteiro. É o que se observa entre as linhas de “Parecerista”, ao discorrer sobre o “sujeito que busca a mínima notabilidade” “por pessoa cuja sapiência é notória e inquestionável”. Quer prevaleça o azar ou a sorte na vida, há um quê de espantar-se no sentido filosófico do termo, perante o ineditismo das coisas sempre as mesmas, bem como perante a relatividade, a sub specie aeternis, o estrangeiro, a moral, a dialética, o abraço, o excesso, o ausente presente, as hipérboles, dilemas, calmaria, redenção, o enveredar, poetar e devanear, pois “Ao andar pelas ruas esquecidas de nossa infância/ O reconforto desdobra sua permissividade/ E a angústia presente mesmo que momentaneamente/ se ajeita/ se aquieta/ esvanece”.

Daniel Pala Abeche é professor universitário, pesquisador, músico e poeta. É doutor em Filosofia (PUCPR) e mestre em Comunicação e Semiótica (PUCSP). Pai da Alice, é paulista de nascença, mas reside em Curitiba desde 2015. Apaixonado por cinema e gastronomia, na poesia publicou “toró” (Patuá, 2021) e “Ímpetos e alguns lapsos” (Giostri, 2020).

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