Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos, de Leonardo Valente

O falseamento da vida e de si como vício a ser substituído por outros, a supressão da escrita e o tornar-se aquilo que ultrapassa as palavras e transbordar-se, pelo amor, pelo desamor, pela dor e pela ausência dela. Em “Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos” (Mondrongo, 2021), Leonardo Valente não apenas explora ao máximo a salutar desconfiança sempre necessária diante de narrativas em primeira pessoa, deixando “várias dicas, em vários momentos (…) com todas as letras que” seu/sua narrador/a é “uma farsa”; como também transforma essa desconfiança no leitmotiv de sua obra e num “exercício insano” a ser praticado tanto por D. quanto pelo leitor.

Visto sob duas perspectivas distintas, a “Criogenia de D.” tanto pode ser um exercício narrativo, onde a escrita é testada até o limite daquilo que se pode e não dizer, quanto um ensaio ontológico sobre a constituição do sujeito a partir das suas experiências pessoais, quer tenham elas sido verdadeiramente vivenciadas ou não. O desejo aqui se torna outro objeto a ser explorado no decorrer da narrativa, na medida em que a sua (in)concretude se mostra determinante no modo de ser e estar no mundo das personagens, e porque não dizer, das pessoas de modo geral.

Ao converter a escrita num ato criogênico, D. nos chama a atenção para o fato de que, fazer-se “entender pela escrita não é apenas uma tarefa de significação pelas palavras, é também o exercício de posicioná-las em latitude e longitude neste oceano branco à espera delas”. Sobretudo porque “escrever é um trabalho meticuloso de cartografias” e “a escrita é ação oposta ao vazio, não importa seu conteúdo”.

Essa oposição ao vazio por meio da escrita é outra questão latente na obra de Leonardo Valente, uma vez que as páginas em branco e os espaços entre um texto e outro se converte numa forma de dizer algo. Ou seja, se por um lado a linguagem se revela insuficiente para expressar o que se pretende, e nessa perspectiva é preferível calar-se ante àquilo que não se pode falar, como observará Wittgenstein em seu Tractatus; por outro, é no conjunto do dizer e do não-dizer que o todo se revela enquanto potência de ser, ou como um devir que se efetiva no próprio ato criativo/criogênico.

Nesse jogo linguístico proposto pelo autor, interessa menos o gênero da voz narrativa do que atentar para a engenhosidade da trama ao entrelaçar e destrinchar as relações afetivas, as vivências e não-vivências dessa voz. Pois é justamente nesta (im)possibilidade de D. ser ou não ser quem ela/ele diz, que torna a obra ainda mais interessante. Afinal, como dito por D., “faço-me conhecer de fato nas horas vagas em que estou só, no resto sou apenas porta-estandarte do que não é meu”, pois “sou uma impercepção de mim mesma e do que me acontece, referência parcial e incompleta de minha história, meu reflexo no espelho não é o que o mundo vê, e não sei o que esse mundo vê sobre mim, sobre meus contornos, pálpebras e rugas”. Assim como, se D. casou-se com uma ou seis pessoas denominadas por ela/ele de Damião e se eles (in)existem de fato, não é tão relevante quanto os desejos e prazeres que residem nesta questão, pois ambos, D. e Damião, tanto podem ser múltiplos em si mesmos quanto únicos em todos.

Entre as possibilidades e impossibilidades sugeridas em seu “manifesto pelos prazeres perdidos”, a “Criogenia de D.” é também um convite a olharmos para aquilo que edificamos tanto em nós quanto fora de nosso corpo e questionarmos sobre o que de fato somos ou gostaríamos de ser, em que mundo vivemos ou gostaríamos de viver. Questionamento este que nunca foi tão urgente na época em que vivemos, em meio a uma guerra de narrativas cada vez mais pautada pela pós-verdade e suas fake news, e pelo interesse de muitos ao aniquilamento e invisibilidade daqueles que não compactuam e/ou não fazem parte dos seus projetos.

Leonardo Valente é escritor, jornalista e professor universitário, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Em ficção, tem um romance publicado, “Charlotte Tábua Rasa” (2016), e o livro de contos “Apoteose” (Editora Mondrongo, 2018), obra finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2018. Entre seus originais inéditos destacam-se “A procissão“, vencedor do Prêmio José de Alencar 2017, e “O beijo da Pombagira“, romance finalista do Prêmio Rio de Literatura 2016. O conto “Criogenia do inconsciente ou manifesto pelos prazeres perdidos” é adaptação de um original de romance de mesmo nome.

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