Tocaia do Norte, de Sandra Godinho

Laureado com o Prêmio Literário Cidade de Manaus 2020, na categoria de Melhor Romance Nacional, “Tocaia do Norte” (Penalux, 2020), de Sandra Godinho, traz à tona um dos capítulos mais violentos da História do nosso país, em sua busca pelo progresso durante a ditadura militar. O rastro de sangue e miséria em tal busca é baseado no massacre da expedição do padre Giovanni Calleri (escolhido pela Funai em 1968 para apaziguar o conflito com os indígenas na área de construção da BR- 174, que ligaria Manaus à Boa Vista) e no genocídio dos povos indígenas relatados nos livros “Massacre” de Silvano Sabatini, e “A ditadura militar e o genocídio do povo Waimiri-Atroari”, da Comissão Estadual do Direito à Verdade.

Dividido em três partes (“O seminarista”, “O relato” e “O caminho”), o romance nos convida a uma espécie de mergulho na interioridade humana, na fauna e flora de uma região até então intocada pela “civilização” e numa cultura desconhecida por muitos brasileiros — e que ainda segue resistindo aos inúmeros ataques daqueles que buscam a sua extinção, sob o pretexto de integrar “os índios à nossa sociedade”, tornando-os cada vez mais num “ser humano igual a nós”.

A riqueza de detalhes na construção das paisagens, dos sabores, das cores e sons, no rigor do registro histórico e da linguagem corroboram e muito para o caráter ambicioso da obra, como apontado pelo jornalista e escritor Marcelo Adifa, no prefácio do livro. O que nos permite conhecer mais de perto tanto os elementos históricos e regionalistas habilmente descritos pela autora, quanto o narrador-protagonista João de Deus e as demais personagens em suas jornadas.

Quer seja nessa “terra que devora homens e animais, sem distinção de cor ou de classe”, ou nesse “mundo em que pai e mãe decidem sobre a vida de um filho como se ele não tivesse vontade própria, (…) que deixava órfãos os que viviam em caos, naquela espécie de cais, naquela rotina de obediência que acabava virando rebeldia”, “Tocaia do Norte” é daquelas histórias marcadas pelo sangue dos povos indígenas e pela ganância e selvageria do homem branco em que não há espaço para heroísmos ou romantização de suas ações, suas falas e pensamentos.

Como no caso do governador Arthur Reis, que considerava a cidade flutuante uma “excrescência e alardeou com seu egocentrismo extravagante que erradicaria esse infortúnio de ladrões da porta da cidade. Levaria para longe as prostitutas e as doenças do centro”. Ou até mesmo da relação de João de Deus com a própria mãe, a quem o jovem queria convencer a não obrigá-lo a se tornar “aquilo que nem de longe queria ser: um monstro que pensava em desvirginar meninas em confessionários e convencer senhoras senis sobre heranças divinas transferidas à hora da morte a quem melhor lhes trouxessem conforto”.

Filho de um pescador que “não tinha dinheiro, [e que] mal conseguia escrever, mas enfeitiçava com as estórias ventiladas nos meus ouvidos”, João de Deus acaba encontrando no padre Chiarelli uma figura paterna e “única coisa que pudesse” restaurá-lo, “a palavra essencial, a imagem da bondade sem pieguice, da loucura sem demência, da sensatez sem arrogância”. Perto do padre italiano de quase dois metros de altura, de “oratória fácil na voz retumbante” e com o dom de “fazer as pessoas sucumbirem ao seu charme, para o completo bem ou mal”, o jovem rapaz prometido a Deus pela mãe se sentia despojado “dos medos”, das “couraças e armas”, e aprendeu que os Waimiris-Atroaris não eram inimigos do progresso, como os militares, políticos e demais personagens diziam. Mas “o que [eles] faziam era defender suas terras, um direito que lhes foi assegurado pela própria Constituição”.

Existe também uma beleza que não se restringe à exuberância da natureza e dos demais elementos materiais e imateriais anteriormente citados, que pode facilmente ser reconhecida na amizade de João de Deus, Sabá, Vivaldo, ou até mesmo nos momentos de angústia e espera da irmã Helena pelo padre Chiarelli e no anseio dos indígenas remanescentes em aprender a própria língua nativa, Kiña-yara, e assim poderem transmiti-la às futuras gerações. Isso porque Sandra Godinho opera como poucos uma escrita que nos fala do humano em suas múltiplas camadas, lançando luz e sombra sobre o que há de mais nobre e de mais vil em cada personagem, ampliando nossa visão sobre uma narrativa que já nasceu premiada e que a cada dia se firma como uma das mais relevantes do nosso tempo.

Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas de contos, sendo agraciada com alguns prêmios como o primeiro lugar no prêmio VIP de literatura de 2018 de A. R. Publisher Editora com o conto “Jogo de Damas” e o segundo lugar no Concurso Literário Internacional Palavradeiros 2018 com “O massacre”. Publicou O Poder da Fé (2016), Olho a Olho com a Medusa (2017), Orelha Lavada, Infância Roubada, que foi o único livro de contos finalista na Maratona Literária (2018) do Carreira Literária, agraciado com Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019) e semifinalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (Escritor do ano 2019). O Verso do Reverso ganhou o Prêmio de Melhor Conto Regional da Cidade de Manaus 2019; Segredos e Mentiras (inédito) foi finalista no Prêmio Uirapuru 2019; Terra da Promissão foi publicado (2019) e As Três Faces da Sombra foi o romance ganhador do concurso da Editora Fora da Caixa (2019), no prelo.

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