O que devíamos ter feito, de Whisner Fraga

Se preciso fosse definir O que devíamos ter feito (Patuá, 2020), de Whisner Fraga, não restaria dúvidas em afirmar que a sua mais recente obra é impecável, sobretudo no que diz respeito à linguagem, tanto pela precisão da escrita, do lirismo das frases e condução narrativa, quanto pelo arsenal retórico e desenvolvimento dos temas. Ao utilizar a dúvida e a hipótese, o jogo entre o factível das coisas e o especulativo, quer seja como o mote principal dos seus contos ou como ferramenta argumentativa, Whisner não apenas apreende de frase em frase a atenção do leitor, como também o insere num estado interpelativo sobre aquilo que se lê e o que nos afeta, isto é, nossa condição humana e o mundo em que estamos inseridos.

No conto de abertura que dá nome à obra e em “promessa”, esse jogo entre o duvidoso e o hipotético ditam o tom e o ritmo da trama. Sendo a primeira conduzida por uma atmosfera muito mais reflexiva e pesarosa sobre a perda de um ente querido e as especulações sobre o pé em que as coisas se encontram, ou o que poderia ter chegado; enquanto na segunda, as dúvidas se acumulam em cada pergunta não efetivada, somadas à uma impotência, aos quereres reprimidos e desejos não consumados, sempre à “procura [de] um olhar em que se socorrer, mas estão todos trancados em suas inquietudes, cabisbaixos, até as outras crianças não se parecem crianças, quer perguntar se o voto de silêncio está valendo, mas desiste”.

Amor, ódio, submissão e respeito. Em “ambição”, Whisner nos insere no lado obscuro das relações humanas, sem romantizar o abominável, nem se inibir diante da gravidade. E essa mesma obscuridade das coisas reaparece em “jardim provisório”, desta vez para falar do inconsciente, da (des)memória ou do desejo ardente de uma vida possível. O conto em questão segue o mesmo estilo do primeiro e predominará nas demais narrativas em primeira pessoa, numa interlocução com a personagem Helena, cuja participação se mantém indireta ou intermediada pelo narrador.

O passeio com a família numa exposição de Kandinsky; o acidente na estrada a caminho da missa; a partida de futebol do filho diante do olheiro, as lendas urbanas sobre os mortos e a finitude da vida. Entre um cenário cotidiano e outro, Whisner discorre sobre os mais variados temas, como a soberba, o orgulho, a cobiça, a vingança, a luxúria, a fome, a pedofilia e o estupro. Sem pesar a mão ou se esquivar de adentrar em tabus, questões espinhosas e as mais diversas formas de violência e opressão.

No conto denominado “jardins”, por exemplo, ao tecer uma crítica social e política, o narrador nos conduz por entre “um bairro sem árvores, sem flores, sem gramas, sem plantas, sem jardins (…) os muros e as câmeras, entre as cercas elétricas e os arames farpados, entre as tendas de vigilância e os carros blindados”, enfim, um bairro longe de fazer jus ao próprio nome, até adentrarmos no elevador, na sala de um apartamento e depois do sexo entre o jovem casal, os acompanhá-los até a rua, “em direção ao metrô”, à “avenida paulista interditada, com pessoas de vermelho se aglomerando”, e depois do discurso inflamado por democracia e defesa dos direitos, nos depararmos com a tropa de choque, a violência do Estado em cada soco, pontapés e perseguições em meio às bombas de efeito moral.

O mesmo rigor e atenção se observa nos casos de “você está diferente” e “você é mulher”, em que as tramas se desenvolvem sob a regência de uma narradora, trazendo à tona questões em torno do abuso sexual na infância dentro do ambiente familiar, o assédio moral no trabalho e a violência física do corpo feminino — sem apelar para a objetificação do mesmo ou banalizando tais questões.

Contando com onze obras publicadas, participações em antologias e análises literárias em seu canal no youtube, Whisner Fraga reafirma seu nome entre os escritores mais sólidos da literatura contemporânea. Um autor com voz própria, por assim dizer. Que ao longo dos quatorze contos que compõem O que devíamos ter feito, demonstra um domínio estilístico cuja escrita transita livremente entre prosa poética e reflexões que beiram o ensaio filosófico. A própria ambiguidade do título é uma demonstração desse exercício especulativo, de tal modo que, em alguns momentos não sabemos o que é real ou imaginado, o que é factual ou hipotético. O que, em última instância, se torna um atrativo a mais para o leitor.

Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba, autor dos livros As espirais de outubro (Nankin, 2007, romance), Abismo poente (Ficções, 2009, romance), Lúcifer e outros subprodutos do medo (Penalux, 2017, contos), O privilégio dos mortos (Patuá, 2019, romance), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, organizada por Nelson de Oliveira. Foi traduzido para o inglês, alemão e árabe. O que devíamos ter feito é sua décima-primeira obra publicada.

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