Vozes, de T.K. Pereira

Não vejo outra forma de tecer um comentário sobre o livro de estreia de T.K. Pereira, sem apelar para o óbvio, ou seja, dizer que é preciso ouvir não apenas a própria leitura dos seus contos, mas exercitar de algum modo a escuta para aquilo que as personagens tem a nos dizer, como se, de fato, pudéssemos ouvi-las. Desconfio que esta talvez seja a grande questão de “Vozes” (Caos & Letras, 2019) e o meio mais efetivo para adentrarmos de modo vertiginoso nela.

Em seu conto de abertura, por exemplo, duas vozes se revezam durante a narrativa e um dos indicativos de alternância é a própria linguagem, ou, se preferirem, o modo de se expressar de cada personagem e a dinâmica característica de um diálogo: suas perguntas e respostas, argumentos e contra-argumentos. Não à toa o conto em questão se chama “Dois”, mas ao contrário do que o título sugere, a percepção da existência de duas vozes se revezando no texto não é assim tão fácil e nem deve ser. A estratégia do autor (se é que existe) é bem pedagógica: por mais fluida que seja a leitura é preciso se atentar a ela, como quem para pra ouvir o que o outro está dizendo. Do contrário, a experiência é incompleta, pra não dizer que, em alguns casos, ela corre o risco de ser praticamente nula.

Embora uma das questões mais evidentes na escrita de T.K. Pereira seja a destreza com que ele desenvolve os discursos, dando às vozes narrativas entonações e marcas distintas entre si, transformando-as num verdadeiro coro, tão digna de nota quanto essa polifonia é a construção das personagens. Como nos casos da garçonete Jessica, em “Feminilidade”, cuja profundidade da sua persona nos é apresentada em poucas palavras; assim como a do próprio narrador-personagem, um tipo sedutor que poderia facilmente ser descrito como um mero “pegador”, não fosse a expertise do autor em evitar certos maneirismos utilizados por autores estreantes — e até mesmo por alguns tarimbados no ofício, diga-se de passagem.

Essa fuga dos vícios narrativos e imagens clichês se torna perceptível sobretudo quando o autor se arrisca a falar sobre a delinquência juvenil (em “Marcas”); a falaciosidade dos testemunhos, orações, sentimento de culpa e arrependimentos (em “Expiação”); ou simular os discursos reverberados aos quatro cantos sobre política, economia e sociedade (em “Interesses”); e adentrar num dos lados mais obscuros da condição humana (em “Compulsão”), ou simplesmente distribuir conselhos sobre como “chegar nas mulheres” utilizando a poesia como recurso (em “Toques”).

Quem se arriscou a escrever um livro ou redigir qualquer história bem sabe o quão desafiador é a empreitada, mesmo quando se tem facilidade em contar causos, como o personagem idoso e falador de “Segredos”, justamente porque “esse negócio de escrever” não se desenvolve com a mesma fluidez da boca, ou da oralidade utilizada em “Vozes” como recurso estético.

Os temas problematizados por T.K. Pereira giram em torno das relações humanas e dos lugares onde elas se constituem, numa espécie de construção e desconstrução (sendo esta última oposta ao sentido simplista e pejorativo adquirido nos últimos tempos). Ou seja, enquanto algumas dessas relações se desfazem pela escassez do diálogo ou pela verborragia de uma das partes; à medida em que a narrativa avança, o autor nos conduz por uma infinidade de lugares, muitos deles marginais, malquistos, familiares e até mesmo imateriais, ou não-lugares guardados na memória, com descrição suficiente para nos inserirmos na cena.

Quer seja como lugar de resistência — mesmo que ninguém leia o que nela estiver contido —, ou como único meio de tentar estabelecer um diálogo, a escuta do outro é sempre um exercício mais que necessário. Não pelo mero interesse naquilo que é dito como “uma expectativa excitante de desenvolver intimidade” por “puro egoísmo”, ainda que permaneça “sempre com os abanos abertos”, sem, no entanto, dar espaço para ao outro, como quem prefere ouvir a própria voz mais do que qualquer outra coisa. Todo aquele que diz algo ou tenta dizer, no fundo quer apenas ser ouvido, ainda que esta tentativa seja tão somente para si mesmo. Talvez essa seja uma das intenções artísticas de “Vozes”, que não por acaso conta com vários personagens pouco interessados no que as “mulheres têm a dizer” — isto é ou não é dizer muito sobre o tempo em que vivemos?

T. K. Pereira é organizador do projeto 7 coisas que aprendi, acervo com mais de 100 depoimentos de escritores, e Fotos e Grafias, coletânea online de contos, crônicas e poesia. Finalista do concurso Brasil em Prosa 2015 (Amazon/Samsung/O Globo) com o conto Doses de orgulho e vergonha. Publicou contos em diversas antologias e organizou a coletânea digital gratuita “Conte Outra Vez: 30 contos inspirados em canções de Raul Seixas + Bonus Tracks“. “Vozes” é seu livro de estreia.

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