Naufrágio entre amigos, de Eduardo Sabino

Sete anos separam o livro de estreia do escritor nova-limense Eduardo Sabino, “Ideias Noturnas sobre a grandeza dos dias” (Novo Século, 2009), da sua segunda obra, “Naufrágio entre amigos” (Patuá, 2016), que veio a lume laureado pelo prêmio Brasil em Prosa 2015, organizado pelo jornal O Globo e a Amazon, com o conto “Sombras”. Como o próprio título sugere, os doze contos que compõem a presente coletânea versam sobre a passagem do tempo, suas conquistas e perdas. Ou, se preferirem, sobre as tragédias pessoais no transcurso dessa pequena embarcação chamada vida pelas correntes oceânicas do tempo.

Em “Sombras”, Eduardo Sabino discorre sobre a incompreensão e o temor a Deus na infância (ou sobre os entendimentos e desentendimentos nessa relação), que após revelar as vantagens práticas e, digamos, nem tanto excelsas que a fé e seus ritos trazem, retorna à questão do divino na adolescência como luz que ofusca e assombra com sua mão interventora nos planos pessoais, tal qual um marionetista. Com certa dose de ironia e humor, o autor elabora habilmente esse jogo entre luz e sombra, sem apelar para velhas rivalidades maniqueístas, deslocando os embates sobre a fé para a relação do homem consigo mesmo e com o outro, as tensões e dilemas decorrentes desse processo.

Permitam-me ser mais subjetivo nesta análise ou, pelo menos, iniciar algo que vinha pretendendo fazer em outras resenhas. Há um aspecto na escrita de Eduardo Sabino que é notório para quem o acompanha e vale destacar, mais até do que alguns elementos narrativos que se tornarão cada vez mais evidente em suas obras seguintes. Me refiro ao modo como ele conduz a narrativa, sem atropelos, saltos e sobressaltos exorbitantes, ou desfechos inesperados, absurdos ou de qualquer outra natureza com o objetivo de chocar o leitor ou nocauteá-lo. Isto é, mesmo que tais elementos e recursos narrativos surjam em algum momento ou domine a trama (como o sobrenatural, o horror, o especulativo, etc etc), o caminho até chegar ao clímax ou à palavra final é mais significativo do que se poderia esperar.

O que implica dizer que, se a popularização do conto decorre de uma certa necessidade de ler algo numa sentada — como dizem —, os contos de Eduardo Sabino são um convite a pararmos para ouvir uma boa história, como numa conversa, sem pressa ou aflição para ouvirmos a próxima. E nelas haverão de tudo um pouco sobre música (de Sabbath e Pink Floyd à Fafá de Belém e Alcione), jogos de videogames e cinema, contracenando comas experiências da infância, adolescência, juventude e vida adulta. Assuntos que se fosse comentá-los, o que vale muitíssimo a pena, teria que elaborar outra análise, e no momento eu prefiro convidar o leitor a conferi-las.

Eduardo Sabino nasceu em 1986, na cidade de Nova Lima-MG, onde vive atualmente. Em 2009, publicou seu livro de estreia, “Ideias Noturnas sobre a grandeza dos dias” (Novo Século), e, desde então, participou de diversas antologias e revistas literárias. Publica regularmente resenhas e artigos nos sites de literatura Balaio de Notícias e São Paulo Review. Formado em Comunicação Social, presta serviços como editor de jornais e revistas na área de educação, atuando também como roteirista de quadrinhos e revisor de textos. É editor e um dos fundadores da Caos e Letras.

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