O corpo útil, de Luiz Gustavo Medeiros

Com uma linguagem envolvente e olhar atento sobre as relações humanas, Luiz Gustavo Medeiros estreia com O corpo útil” (Patuá, 2021), obra vencedora do Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, organizado pela União Brasileira de Escritores – seção Goiás.

Em seu conto de abertura, “Cenas de um casamento”, Medeiros explora a fragilidade das relações afetivas ao trilhar os anseios, angústias e decepções que levarão à derrocada de um casal. Ao iniciar a obra com tais cenas, o autor nos convida a olharmos para o cotidiano de suas personagens, sobretudo para o que há de mais íntimo e até mesmo banal em suas vidas, a exemplo do que ocorre no conto “Como converter cabeça feita?”. Embora a obra ofereça abertura para outras interpretações, me parece que a lente condutora será sempre o olhar de um Outro para o Outro, suas diversas formas e significados, seja o do leitor para as histórias ali apresentadas, ou dos personagens entre si — como a troca de olhares entre o casal do primeiro conto e a falta dessa troca no segundo. Uma suspeita sobre o olhar como leitmotiv que ganha mais força quando um dos narradores nos alerta: “cabe a você julgar até onde sua leitura deve ir e, a mim, até onde minha leitura do fato deve ser exposta”.

Narrados em sua maioria na primeira pessoa, por mais imparcial que se pretenda ser (autor, narradores, personagens e leitores, inclusive este que vos fala sobre a obra em questão), é inevitável não fazer escolhas e leituras sem lançar mão da subjetividade. Isso também está dito textualmente numa das narrativas de Luiz Gustavo e certamente é o estímulo que move as personagens no seio das tramas. Aqui, mais uma vez, a questão sobre a outridade se torna latente, na medida em que os sujeitos (ou, seres humanos, como dirá Mikhail Bakhtin) se constituem por meio de uma interdependência entre sujeitos, isto é, por meio do exercício da Alteridade e Empatia, ou pela falta de ambas.

Em “Os donos do mundo”, por exemplo, entre as interpelações feitas pelo narrador a si mesmo sobre os demais personagens que compõem a trama, e as ações e reações destes, Medeiros estabelece uma espécie de jogo entre o interesse e o desinteresse, o se importar e o não dar a mínima, em suma, entre o se colocar no lugar do outro e o não demonstrar nenhum afeto, como os “três jovens recém saídos da adolescência (…) carimbam a bunda das” garotas de programas que os acompanham e “interagem, como se elas não estivesse lá”. Um jogo físico, verbal e visual, quer seja na busca por alguma intimidade ou fuga dela, como o próprio narrador observa: “Ela não olha nos meus olhos. Hora nenhuma. Tento, tento e nada – pode ser uma orientação do código de conduta das prostitutas: não olhar nos olhos do cliente pra evitar intimidade”.

A falta de culpa para com a vida alheia e a impossibilidade de viver as sensações ante as urgências do trabalho em “Ocorrência”; a busca pela atenção e a angústia de quem não a possui em “A haste quebrada”; a violência simbólica e a disputa de poder em “O atendente se dirige a mim”; o olhar para si mesmo ante a indiferença do outro, “porque a escuridão da cegueira permite que a mente passeie por outras paragens” em “Mau uso da palavra interesse”; a dicotomia de quem se vê preso “em um destino irrevogável, projetando um futuro restrito às horas, destituído de qualquer grandeza” e “a grandeza de um sentimento que é parte essencial” do companheiro e de si mesmo em “Amor?”; a ciência do não-pertencimento do próprio corpo ao contemplá-lo diante do espelho como “mosaico de ausências – a máquina desgastada e mal operada, incapaz de dar o grito de emergência e de ultrapassar os limites da euforia e do desalente” em “O corpo útil”.

Assim como em “Egoísmo ou oração?”, décimo sexto conto que encerra a obra, de um jeito ou de outro, as demais narrativas refletem sobre os limites da escrita e da narração dos fatos sem causar ruído na narrativa ou se valer de um tom professoral que, por vezes, alguns autores forçam no discurso. E o maior mérito de “O corpo útil”, tanto no que diz respeito à metalinguagem quanto nas abordagens dos temas, construção dos cenários e nos breves e precisos diálogos mesclados à narrativa, é justamente a forma como Luiz Gustavo Medeiros conduz as tramas e a alternância de tons entre as dores, as angústias, os dramas e um certo humor que permeiam as pequenas tragédias do dia a dia. Uma estreia daquelas que inflamam em seus leitores o anseio pelas obras seguintes. E que venham elas.

Luiz Gustavo Medeiros nasceu no Rio de Janeiro, em 1990, e mora em Goiânia desde 2002. É formado em Ciências Sociais pela UFG e mestre em Literatura pela UnB. Em 2020, seu livro venceu o Prêmio Hugo de Carvalho Ramos (o mais antigo prêmio literário em atividade no país), organizado pela União Brasileira dos Escritores – Seção Goiás e que já revelou autores como Bernardo Élis, Yêda Schmalz e Gilberto Mendonça Teles.

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