Síntese de passageiro, de Fernanda Spinelli

Quaisquer sinônimos relativos à delírio e subversividade são palavras mais que apropriadas para descrever “Síntese de passageiro” (Delicatta, 2020), livro de estreia de Fernanda Spinelli. Dividido em duas partes, “Transitoriedade” e “Levanta-te e sinta”, seus poemas tecem um amálgama sobre as angústias humanas e o cosmos, numa linguagem nada convencional, em que o absurdo e uma espécie de “elogio à imperfeição”, à la Tom Zé, ditam a tônica de seus versos.

O passageiro ao qual se refere o título é tudo o que existe, inclusive o que há de mais nobre e belo na interioridade humana e no universo. Ao menos é o que a quebra da racionalidade com a inserção de trivialidades em reflexões sobre o “Se” e o “Ser” das coisas sugere, como por exemplo: batata fritas devoradas, brigadeiro queimado, “salada que não precisa de sal” e “bordões abertos de hardcore mal tocado. Absinto esparramado em meu esmalte desgastado”. Como se, ao recorrer ao trivial, seu eu-lírico buscasse por uma nova poética que seja igualmente encontro de uma nova existência e de um novo mundo “Sem amarras, sem casa, sem nada. Novas pessoas, novos ritmos, novos hinos.

Uma leitura rápida e/ou superficial das cinquenta e quatro páginas e seus trinta textos pode até sugerir uma perda de direção da autora ou falta de consciência da sua empreitada — pra não dizer outras conclusões que tais raciocínios precoces sugerem. Isso, é claro, se não levarmos em consideração o alerta feito pelo poema de abertura sobre a impossibilidade de dizer o indizível e a preferência da poeta em seguir a transitoriedade nas transcrições de suas criações quase ilusórias, numa “com-sentida concessão” sobre um “mosaico íntimo-universalista”.

Embora um dos versos do seu meta-poema “Heresia” considere as rimas “um disparate total” (cuja definição do substantivo sugere uma “expressão destituída de razão e de senso; algo despropositado e fora da realidade”), é justamente por meio delas que Spinelli rompe com a obviedade, os floreios e paradigmas estéticos. Por mais ingênuo que pareça a elaboração de algumas rimas, o pueril e o simplório assumem o fator antilírico das estrofes, tornando o ritmo e musicalidade tão dissonante quanto a imagem poética.

Se por um lado essa não-familiaridade (extraneus) contida na “Síntese de passageiro” tende a causar desconforto (um estado antitético na meditação poética), por outro, essa fuga dos lugares-comuns é o que amplifica o que há de misterioso e sublime nos temas abordados por Fernanda, tais como “A dimensão vazia do tempo”, a memória, as relações humanas, a misantropia, a finitude da vida e a eternidade. Tornar-se passageiro da sua síntese é quase uma experiência lisérgica, cujo psicodelismo provocado pela acidez das suas palavras pode até não nos levar a outras dimensões ou alterar o estado de nossas mentes, mas que ele nos apresenta uma nova visão sobre o que sempre se encontrou diante de nossos olhos, não resta dúvidas.

Fernanda Spinelli é poeta, professora e psicóloga. “Síntese de Passageiro” é o seu livro de estreia.

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