Os passos vermelhos de John, de Luigi Ricciardi

Após cinco livros de contos publicados, de 2011 à 2018, o escritor paranaense Luigi Ricciardi estreia no romance com “Os passos vermelhos de John ou a invenção do tempo” (Penalux, 2020). Uma intrigante história sobre a visita do romancista e pintor estadunidense John Dos Passos ao Brasil, na década de 1960, e os mistérios em torno da recém-criada cidade de Maringá.

Numa mistura de ficção-histórica e romance-reportagem, Ricciardi nos insere numa trama que envolve a paixão de Dos Passos por uma cabocla sindicalista de esquerda conhecida como Maria do Ingá, e o envio do agente da KGB Nikolai Dimitri Dimitriev ao Brasil, com a missão de matar o escritor norte-americano por traição aos ideais comunistas e adesão ao Macarthismo.

A trama inicia-se com uma investigação sobre a passagem de John em Maringá, feita pelo estudante de letras Dean Albuquerque, em 2018, e aos poucos adentramos numa série de intrigas, conspirações e uma certa “política de silenciamento” que culminarão na morte de Maria do Ingá, anunciada logo na abertura do livro. Entre os relatos dos moradores, diários escritos por John e Maria, supostas matérias de jornais e documentos históricos, Luigi Ricciardi irrompe com as barreiras entre ficção e realidade, tornando a dúvida uma das questões mais latentes na obra.

Descrita como uma cidade que vive olhando para um futuro com desprezo ao passado, Maringá pode ainda ser lida como uma das principais personagens da trama, na medida em que os eventos que pairam em sua História não-oficializada caminham lado a lado com os dramas vividos pelos demais personagens. Sobretudo a cabocla Maria do Ingá, tida como personagem fictícia (mítica) dentro da própria ficção. Enquanto para alguns, seu nome não passa de uma referência à musica de Joubert de Carvalho, que os operários viviam cantando, para outros, a sua existência é tão real quanto as figuras mais importantes e poderosas da sociedade maringaense.

Esse desprezo pelo passado e tentativa de apagá-lo se dá tanto na materialidade das coisas quanto na imaterialidade, quer seja na degradação dos prédios históricos e na falta de documentos que atestem a existência de Maria do Ingá, ou no silenciamento coercitivo das testemunhas oculares da sua passagem pela cidade e da sua morte. Afinal, “a morte de uma sindicalista, de uma mulher de esquerda não seria assunto apropriado. [Pois] quanto menos se fala nessas coisas, melhor”.

Embora a existência ou não da cabocla que originou o nome de uma cidade e o afear entre ela e John Dos Passos sejam os motivos condutores da narrativa, Luigi Ricciardi vai além dessas questões para falar de racismo e intolerância política. E a maneira como o autor articula os problemas estruturais na história do país com os vários afetos que norteiam as relações sociais estabelecidas pelas personagens, torna essa problematização ainda mais interessante e profunda. Tivesse apenas denunciado o racismo e o extremismo ideológico-político entre um diálogo e outro, seja com discursos inflamados ou conversas casuais, o enredo não impressionaria tanto quanto impressiona, descrevendo tais questões com ações que vão desde o olhar enviesado às vias de fato com socos, canivetes e armas de fogo.

Ao mostrar mais do que falar, Ricciardi não apenas cumpre com exímia precisão um dos mandamentos mais básicos da boa escrita, como escancara de modo convincente o comportamento e o imaginário de uma sociedade fraturada pela desigualdade social e pela disputa de poder. O discurso pelo discurso, neste caso, poderia ser facilmente equiparado ao valor atribuído à memória de Maria do Ingá por algumas personagens, inúmeras vezes reduzida à uma figura folclórica cuja existência factível não passa de uma invenção. Não à toa, o próprio título do livro e os trocadilhos feitos com o sobrenome do escritor, ao longo da narrativa, chamarão a atenção para essa questão, ao converter os “Passos” de John numa ação contínua. O que torna ainda mais curiosa a vida e a obra de John Dos Passos, sua relação com o Brasil e a história da cidade paranaense.

Luigi Ricciardi é professor de francês e literatura. Tem mestrado e doutorado em Estudos Literários. Nascido em Londrina, vive em Maringá. Fundou a revista Pluriverso e mantém a Acrópole Revisitada, blog de resenhas literárias. Publicou os livros de contos: Anacronismo moderno (2011), Notícias do submundo (2014), Criador e criatura (2015), Antes fosse uma metáfora morta (2018) e A aspereza da loucura (2018). Os passos vermelhos de John é seu primeiro romance.

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