Interstícios, de Fernando Andrade

Friamente descrita, a palavra não passa de uma unidade linguística, com significado próprio e existência independente. Separada ou intercalada, por espaço ou sinal de pontuação, por ela exprimimos partes dos sentimentos e pensamentos humanos. Há quem defenda a ideia de que, graças a essa capacidade, a raça humana chegou até onde chegou — seja lá o que isso queira dizer.

De acordo com o poeta, jornalista e crítico literário, Fernando Andrade, “toda palavra é só uma ciranda/ gira a cabeça e diz a prova”. Por ela constitui-se as “rimas e canções/ a tramar as/ lentes da filosofia” proferidas pela boca, que também é cartografia das palavras. Algumas são tristes, outras são tiros na precisão da morte do nosso faroeste cotidianamente televisionado. E provocam pelejas entre o verbo e o substantivo. Boca que pergunta, que pede e que canta: aos orixás, aos pajés, aos paxás, à “Oxalá,/ que chama por Ogã”, e que celebra o canto e profere palavras brandas que “pode ser uma linha apalavrada com seu/ melhor amigo”.

Em sua mais recente obra lançada pela Editora Penalux, Fernando Andrade se apropria das palavras para experienciar sua verve poética, beirando a insólito e o absurdismo da criação, cujo eu lírico nos conduz para além dos limites da linguagem ensimesmada. Esta que, dentre outras coisas, pode ser mordaça e camisa de força para um homem mental.

Interstícios é uma obra em que o “efeito será uma parte do escombro”, do esgarçamento dos símbolos e signos linguísticos, no exercício do conto em caminhadas poéticas. Mosaico de uma viagem Rio-São Paulo de ônibus-leito, ou de trem, feita por “um coadjuvante/ de si mesmo”, seja este o próprio poeta ou o leitor, levando consigo bagagem feita às pressas numa viagem que “transcorre/ calma, mas sem/ estação definida”.

Nesse exílio “de uma estrofe de cancioneiro/ dos poemas do sertão brasileiro”, a memória “é como uma fina carvoaria de grafites/ em contato com a folha” para a feitura e leitura de uma obra que é preciso “ver além do verso”. “Um exame oral, um timbre, uma camada de tinta” das palavras soltas e fluídas de filósofos e músicos que na composição dos poemas, a sós “nos solicitam – eternos interstícios”.

Uma obra breve em sua materialidade, vale ressaltar, mas de uma grandeza inventiva imensa. Sobretudo quando permitido ecoar o que dela eclode, nos intervalos de uma leitura e outra, que não termina quando o livro se fecha.

Fernando Andrade é poeta, jornalista e crítico de literatura. Faz parte do coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel. Participa também do coletivo Clube de Leitura, pelo qual tem dois contos publicados em coletâneas: Quadris, no vol. 3, e Canteiro, no vol. 4. Colaborador no Portal Ambrosia, realiza entrevistas com escritores e também escreve resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e Meio, Lacan por Câmeras Cinematográficas e Poemoemetria; e  Enclave, pela editora Patuá. Seu poema “A cidade é um corpo” participou da exposição Poesia agora em Salvador e no Rio de Janeiro. Lançou em 2018, seu quarto livro de poemas, A perpetuação da espécie, e, no final de 2019, o livro de contos Logoritmosentido, ambos pela editora Penalux.

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