A implantação de um trauma e seu sucesso, de Ricardo Escudeiro

Não é raro ouvir alguém dizer que poesia é difícil, ou que a sua compreensão está longe de ser uma tarefa fácil. Quer seja ela uma experiência desafiadora ou não, o que espanta ou causa admiração são as suas imagens poéticas tecidas com palavras que povoam os mais variados discursos, isso inclui os do nosso cotidiano e os que não são. Em A implantação de um trauma e seu sucesso (Patuá, 2019), Ricardo Escudeiro vai mais longe, e rompe com qualquer barreira imposta pelas múltiplas linguagens, unindo vivência periférica, literatura clássica e cultura pop como matéria prima de seus poemas e nos apresenta uma obra que é, no mínimo, inquietante.

Antes de adentrarmos numa análise mais precisa, ou simplesmente passearmos pelo mundo delirante erigido por Escudeiro, é válido observarmos aquilo que é proposto no próprio título. Se do ponto de vista psicológico o “trauma” consiste numa experiência emocional intensa e desagradável, capaz de causar distúrbios psíquicos e marcas duradouras na mente; do ponto de vista filosófico, ele é uma condição análoga ao espanto (thauma) originador de um pensamento capaz de problematizar o que parece evidente e esclarecer o que se apresenta como obscuro. Ou seja, é o processo pelo qual se efetiva o conhecimento pelo desconhecimento, oriundo desse acúmulo de excitações.

O lado belo de uma música revelado pela perda; o alento de um corpo decadente criado para ser eterno; a normalidade das coisas sob a ótica lynchiana; e a “sensação de horror de arrogância de acolhimento/ em meio a escuridão e/ silêncio de água (…) sob os oito abraços de cada um dos (…) oito tentáculos” de Ogdru Jahad. Ao valer-se de uma relação estabelecida entre a prosa e a poesia, o eu-lírico de Ricardo Escudeiro compõe seus versos por meio do estilhaçamento de imagens, feito obras cinematográficas absurdistas, surrealistas e experimentais, trilhadas sonoramente por gêneros que vão desde Rihanna, Sia e Bee Gees à Facção Central, Racionais e Judas Priest.

Seu oficio não se presta à espetacularização da poesia para o mero entretenimento e a distração do leitor, mas atenta-se para as urgências do tempo em que vivemos, promovendo inquietação e angústia. O oposto disso, como diria o escritor português Virgílio Ferreira, é tecer histórias para distrair crianças quando a obscuridade dos dias que vivemos exige outra postura. Ou como o próprio eu-lírico de Escudeiro observa no poema “tiger uppercult”: “não é bem isso o que procuramos aqui descrever/ é mais como estripadores dum ozônio perdido/ não/ mineradores/ que cavam cavam pro alto/ cada um com sua cotinha de halos imperfurados/ abrir um buraco no céu/ pra lamber os lábios de um qualquer anjo/ ou preferíamos falar de escalpos divinos”.

Cada frase de A implantação de um trauma e seu sucesso é uma espécie de “tatear o mundo pelas suas córneas” com certo distanciamento para enxergá-lo melhor, “tipo/ um miopismo inexato” aquilo que o poeta versifica, como quem tira “da cartola umas raízes mais ou menos inverossímeis/ veios secretos escondidos/ falhas/ da natureza bélica/ falhas/ de carregar nas costas nas/ agonias e outro óleos sobre tela sobre vidro/ uma escrita em seu grau mais zero/ dar uma voz ao rosto de cada artéria”, com “tons de esplendor e desespero”, rabiscando “uma cópia um ensaio/ de uma narrativa bem visível de um astro em sua hora extrema/ da queima e os medos que incita/ a gravidade de exemplos”.

Numa época em que a realidade nua e crua de cada esquina mais parece uma obra de ficção ultraviolenta e distópica, material para a criação artística é o que não parece faltar, não fosse a difícil tarefa de transformar o que é inestético em Arte. Assim, entre um poema e outro, o eu-lírico da obra em questão também realiza um exercício metapoético, ao reconhecer o quão difícil é “descrever o que é fóton/ que difícil/ obturar o próprio fogo/ esse/ exemplo aceso da entropia”, pois “as linhas que seguram e as que traçam/ palavra/ não são a dita ela mesmo/ mas dizer isso é já uma outra/ fala”.

Os temas abordados por Escudeiro são os mais diversos e, às vezes, alguns mais simbólicos ou ácidos se escondem num canto, como figurantes visíveis apenas para os olhos atentos. Como nos casos da “troca de afago” de um casal na despedida diária “sem fala nem beijo sem nada” e “as palavras finais/ de um pai para um filho pequeno”, o descarte político dos indesejados numa “lista/ registro de loucos e indigentes// preta/ preta/ preta/ branca/ parda/ preta” e a espetacularização da necropolítica racista e aparofóbica e o “colar na favela depois da tempestade de vento”. Poemas que se assemelham a um caminhar pelo escuro em um lugar que, embora julguemos conhecê-lo, há sempre o risco de esbarrarmos com o inesperado. Numa experiência assim, as mãos assumem a função dos olhos, tateando palavras sem saber ao certo se no próximo verso encontrará céu ou inferno.

Nesse “reino onírico/ como aquelas espécies de crossovers/ estranhíssimos”, de HQs, Street Fighter, Camus, Saramago, Heavy Metal e Rap, a experiência literária é algo próximo a um mergulho “em nossos/ estados mais primitivos” onde “nos tornamos/ mais rápidos mais furtivos/ do sublime”, onde a releitura de alguns poemas é sempre bem-vinda. Afinal, quer seja a poesia semelhante a uma efração (pancada no crânio, com ruptura), ou como intenção capaz de gerar espanto (admiração e perplexidade), adentrar nos 56 poemas que compõem A implantação de um trauma e seu sucesso é uma experiência pela qual não passamos indiferentes.

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Idealizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, o work in progress “A mecânica do livro no espaço”, dividido em três temporadas. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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