Por que não enterramos o cão?, de Theo G. Alves

Esqueçam da Morte como musa inspiradora do artista, evento determinante na vida de algum personagem e das tramas, ou como pano de fundo para falar de outras questões. Em Por que não enterramos o cão? (Patuá, 2020), de Theo G. Alves, o barqueiro de Hades, suas demais representações e simbologias, vão além de uma questão nuclear que rege seus trinta e nove contos para ascenderem ao palco como personagem principal da obra.

Peste, Guerra, Fome e Morte. Ao construir suas narrativas a partir das danações apocalípticas, o escritor norte-rio-grandense, Theo G. Alves, nos insere num cenário de “terra seca, de vida pouca”, “de ausência, de chão batido, terra ainda mais doente que a doença que leva” aqueles que nela pisam. Lugares com céu tingido “com as cores do pranto”, onde as personagens vivem de espera e esquecimento: dos que se foram, levados pela morte, pela esterilidade da terra e pelo tempo insaciável que a tudo devora.

Em um ambiente assim, onde até mesmo Deus “já não aparece há tempos”, na certa por “andar ocupado com gente maior, que é sempre mais importante”, os pássaros “alimentam-se do que os parasitas deixaram incrustado ao couro do bicho” e “os parasitas roem lentamente o dia e sua imundície”. E como não poderia deixar de ser diferente, os que ainda não se deram conta da própria morte ou não se encontraram com ela pelo caminho, a infância perdida na memória é o único lugar de existência possível, e somente ela, quando curta, é capaz de tornar “a vida menos pesada”.

Em termos formais, a brevidade dos contos não apenas torna a obra menos pesada e favorece o seu ritmo, como demonstra uma certa expertise do autor em dizer o que é preciso, sem descambar para o terror ou para uma narrativa extremamente melancólica. Ou seja, a morbidez, o luto, as angustias e tudo aquilo que gira em torno dessa grande personagem recebe outros matizes na sua tecitura, tornando sua atmosfera menos densa e, por vezes, até mesmo espirituosa, a exemplo do que ocorre nas conversas ao pé da fogueira nas noites de velórios — e aqui me refiro, sobretudo, aos velórios nas regiões nordestinas, e quanto mais interiorana mais evidente, onde a morte é sempre “um grande acontecimento”.

O que não implica dizer que na obra em questão não haja dor e sofrimento. Seja das mulheres com seus “braços de uma divindade sem nome” que guardam “em seu colo o refúgio de todos os fracos”; mulheres com suas crias, solitárias em sua sina de trazer ao mundo aqueles que um dia entregarão outras mulheres à própria sorte, tornando este ciclo numa história infinda. Ou de homens que se empilham na carroceria do caminhão “como fardos de ossos uns sobre os outros”. Homens que são sempre mais homens “debaixo deste sol de terra quente, sobre essa areia escaldante de onde brota o suor de todas as gentes, de infinitas gerações”. E que sempre “é mais homem vingando o corpo de sua irmã. num chão de terra quente como este”, onde “qualquer um é homem suficiente para levantar uma faca, [e] mais homem ainda para guardá-la no ventre”.

A chuva e o tempo são dois elementos igualmente basilares em Por que não enterramos o cão? O primeiro, quando chega uivando gelado ou anuncia sua vinda, reúne toda família num alvoroço sem tamanho, os gritos dos meninos ecoam “nas ruas de barros e ermos; os homens” apinham “as latas e baldes debaixo das bicas, cheios apenas de esperança”. Enquanto o segundo, por seu turno, alterna a sua sensação entre a eternidade das horas e a fugacidade dos dias. Exceto para os mortos, para quem o tempo “é quase nada na vida”, “repleta de nadas, e de ninguém”.

Assim como os seres conscientes da sua condição efêmera no mundo, a única certeza que os personagens de Theo G. Alves carregam é a certeza que a morte não tarda. Ou como dito por um dos seus narradores: “era comum o hábito de morrer como já não é mais. ainda que morrer exigisse de todos nós certo ânimo e outro tanto de solenidade” […] “os mais antigos dizem que aos sábados a morte aparece sempre para levar alguém porque durante a semana deus é vigilante. Seu descanso sagrado do sétimo dia é o que desmancha a sentinela e o tinhoso lança mão sobre nossa gente”.

Numa época como esta, em que a nossa condição humana e a finitude da vida parecem ter chegado ao limite e muitos são aqueles que já não suporta mais falar e ouvir sobre a morte e todo o que nela se encerra e desencadeia, o maior mérito de Por que não enterramos o cão?, e consequentemente do seu autor, é não se render ao capricho da banalização do tema, nem se privar de abordá-lo com a gravidade e urgência necessária. Condição primordial para garantir uma experiência estético-literária prazerosa e incitar o desejo de conhecer suas demais produções.

Theo G. Alves nasceu em dezembro de 1980, em Natal – RN, mas cresceu em Currais Novos e é radicado em Santa Cruz, cidades do interior norte-rio-grandense. É escritor e fotógrafo: publicou os livros artesanais “Loa de Pedra” (poesia) e “A Casa Miúda” (contos), além de ter participado de várias coletâneas de poesia e contos. Em 2009, lançou seu “Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis” (poesia e contos); em 2015, “A Máquina de Avessar os Dias” (poesia), ambos pela Editora Flor do Sal. Em 2018, através da Editora Moinhos, publicou “Doce Azedo Amaro” (poesia). Venceu o Prêmio Nacional Ignácio de Loyola Brandão de Literatura com o conto “Por que Não Enterramos O Cão?”. Como fotógrafo, dedica-se em especial à fotografia documental e de rua, tendo participado de exposições que discutiam relações de trabalho e a vida em comunidades das regiões Trairi e Seridó. Também ministra aulas de fotografia digital com aparelhos celulares em projetos de extensão do IFRN, onde é servidor.

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