Pessoas promíscuas de águas e pedras, de Thais Lancman

Renovação, purificação, lavagem anímica, transformação. Palavras que ecoam pelas narrativas de Thais Lancman, em Pessoas promíscuas de águas e pedras (Patuá, 2020), e nos convidam a um mergulho na interioridade das suas personagens. Quer seja num tom mais intimista, análogo ao que poderíamos chamar de realidade, ou por meio de um flerte com as narrativas insólitas, oníricas e fantásticas, os trinta e três contos que compõem a obra recolocam as questões em torno do nosso modo de ser e estar no mundo, e os conflitos inerentes à relação do sujeito consigo mesmo e com o Outro.

Em “St. Christopher’s Inn, Rosa-Luxemburgo-Platz”, por exemplo, a personagem-narradora se vê confrontada com os anseios e temores que caminham de par em par com a clausura e o desejo de socializar-se, a necessidade de conhecer a si mesma ao revisitar o passado ancestral e o não-saber-lidar com as dores reacendidas. Há também uma espécie de dilema antropofílico em tal conto, oriundo da querência de conviver com o Outro e o receio da sua índole desumana, definida em outro momento como uma das maiores atrocidades da nossa própria condição.

No primeiro caso — em que a observação das experiências alheias proporciona algum aprendizado, assim como no caso da biógrafa em “Sal” —, o próprio sujeito se reconhece como uma barreira a si mesmo, enquanto o Outro, por seu turno, representa um meio de superar as adversidades autoimpostas. E quanto mais próxima das pessoas, mais ricas se tornam as narrativas deste Eu em busca de autoconhecimento ou de entender aquilo que se é: “a partir de relatos dos outros, eu reconstruía uma verdade, contada o que eu ouvia sobre o que era estar ali onde eu mesmo estava mas não sabia.

No segundo caso, esse espelhar-se no Outro ou extrair dele alguma lição, se estabelece de uma forma, no mínimo, indesejável, a exemplo do que ocorre em “Como e quando entrar na água”. No conto em questão, a relação com o Outro condiciona uma das partes ao assujeitamento e/ou existencialidade-nula, imposta pela “sujeira diária cumulativa” e do “automatismo da vida”. Condição esta que reaparece em “Receita para uma mulher boa”, ao trazer à tona o jogo de poder existente nas relações conjugais. Sobretudo no apagamento da mulher bem-sucedida que abdica de si para caminhar ao lado do marido, enquanto a reciprocidade não é verdadeira, quer seja por conformismo ou por pura indiferença com a violência simbólica ocorrida neste caso.

No trânsito entre as formas de violência que aparecem nos contos de Thais Lancman, em “Amanhã”, sua narradora-personagem partilha sobre “a energia [que] se esgota antes mesmo do início do dia” e o autoflagelo da carne como forma de purificação, assim como a decisão de silenciar-se de tal modo “que nem grito de dor sai dessa minha oração” na certeza de que o louvor à sua própria carne “não pode ser idolatria, só basta que se cicatrize antes da morte para que o corpo esteja imaculado”.

Quer seja a dor física, espiritual ou psíquica, em nenhuma delas o homem consegue acessar algo tão terreno. Ao fazer a opção pelo silêncio gradual, pela purificação do hábito de contar sobre si, de despir-se e gritar, ocorre uma entrega do que se tem “de mais verdadeiro” e o afastar-se de todos à sua volta assemelha-se a “um barco não amarrado no cais”, apto, portanto, a navegar livremente.

Nessa espécie de imersão narrativa, a experiência estética-literária proposta por Thais Lancman requer um ato contemplativo, mesmo quando a ação se impõe e o ritmo atende ao seu apelo, ainda assim nada escapa aos olhos ou se perde entre uma direção e outra. Em seu mosaico de cores, sons e elementos da natureza, o princípio das coisas (arché) dos pré-socráticos transcende da sua especulação cosmo-ontológica para ganhar vida e contracenar com as demais personagens, como em “Mirassol” e a sua voz narrativa pertencente a uma personagem não-humana; e “Família vende tudo”, onde o ar assume uma condição opressora na vida de um garoto, transformando-a de modo definitivo.

Se o caminho para a renovação, purificação, lavagem anímica e transformação não é tão fácil e pode até mesmo levar um indivíduo ao limite de sua existência, este mesmo caminho é permeado por pequenas manifestações do belo, como o vai e vem das ondas e a luz solar refletida num espelho d’água, que assumem em Pessoas promíscuas de águas e pedras uma força pouco vista ou quase nada observável por aqueles que não se detêm diante delas. Ao ilustrar as diferentes maneiras e significados dos estados físicos da matéria e suas relações com as ações humanas, Thais Lancman promove um deslocamento desse olhar acostumado com as coisas ao redor, e assim, como diria Hemingway, converte-o num gesto ou modo de olhar para elas como se fossem vistas pela primeira e última vez.

Thais Lancman nasceu em 1987, em São Paulo, onde vive. É doutoranda em Letras pela Universidade Mackenzie, onde estuda a relação entre arte contemporânea e ficção. Interessada na zona difusa da fronteira entre linguagens, e na experiência sensível como materialização de filosofias de vida e crenças. Publicou Palito de Fosfeno (Editora Reformatório, 2014), além de contos e ensaios em coletâneas no Brasil, Alemanha e Áustria e em revistas impressas e online. Pessoas Promíscuas de Águas e Pedras é seu segundo livro.

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