O voo rasante do pombo sem asas, de Luís Fernando Amâncio

Descrito como narrativas que passeiam por temas urbanos e relações que sustentam a sociedade, “O voo rasante do pombo sem asas” (Isadora Books, 2020), de Luís Fernando Amâncio, é uma antologia de contos sobre as violências físicas e simbólicas que permeiam as diversas tragédias do cotidiano, dosadas com ironia e sarcasmo, numa linguagem direta e precisa sobre os diversos tipos sociais.

No conto de abertura, intitulado “Problema”, o autor discorre sobre a velha desfaçatez dos infratores e o conluio com seus advogados para subverter a narrativa em seu favor (substituindo a palavra “nervoso” por “acuado”, por exemplo, ao justificar as batidas na mesa “sem violência”) e, acima de tudo, para falar sobre um dos problemas inerentes à política armamentista voltada para a população. O conto em questão é ainda um bom indicativo sobre o estilo do autor, que mantém um certo padrão na forma e uma variação sutil na linguagem, mesmo alternando vozes narrativas em primeira pessoa ao longo da obra.

Embora “O voo…” se proponha a revelar a face cruel (parasitária) da nossa sociedade, a sutileza mencionada anteriormente, ou o tom, é justamente uma das características que mais se destacam na obra como um todo. A começar pelo próprio título, cuja expressão “pombo sem asa” remete a “uma briga, um soco forte e inesperado” e “um chute de longe que surpreende a defesa e acerta o gol”, entre outras, e não retorna a mencionar “pombos” em nenhum conto. Ou por narrativas como “A confissão de Jurandir”, que utiliza como pano de fundo um assalto à mão armada numa lotérica para falar sobre o constrangimento de um septuagenário ao se sentir excitado com um beijo e a ingratidão ou abandono que os idosos sofrem dos familiares.

Dos funcionários que sempre pagam a conta por algum “mal-entendido”, aos crimes sexuais cometidos contra adolescentes e condenação sumária feita pela sociedade e vingança com as próprias mãos. Os contos de Luís Fernando Amâncio vão de um extremo a outro, tanto nos temas abordados quanto no desenvolvimento das narrativas. Como nos casos de “Só papel”, desenvolvido em três linhas, ou mais precisamente, em doze palavras; “O garçom pagou a conta”, “Mulheres” e “Língua”, que não ultrapassam as seis linhas; e outros mais extensos como “O telefone” e “Madalena eterna”, que contêm treze páginas.

Relações abusivas; a miséria do outro como alívio aos aborrecimentos pessoais; o esgotamento físico e mental no trabalho e as soluções extremadas; a crueldade das crianças contra animais. Luís Fernando explora os mais diversos espaços para construir seus cenários e problematizar as situações vividas por seus personagens, como em “O telefone” e “Notas sobre um linchamento”. No primeiro, o autor explora as noites insones da personagem-narradora em um apartamento para falar sobre a importunação das ligações de telemarketing e o assédio e perseguição de ex-companheiro; enquanto no segundo, entra em cena o lado selvagem e imprudente da sociedade quando ela resolve se juíza, júri e carrasca ou fazer (in)justiça com as próprias mãos, numa emulação/transposição da narrativa bíblica para os dias atuais.

Nem só de violência e esgotamento se pautam as relações sociais representadas nos contos da obra em questão. E mesmo que a maioria delas não se sustentem diante das intempéries do tempo e aos dissabores da vida familiar e afetiva, o autor mineiro acerta em cheio ao retratar com humor a derrocada de um casal burguês e a substituição da ex-esposa por um clone robótico (ginoide), em “Madalena eterna”, por mais triste, excêntrica e/ou bizarra que a relação ali desenvolvida seja.

Esse mesmo tom irônico/humorístico reaparece nos contos mais curtos e em “Ata de reunião”. Com a diferença de que, enquanto no primeiro caso a identificação do mesmo requer uma certa perspicácia do leitor, sob o risco de tal característica passar desapercebida e o conto acabar perdendo a sua graça — com o devido perdão do trocadilho —; no segundo, o autor eleva a ironia no tom para expressar a raiva e a “vingança pessoal” do personagem-narrador, encarregado de relatar as reuniões da empresa em que trabalha, contra um dos diretores “maníaco por gramática”.

“O voo rasante do pombo sem asas” é daquelas obras difíceis de abandonar após iniciado a leitura, tanto pelo ritmo com que Luís Fernando Amâncio emprega às suas narrativas, quanto pelo efeito que seus contos propiciam, em virtude dessa alternância e moderação entre aspereza e humor. Não à toa, a comparação dela com os “carismáticos pombos portadores de parasitas”, feita pelo próprio autor, não poderia ser melhor.

Luís Fernando Amâncio é historiador de formação, funcionário público e escritor. Em 2014, publicou seu primeiro livro “Contos de autoajuda para pessoas excessivamente otimistas”, selecionado em premiação promovida pela Editora LiteraCidade. É colunista do site Digestivo Cultural desde 2015. “O voo rasante do pombo sem asas” (2020) é o seu segundo livro.

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