Todos que conheço são suicidas, Cristiano Silva Rato

A vida como ato de resistência, a escrita como expurgo, alento e dor. Os 57 poemas que compõe “Todos que conheço são suicidas” (Caos & Letras, 2019), de Cristiano Silva Rato, se constituem de perguntas e mais perguntas, muitas delas sem respostas, recheadas de ódio, amor e alegria. Feito uma canção para um cigarro e um conhaque, palavras para um epílogo com ninguém, numa ode ao vazio, de um Eu-lírico mudo, em um canto, ante ao discurso para um nada feliz. Ou feito uma carta de amor, sem nome, sem deus, sem título, sobre a escrita. Um canto egoísta sobre ontem, sobre a ação do estado assassinada a lápis; a peste negra, o buraco negro, o autor retrato, numa despedida, in memoriam.

Em “Um passado por vez”, por exemplo, seu eu-lírico versifica sobre o desejo de encarar de frente tudo aquilo que viveu e o querer sentir “toda dor maior que eu,/ mas meu corpo não aguenta,/ e no peito/ um pino,/ o arrebento”. Vida esta muitas vezes indigesta, que amarga o gosto na boca e torna as noites insone e se assemelha à própria morte.

Neste mergulho semelhante ao despencar de um abismo, inquirir sobre a vida tem o mesmo efeito de puxar o ar e agarrá-lo para não sucumbir a sua falta. Mesmo reconhecendo que tudo se encontra trincado, “desde a tela do celular/ ao olhar sem descanso”. E que, assim como nascer não é uma escolha, não está em nosso domínio o encontro de nossas vidas com outras tantas. Muitas delas trazem à tona uma multiplicidade de sentimentos oriundo da possibilidade do reencontro, deixando como consequência um “misto de raiva, tristeza e aspereza”. Nessas horas, como em tantas outras, a poesia pode ser um ato de amor ao que se mantem vívido na memória, ainda que esta revele a “distância de um eu,/ que agora, como uma tragédia” descarta e assassina, composta por palavras feito “armas na madrugada”, que também são “armaduras fluídas no tempo”.

A escrita de Cristiano Silva Rato é marcada pela crueza das palavras, sem floreios ou rebuscamento. Ela transita entre o lirismo poético característico do rap, e o discurso direto e minimalista das canções anarcopunks, sem deixar de lado a fúria e a quietude, entre o dizer e o não-dizer, entre o vomitar tudo o que corrói por dentro e o se preencher de memórias, sentimentos e do vazio que está presente em tudo.

Arrisco dizer que “Todos que conheço são suicidas pode ser descrita como uma obra antipoética, muito mais próxima de uma subversão daquilo que se convencionou a chamar de poesia por uma tradição elitista, acadêmica, cheia de escolas avessas ao que é incompreensível por suas lentes ofuscadas pelo tempo, do que uma antipoética que não busca a criação de uma estética que lhe seja própria. Não se trata, portanto, de se opor à poesia em seu sentido mais amplo, mas de uma ressignificação da sua feitura, objetiva, coloquial e permeada de clichês e expressões populares, em resumo, que seja periférica e marginal.

Como se observa em “Uma carta de amor”, em que o eu-lírico reflete sobre “como é ridículo falar de amor/ e, belo, falar dor” e “por que querem que eu fale sobre o ódio?/ Quero dizer coisas ridículas,/ que esta raiva passe/ e gritar pelado, pelas avenidas, ruas e becos”. Em “Alegria” e “Para os fracos”, mesmo se tornando o “escárnio de amigos,/ de caminho ao lado”, e duvidoso sobre como falar de amor numa época em que é preciso ser forte “e sentimentos não combinam com a luta”, há uma certa felicidade em saber que sua “desgraça/ é alegria de alguém” e que tudo lhe afeta, desde: “a falta, a presença, os raios de sol, os sorrisos que não tenho mais”. Pois “o amor é para os fracos, para os pobres,/ para os que perderam,/ para quem nunca teve,/ aqueles que não conseguem dizer uma palavras/ sem lembrar da sensação de um beijo”.

Em um país que está sempre na eminência de invadir suas ruas com o exército, “em nome do povo”, violentando corpos, violentando, estuprando, “em nome do povo”, e o Estado entra em ação com sua necropolítica, as palavras “escapam como escarro/ sem sentido,/ sem poesia, longe de vidas interrompidas”, “no mar vermelho,/ [das] memórias esquecidas no formol”, “a vida continua…/ como sempre,/ se antes era/ fruto/ agora é produto,/ imagens de poder/ para o futuro”.

Em sua antipoética, Cristiano Silva Rato não se esquiva da espinhosa tarefa de refletir sobre a palavra e seu “excesso desprezível de sentidos”, que já não provocam mais “nenhum alarde no público dito emancipado”, muitos dos quais entoam “canto contra o fascismo” que “ouvimos todos juntos/ e cantamos também”. Pois “são muitas vozes/ e também uma faca feroz./ Muitos algozes/ e uma história fóssil”. E questiona: “que diferença faz/ criticar o senhor de escravos/ e agir do mesmo modo?/ Colonizar o pensamento,/ usar a palavra como tronco, ferir o baço, atirar em quem não é espelho seu/ ter o prazer de tirar, ter o prazer de desacreditar/ em público, público mal-estar”.

Embora “Todos que conheço são suicidas” seja uma obra repleta de sons, das balas perdidas, dos corpos tombandos no meio da rua, do desespero das mães, do lamento pelos que se foram e das vozes ecoando na mente; há também um silêncio ensurdecedor em seus versos, sobretudo entre uma palavra e outra, que se assemelham a navalha talhando a própria carne, como em “Resquício de um suicídio”, porque é no ato da escrita que se morre um pouco, afinal, “se não fosse/ este deslize,/ quem sabe/ como estaria/ o meu corpo/ dentre em pouco?

Certamente seu corpo seria mais um levado pela morte “em forma de Estado,/ nas mãos de amigos”, que vem “com o amor,/ pega carona,/ na rua, um desconhecido,/ para apressar as coisas”. Pois nossa única certeza é que a morte vem “todos os dias,/ na tv, no ar,/ na água ou na escola.// Todos os dias,/ ela vem” e só nos resta “esperar,/ ver como vai ser” e esboçarmos um riso com algum esforço, como meio de continuarmos “correndo/ das bombas de gás,/ escondendo/ dos tiros na rua,/ dando balão/ e driblando/ os guardas./ Com feridas” e continuar “nas batalhas,/ nas corridas”.

Cristiano Silva Rato é autor de Sentido Suspenso! (Multifoco, 2012) e tem diversos textos espalhados pela internet e em antologias. Documentarista, ajudou a criar e dirigiu o programa de websérie Literatura no Boteco. Integra o Coletivo Terra Firme, de Ibirité, a Cooperativa de Literatura Marginal, e é responsável pelo selo editorial e agência multimídia Marginália Comunicação.

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