Estados alucinatórios, de Eduardo Sabino

Lançado em 2019 pela editora Caos & Letras, os onze contos que compõem “Estados alucinatórios”, de Eduardo Sabino, reafirmam a consciência estética do autor, o domínio da linguagem e condução narrativa que o apontam como um dos contistas mais sólidos de sua geração.

Para além da fantasia e do ficticioso característico de sua obra, o fator inumano/extra-humano não é empecilho para falar sobre relações sociais e afetividade. Ou sobre o julgo alheio e condenações do que é estranho, não-convencional e o que foge às normas. A exemplo do que ocorre no conto de abertura, “Samuel e Samael”, e no conto seguinte, “Alimentando Junior”, onde o sobrenatural e o animalesco tanto servem para falar sobre as ações e os sentimentos mais nobres dos seres humanos, quanto para falar do que é vil, abjeto e desumano.

No primeiro caso supracitado, Eduardo Sabino explora a ideia de demônio interno que possuímos, para falar sobre solidão humana e inadequação. Quer tenha o autor mirado ou não na mitologia grega que nos fala sobre a existência do Daemon — donde a vida feliz somente era possível sob a sua influência —, o conto em questão pode ser lido como uma metáfora sobre as partes constitutivas do ser que, vez ou outra, tentamos exorcizar para nos encaixarmos na sociedade, ou por acreditarmos que seríamos melhores sem elas. O conto nos fala também sobre a imprevisibilidade dos relacionamentos e/ou sobre as convivências improváveis, assim como em “Alimentando Junior”. Sendo este sobre o que poderíamos descrever como exercício da paternidade e do cuidado e o vínculo socioafetivo de filiação — neste caso, entre um homem e um crocodilo.

O preço alto a ser pago pelo delírio das paixões em “Blattaria”; o consumir a si mesmo até o vazio existencial perpetuado pela lógica do capitalismo predatório em “Pessoa física”; a história como “acúmulo e a recombinação constante de repetições” entre “horror e beleza”, “criação e extermínio” em “O abraço da serpente”; a humanidade como “uma doença da alma”, “uma patologia silenciosa, não exatamente física” nunca limitada “à genealogia humana, à espécie Sapiens” em “A natureza suína”; a felação psicótica em “Deu pau”; o terror e a redenção em “Pérolas aos demos”; o estado ataráxico ante ao desastre e a morte em “Alice e as barragens”.

Estados alucinatórios” explora as possibilidades de uma sociedade fundamentada naquilo que o próprio título sugere, não apenas como se tal estado fosse eventual, efeito colateral de uma crise momentânea da razão diante de algum sinistro. Eduardo subverte o status quo das coisas tornando o delírio, o absurdo, o devaneio e a fantasia naquilo que, por falta de uma definição mais apropriada, podemos chamar de realidade. Onde os eventos que nos chocam os olhos acontecem a todo instante e aquilo que acreditamos ser a normalidade das coisas não passa do nosso mais assombroso engano; ou, como diria Schopenhauer e a filosofia védica, como se a realidade à qual estamos acostumados estivesse revestida pelo véu de Maya, gerando sonhos utópicos, enganos e ilusões (como o narrador do conto “Um sonho chinês” descreve a vida), em resumo, a mais fina e frágil invencionice do homem para lhe servir de sustentáculo.

Eduardo Sabino é autor dos livros de contos “Naufrágio entre amigos” (Editora Patuá, 2016) e “Ideias Noturnas sobre a Grandeza dos Dias” (Editora Novo Século, 2009). Recebeu o prêmio Brasil em Prosa 2015 pelo conto “Sombras”. É editor e um dos fundadores da Caos e Letras.

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