Férias na Disney, de Bruno Molinero

O estado de alerta, a denúncia, o delírio e o escárnio. O poema de abertura, “lá vem eles”, do escritor paulista Bruno Molinero, é um breve anúncio do que veremos ao longo dos vinte e nove poemas que complementam Férias na Disney (2020), sua mais recente obra lançada pela editora Patuá. Seu eu lírico, no entanto, está longe de ser uma voz dos oprimidos, ou a de algum militante de causas nobres, indignado com o status quo em que estamos imersos.

Em “açougue”, por exemplo, o cinismo ecoado por aqueles que disseminam ódio nas redes sociais, entrevistas e discursos oficiais do governo transforma-se no mote a ser explorado em seus versos. É dessa fonte fétida e lúgubre que emana o famigerado “meus sentimentos à família/ lamento/ mas e daí?”, que o eu lírico utiliza para se eximir de um brutal assassinato cometido por seus seguidores. Apenas ensinei “a desossar leitão inteiro” em um vídeo postado na internet, alega inocência, salientando ainda que “todo mundo gosta de assistir/ barriga de bicho sendo aberta/ ver focinho em tigela gelada/ enquanto escuta problemas debate úlceras e amarguras”.

Nos poemas “anúncio” e “um corpo”, a banalidade das ações humanas se repete, seja numa breve descrição sobre o aluguel de um quarto “pra casal/ homem/ e mulher/ sem vícios/ mobiliado/ com cama/ criado-mudo/ bíblia e um/ trinta e oito/ carregado/ na gaveta”, ou numa detalhada narrativa protagonizada por banhistas e ambulantes ávidos por entretenimento com um golfinho agonizando na areia da praia.

Selfs diante de um cadáver, o sacrifício humano na praça de alimentação, a gênese da indiferença e da crueldade, a violência policial registrada “em plano americano perfeito” por uma digital influencer protegida pela vidraça de uma cafeteria. Os poemas de Bruno Molinero escancaram as múltiplas camadas de uma sociedade do espetáculo, que vão desde a banalização da violência e do crime ao modismo ambientalista da esquerda cirandeira e o ciberativismo lifestyle. Tudo orquestrado com exímias doses de ironia e uma lírica tipicamente paulistana, como observa Manoel Herzog na orelha do livro.

A propósito, não fosse o tom irônico que às vezes surge como um plot twist ao término do poema, como em “gatilho” e “sete minutos”, o cenário poderia muito bem ser análogo à Dismaland, de Banksy. Não pela representação de personagens “que se arrasta/ penitentes pelos/ paralelepípedos/ joelhos rasgados/ deixando rastros/ de suas artrites/ reumatismos/ cáries/ abortos/ arritmias/ hérnias/ e estalos/ que os velhos/ carregam nos/ corpos cobertos/ por camisolas puídas/ costuras esgarçadas/ cabelos revoltos/ de noventa anos”, e pela escória humana condenada a utilizar o elevador de serviço e que não recebe a visita de Papai Noel; mas pela falta de humanidade que é vista em todo canto, pelos que usam e abusam da inocência alheia como em “o cego e a bailarina”, e os que não admitem que outros se atrevam a mandar mais do que eles em seus próprios funcionários.

 Gente que também poderia ser qualquer personagem de Nelson Rodrigues: a mulher com sua máquina que garante “sete minutos/ ininterruptos/ de orgasmos múltiplos” estimulados por uma conversa besta com seu cunhado; a adolescente em seu quarto rodeada por bichinhos de pelúcia e sua “cobra-verde-do-sri-lanka/ subindo da coxa à virilha”; o homem pelado que “do outro lado da rua/ balança o pau mole”; a tia louquinha que adorava campari e passou a viver acorrentada após dar “pra falar/ com espíritos, tagarelar namoricos” e amar “o maior/ banzeiro/ travada/ na cama”; e o “pai de família/ no quarto de motel” com onze garotas de programa na hora do almoço.

Quer seja por meio de poemas curtos e crus — alguns não ultrapassando seis, sete palavras, outros apenas com um “mas” —, ou por outros tantos mais longos, estendidos por três, quatro ou até onze páginas, sem perder a precisão, a hibridez entre poesia e prosa, o ritmo acelerado, quebradiço em várias frases, Bruno Molinero retrata a fauna de uma classe média que transforma o país no picadeiro de um show de horrores. Os mesmos que elegeram um genocida, que destoam da ciência em meio a uma pandemia, colocam em risco a vida alheia e debocham daqueles que perderam familiares e amigos pela Covid-19.

Férias na Disney é daqueles livros que, se lidos numa sentada, seus poemas permanecem latentes por um longo tempo. Um feito apenas proporcionado por obras dignas de nota, e essa nota poderia facilmente ser bem mais longa. Assunto para tanto é o que não falta.

Bruno Molinero é jornalista e autor de Alarido (Patuá, 2015), que venceu o Prêmio Guavira de Literatura. Estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, na Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba) e na Universitat de les Illes Balears (Espanha), e escreve para a Folha de S. Paulo desde 2010. Foi vencedor do prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog, finalista do prêmio Nascente, da USP, e indicado ao Prêmio Folha. Em 2012, representou o Brasil no World Event Young Artist, na Inglaterra. Férias na Disney é seu segundo livro.


FÉRIAS NA DISNEY
Preço R$ 40 (88 págs.)
Autor Bruno Molinero
Editora Patuá

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