Terra úmida, de Myriam Scotti

O exílio de tudo e o reencontro consigo por meio da escrita, o desenraizamento e a busca por uma existência autêntica, religiosidade, tradição, desejos, liberdade, a orfandade da pátria e resiliência. Galhardeado com o Prêmio Literário Cidade de Manaus 2020, na categoria regional, Myriam Scotti entrelaça vivências e memórias em seu mais novo romance, “Terra úmida” (Penalux, 2021), ambientado em Manaus e Tânger, no Marrocos.

Dividido em três partes, “1958”, “Os diários” e “Abner”, o enredo de “Terra úmida” nos insere num universo íntimo de duas personagens, Abner e sua mãe Syme (igualmente chamada de Ima), como se navegássemos pelos rios amazônicos margeados por uma floresta cada vez mais densa. Ao se revezarem nas vozes narrativas, Abner e Syme revelam-nos os caminhos trilhados e desconhecidos por ambos, transformando os labirintos da memória em afluentes de uma família marcada pelo luto, pelos anseios e frustações oriundas de uma vida em constantes mudanças.

A trama inicia-se com uma inesperada chuva torrencial em meio às águas do Rio Negro, como numa espécie de prenúncio do mal que recairá sobre a família de Abner, com a enfermidade de sua mãe, Syme. Entre recordações da infância em Marrocos, da nova vida em Manaus e as tentativas de diálogos de Abner com a mãe enferma, acompanhamos a angústia do filho pelo retorno do pai (Aba), Judah, e do irmão mais novo, Isaac, que saíram em viagem pelos rios da Amazônia. Logo de cara, Myriam Scotti nos entrega um dos pontos mais intensos e bem construídos da trama, ao retratar as tentativas da mãe de obter o perdão do filho por submetê-lo a uma relação marcada pela falta, pelo rancor, pelo saudosismo da terra natal, da vivência com os familiares e o medo da morte em solidão.

Nos capítulos dedicados aos diários (datados de 1887 à 1903, 1906, 1908 e 1911), acompanhamos os relatos de Syme sobre a sua infância e juventude em Marrocos, o arranjo do seu casamento com Judah, seus sonhos e desejos abortados pela família. A mudança de gênero narrativo favorece o fluxo de consciência em relação à ação, o que permite uma imersão ainda maior na interioridade da narradora-protagonista e nos mistérios que pairam sobre uma mãe inicialmente tida como uma pessoa feliz com seu casamento e com o desenrolar de sua vida.

Incentivada pela professora a “escrever para desanuviar”, Syme transfere suas “angústias e queixas para o papel” como forma de compreender a sua família e a si mesma. A relutância em seguir as tradições com seus rituais excessivos, a dificuldade de viver em um país “onde a maioria é muçulmana” e o estado de alerta constante ao caminhar pelas ruas é muito bem descrita por Myriam. Sobretudo a representação de um mundo em que a tarefa da mulher se resume a “preocupar-se em casar, cuidar da casa, ter filhos, cozinhar muito bem, acender as velas nos dias devidos” e “a melhor forma de conter os impulsos de uma jovem com desejos modernos demais” é tirarem “dela os sonhos, os quereres, as vontades e casem-na”, dando “a ela o que é devido, o que é para ela suportar, um casamento”.

Se por um lado “Terra úmida” problematiza uma espécie de não-pertencimento ou não-querência de uma personagem em perpetuar as tradições familiares e do seu povo, por outro, como a própria autora observa, a “umidade” do título diz respeito à “união e mistura, tornando assim a terra fértil”, visto que “o homem não é ilha, [e] somos seres sociais”. E é justamente no convívio entre os seus que Syme aprenderá que os costumes são a única forma de subsistência de um povo assolado por inúmeros massacres.

Além de abordar sobre a insegurança de morar num país marcado por suas guerras civis e pela impossibilidade de praticar a religião sem represália, e o não saber conviver consigo mesma ou com a liberdade adquirida; uma das questões que mais chamam a atenção no enredo é a da maternidade, problematizada por Myriam Scotti como um evento traumático que deixa fendas e cicatrizes permanentes. O desgosto pela maternidade vivido por Syme aprofunda ainda mais as angústias e o sentimento de que “as mulheres só contam um lado da história sobre o casamento para que as mais novas e solteiras acreditem que casar é uma redenção”.

Em determinado momento Syme interpela a si mesma se a infelicidade é uma sina ou uma escolha, em virtude das mudanças de perspectivas em relação às coisas que antes lhe afetava. Entre o dito e o não dito, esse narrar o outro lado da história é também uma espécie de desnudamento de si, ou convite para que o outro enxergue a vida a partir de um olhar do próximo, como no caso de Abner e seu irmão Isaac ao lerem os diários da mãe. Aceitar ou não esse convite, ressignificar essas visões e preencher suas lacunas ou ignorá-las e seguir indiferente são as opções que nos cabe.

Myriam Scotti nasceu em Manaus, em 1981. Formou-se em direito pela Universidade Federal do Amazonas e exerceu a advocacia até o nascimento de seu primogênito. Das suas vivências com o filho, surgiram crônicas e histórias infantis, momento em que resolveu dedicar-se totalmente à escrita e publicar seus primeiros livros. Desde 2014 publica diversos gêneros: contos, crônicas, poesia e romance, entre eles, O menino que só queria comer tomate, Éden Tártaro, Mulheres chovem e A língua que enlaça também fere. É cronista do jornal manauara A Crítica e mestranda em literatura e crítica literária pela PUC-SP.

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