Catálogo de pequenas espécies, de Tiago Germano

Depois de uma campanha pra lá de bem-sucedida em sua pré-venda, a primeira coletânea de contos de Tiago Germano, “Catálogo de pequenas espécies” (Caos&Letras, 2021), agora segue ao encontro de seus leitores e ao que tudo indica, isto é, a julgar pela experiência estética-literária que sua obra proporciona, arrisco dizer que o escritor paraibano e seus editores terão muito a celebrar com sua jornada.

Dividido em duas partes, “Taxonomia” e “Cadeia alimentar”, os vinte contos que compõem a coletânea proporcionam uma espécie de transitar por entre a interioridade das personagens (a pequena espécie humana e demais seres com quem convivem), bem como um se prender e se perder em suas angústias, solidões e desesperos que se corroem na cotidianidade dos dias e ficam impregnados feito sujeira e manchas debaixo das unhas, nas roupas, cortinas, sofás e em tantas outras superfícies corpóreas e materiais, tornando-se partes inseparáveis.

Em seu conto de abertura, “Até os lobos uivam quando estão sozinhos”, Tiago Germano transfigura a ideia de solidão coletiva no olhar vazio de um cão, no seu ganido que arranha a porta de metal e “penetra pelas frestas, pulando os muros, chegando aos ouvidos dos outros cães como um apelo solitário mas endêmico, que contamina toda a matilha dispersa pelos quintais”, além da própria solidão humana que, na ausência do outro, transforma o dinamismo da vida num automatismo, cujo vazio para o qual é tragado o sujeito e o seu estado de coisas assemelha-se a uma fome insaciável.

Esse mesmo abismamento e falta de sentido reaparecem em “Chiclete azedo”, dessa vez para falar sobre ideação suicida. Ao contrário de muitos, Tiago Germano reveste toda lugubridade e peso do tema com um certo humor e leveza, mesmo quando a imaginação do seu narrador/protagonista suscita imagens de suas pernas enfiadas no concreto e no tronco, a carne rasgando-se por dentro e seus órgãos e tecidos estourando “como bexigas de aniversário cheias d’água”, e todo seu corpo implodindo debaixo pra cima “demolido como uma construção em ruínas” — uma cena gore, longe de ser bem-humorada, convenhamos, sobretudo se olharmos apenas para o recorte aqui apresentado. Em todo caso, e como toda boa narrativa, o conto em questão nos possibilita outras leituras e certamente a mais evidente delas nos fala sobre a interrupção da vida e a nossa completa ignorância sobre a morte e o que pode ou não existir depois dela, bem como as surpresas e decepções decorrentes dessa experiência.

Em suas descrições e classificações taxonômicas, Tiago Germano compõe a primeira parte de sua obra falando sobre: a rudez de um pai de poucas palavras, sobretudo durante as refeições em que “não era lugar pra conversa” e os encantos de sua família com os espetáculos do circo, em “Le Gran Circus Moscow”; a escrita como Registro Diário de Pensamentos Disfuncionais e desbloqueio criativo, em “Diário de criação” — ou seria o exercício do (des)controle dos pensamentos, ansiedade, estresse e conflitos sociais no processo criativo? —; a relação entre um garoto e seu avô e a mentira como reinvenção da realidade e ludibriação dos percalços, em “Sobrevida”; a igualdade dos corpos na hora do sexo e a diferença entre ser e parecer, em “Xvideos”; o lado oculto da vida aos de uma criança, em “A procissão”, e seus mistérios e fantasias, em “O calango”; as faces da morte e seus dilemas em “O domador de hienas” e “O pequeno ateu”.

Se na primeira parte o autor se debruça sobre as questões intimistas, desviando a visão de seus personagens do exterior para dentro de si mesmos, e os efeitos das experiências vividas em suas constituições e desconstituições; em “Cadeia Alimentar”, a segunda parte de “Catálogo de pequenas espécies” reúne os contos que problematizam as relações humanas, numa espécie de estudo etológico. Como a repetição enquanto efeito narrativo e distúrbio psicossocial, em “Dia de coleta”, e o cinema como espaço de sociabilidade, memória e afetos, em “Matinês”. Os demais títulos são: “A lei do mais forte”, “Empregadas”, “Tio Oto”, “Ketchup e Maionese”, “Germes”, “Continência”, “Cafu”, “Terrivelmente evangélico”, e juntos estruturam a catalogação feita por Tiago Germano de uma espécie que, apesar de fazermos parte dela, não raro o espanto nos toma de assalto quando o nosso modo de ser e estar no mundo se apresentam de forma tão visceral. Sobretudo num país e numa época em que a intolerância, estupidez e ódio encontram-se no cerne dos discursos e das ações humanas.

Tiago Germano nasceu em Picuí (PB), em 1982. É autor dos romances “O que pesa no Norte” (2020), “A mulher faminta” (2018) e da coletânea de crônicas “Demônios domésticos” (2017), vencedora do Prêmio Minuano de Literatura e finalista do Jabuti. É mestre e doutor em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e foi bolsista do Programa Institucional de Internacionalização da CAPES na School of Literature, Drama and Creative Writing da University of East Anglia, na Inglaterra, por onde passaram o Booker Prize Ian McEwan e o Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro. Atualmente moram em João Pessoa, onde é cofundador da escola de escrita Edícula Literária.

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