Vestígios, de Bruna Sonast

Publicado de modo independente e colaborativo, a poeta cearense Bruna Sonast estreia com “Vestígios” (2020), reunindo texto e imagem para compor uma obra que ao mesmo tempo é oferta e busca de algo que se encontra no eu lírico e fora dele.

O canto de unha/ encravado/ que fica,/ a gota de suor/ solitária/ que fica,/ o ponto imperceptível/ segundo plano/ que fica,/ a réstia de noite/ subversão/ que fica,/ o gosto de mar/ deserto/ que fica,/ a escuridão/ na ponta dos dedos/ que fica,/ o esquecimento/ vestígio/ que fica”.

Distanciar, di sol vendo na liquidez dos dias, (o Clube e a Esquina, na cabeça…), quem te escuta? (um lençol que te cobre, o mar..) hoje, a transgressão é saber sorrir. Se “todos os desafetos/ caberão somente aos/ poemas”, a esta voz narrativa que ecoa fragmentos de si em cada verso, abdicar dos exorcismos e das esperas de alguém é tornar necessário a presença de seus fantasmas. E avisar que: “vou fazer um poema/ torto sobre o nada que/ me habita,/ morada nova, morada/ velha,/ dos que nunca tiveram lar”.

Em sua oferta de si mesma, que é ao mesmo tempo um indo-se de si, desmantelar e desfazer o que se edificou com o tempo que a tudo corrói, é seguir ao encontro ou anseio pelo nada de onde o que é novo e tudo que existe se origina. “Lentos são meus passos, no agora,/ de quem correu distâncias/ intransponíveis/ meus erros e acertos são as/ sombras/ que me guiam/ e paralisam/ (…) e eu sigo, em frente,/ reinventando memórias/ sobrevivendo aos sentidos;/ incomunicáveis”.

Composto por seis poemas que, se lidos todos de uma vez e observado o que há de unívoco do início ao fim, “Vestígios” pode muito bem ser entendido como uma poesia épica, cuja ação mais grandiosa e heroica se encontra nesse dernudar-se por meio das palavras e até mesmo delas. Uma obra sensível, intimista e densa em seu mergulho em grandes questões como a memória, o ser e o próprio ofício poético.

Bruna Santos Silva (Bruna Sonast) é poeta, escritora independente e pesquisadora. É graduada em Letras português e mestra em Linguística aplicada pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Compõe a coletiva de mulheres @barrosaspoesia e o editorial da revista virtual “A biblioteca de dia”. Participou com poema da coletânea “Sarau da B1: com os poetas de lugar nenhum” (2016).

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