Mácula, de Mariana Basílio

Uma das questões estéticas mais instigantes do filósofo Arthur Schopenhauer é a de que, por meio da obra de arte, o Gênio (ou, os grandes artistas) nos empresta seus olhos para enxergarmos a essência do mundo apreendido por ele, e que, por meio da contemplação, temos acesso tanto ao substrato último das coisas quanto a um conhecimento mais profundo de nós mesmos. Assim, ao mergulharmos na subjetividade do artista, saímos da condição de meros espectadores para nos tornarmos coparticipantes dessa representação, tornando a relação autor-obra-público numa experiência única.

Ao propor um caminho oposto em sua mais recente obra, a poeta Mariana Basílio parte das impressões de outros sujeitos para compor seus poemas. Inexistência, Angústia, Desesperança, Revolta, Resiliência e Coragem, são algumas palavras que brotaram de um sentimento coletivo gerado pela pandemia da Covid-19, para se transformarem numa obra que, assim como a mácula — essa pequena mancha localizada no centro da retina, no sentido oftálmico — acentua nossa agudez e acuidade de pensamento, ao estimular o grau da nossa sensibilidade e, assim, expandir ainda mais tanto a nossa visão sobre a realidade que nos cerca, quanto a própria experiência estética.

Descrito como um livro manifesto sobre a presente década e o cenário nefasto em que se encontra o mundo e, por conseguinte, este país, Mácula (Patuá, 2020) é também descrito como uma coletânea pandêmica, com seus 50 poemas oriundos de uma pesquisa feita pela autora nas redes sociais.

Mariana penetra “sorrateiramente no interior das palavras” para destrinchar um “Brasil, de asas quebradas, [que] permanece em voo” e um mundo “que jamais será o mesmo”. Exercício poético que é, antes de tudo, uma imersão na interioridade humana, um caminhar por entre as erosões, escrutando as rachaduras do “arquipélago de corpos” na “impossibilidade de apreciar um total de humanidade”.

Seus poemas adentram no “peito e o que dele se partiu”, ao tecer “versos da boca noturna” e seus “infernos artificiais”. Todo o ódio que se estende deles “não elimina/ a possibilidade de vagar o amor”, ainda que o impossível seja “um sonho ideal,/ traçando a cura dos mortais”. Desânimo e Resistência, Incerteza e Redenção. A volubilidade dos sentimentos que ecoam de cada vocábulo, dita o tom e revela a pluralidade do estado anímico de toda gente — por vezes indo de um extremo a outro —, e uma imagem muito mais difusa do que o jogo de luzes e sombras que uma paisagem inestética sugere. “Como num roteiro de Charlie Kaufman,/ penso em esmiuçar a soberba humana,/ construir um retalho de pavor e amabilidade,/ erguer o que é atemporal, contar novidades”.

“O oficio de pensar uma única ideia” na “plenitude de estar só, como um borrão”, diante de “tudo o que os livros não contaram/ entre milênios de perdão, de ódio/ e asco”. “A comédia da catástrofe” ante “a psicose de um”, e “o enfado do outro”. “Dizer toda a verdade — rasgada, cuspida —/ com o êxito de negar um susto sublime”. Ao realizar aquele mergulho anteriormente citado, Mariana Basílio estabelece um diálogo e um reencontro com o Outro, num momento em que o distanciamento entre as pessoas acentuou-se antes mesmo da crise sanitária causada pelo coronavírus. Diálogo que só foi possível quando a autora se dispôs a escutar aqueles que estão ao seu entorno, tornando vívido aquilo que “ninguém pensou em ser, antes/ de saber que assim existiria”.

Além daquilo que fora dito sobre Mácula até aqui, é oportuno salientar que ela pode igualmente ser descrita como uma obra metapoética, anunciada antes mesmo do que se propõe, tanto ao refletir sobre o ser e o não-ser da poesia, quanto na sua feitura propriamente dita, que não se finda na objetivação das abstrações e sentimentos. Primeiro porque, segundo a própria autora, “quando a sociedade e o espetáculo se unem, lado a lado. A poesia não temporiza. Porque não seduz ou engana, ao contrário, escama, inflama e preenche o vácuo das palavras insignificantes com muito mais significado. A poesia aporta, martela, desata, tremula as bandeiras nacionais e internacionais, além dos comandantes, acima dos oprimidos, unida aos objetos naturais e artificiais”. E segundo, porque a sua concretude enquanto tal, se efetiva antes, durante e depois do abrir e fechar de suas páginas, quando aquela relação autor-obra-público/leitor se torna única, e nomear um por um, aqueles que se dispuseram ao diálogo, é uma prova disso.

Quer seja um registro da infâmia, da impureza, da desonra, dos nossos erros e da inexatidão das coisas, e tudo aquilo que se tornou o palco de nossa miséria, ou aquela capacidade de irmos além do que nos cerca e de nós mesmos, a presente obra de Mariana Basílio é, como dito, uma marca deste tempo e não apenas dele. Um retrato daquilo que somos capazes, na vastidão das possibilidades daquilo que nos afeta e de promovermos afeto.

Mariana Basílio nasceu em 1989, em Bauru, interior de São Paulo. Mestra em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), é prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016) e Tríptico Vital (2018, premiado com o Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo – ProAC 2017, finalista Residência Literária Sesc 2018 e finalista Prêmio Guarulhos 2019). É também autora da plaquete As Três Mal-Amadas (2018). Colabora em diversos portais e revistas nacionais e internacionais. Com patrocínio do ProAC 2019, apresenta seu quarto livro na poesia contemporânea, Mácula. No final do segundo semestre de 2020 recebeu da Secretaria de Cultura Do Estado de São Paulo o “Prêmio Por Histórico de Realização Em Literatura” (ProAC Expresso). Mantém o site: https://www.marianabasilio.com.br.

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