Homo Sapiens Sexualis, de Marcelo Frazão

Composto por 50 poemas ilustrados por Paulo Villela, a nova edição revista e ampliada de Homo Sapiens Sexualis (Villa Oliveira Artes, 2000-2015), de Marcelo Frazão, é um verdadeiro hinário em louvor à carnalidade humana. Ou, como dito pelo próprio autor, uma oblação aos “que praticam/ praticaram/ praticarão/ aos que pararam de praticar/ aos que tem medo/ na esperança que o impulso/ seja maior que o freio”.

Desde que o mundo é mundo, a natureza segue o seu fluxo na fruição dos corpos, para o deleite de muitos, mesmo àqueles que condenam e maldizem os que não negam a definição existencial da própria espécie. “Será que não temos direito à felicidade?”, interpela o eu lírico que, logo na primeira estrofe de abertura da obra, deseja a boca “e tudo que está/ dentro dela”; pois é dela que sai o dizer e o não-dizer de toda precisão.

A constituição dos poemas prioriza mais o ritmo dos versos do que a forma. Como se na feitura da textualidade estivesse a própria extensão do corpo. Este mesmo, algo ainda a ser descoberto pelo eu lírico que sentencia no poema seguinte nada ou “pouco entendo de limites/ linhas imaginárias/ contornando minhas partes”.

Há os que afirmam sem nenhum pudor que não existe experiência maior que se entregar à voluptuosidade dos desejos. Incluso, conhecer a si mesmo não pode ser inteiro de outra forma. Afinal, “quantos segredos/ revela nosso avesso/ o avesso do corpo/ a carne/ de dentro/ em contato/ com a carne/ de fora/ morna/ úmida/ profunda/ em movimento”?

Devorados numa sentada, ou degustado parcimoniosamente, os poemas de Homo Sapiens Sexualis são inomináveis e certeiros na tecitura de suas imagens poéticas. “Sem sabermos se o instante existe/ ou se faz necessário”, a leitura segue, ou não, de acordo com a disposição desse outro que participa do ato versificado por Frazão.

As ilustrações de Paulo Villela são um atrativo à parte. Ou melhor, elas compõem a parte imagética do que ecoa por entre palavras, símbolos e espaços, trazendo aos olhos o que, às vezes, por meio da leitura não se torna evidente. A solidão e o companheirismo, a libido e o humor, a timidez e o êxtase, a loucura, o torpor e o vazio, o gozo, a perdição, a exploração dos espaços e o olhar perdido na reflexão sobre o sexo, a indumentária inútil e largada em qualquer parte, o corpo liberto em toda a sua plenitude. Traços precisos em qualquer sentido que isso enseja, irrompendo em cena o que estava fora dela por imposição de qualquer falsa moral e conservadorismo que insiste em ver o que se diz obsceno.

Enganam-se os que esperam tratar-se de mais uma obra repleta de baixo calão, ou vocábulos demasiadamente explícitos e recorrentes no gênero. Como bem observado na dedicatória de Alvaro de Sá ao autor, há um todo a ser dito por cada leitor, “pela virtualidade de seus repertórios e pela riqueza que a língua proporciona a cada um deles”. E se ainda assim houver quem torça o nariz, vocifere protestos e condene as palavras que entram e saem da boca e da mente de toda gente, sejam elas puritanas ou não, que fique de sobreaviso: “Ora hipócritas, deixem-me!/ O lado feio da vida me interessa”.

Por fim, no desejo de que outros se deliciem nesta libidinosa experiência poética, deixo aqui um dos poemas que, de certo modo, sintetiza o clima que permeia a obra por inteiro: “Corpos, membros e salivas/ não vem/ com manual de instrução// Talvez não seja bom/ nem ruim/ apenas a vida/ afinal/ que mistérios/ são mais impressionantes/ que os nossos/ próprios mistérios”.

Marcelo Frazão (1964) é natural do Rio de Janeiro, radicado em Salvador, BA. Mestre em Ciência da Arte pela UFF, bacharel em Gravuras e Pós-graduado pela EBA-UFRJ. Participa ativamente de mostras individuais (sendo duas no Museu Nacional de Belas Artes) e diversas coletivas no Brasil e no exterior desde 87, recebendo várias premiações. Implantou a oficina de Litografia na Escolinha de Arte do Brasil, onde lecionou e coordenou o Núcleo de Gravuras de 94 a 97. Lecionou na Escola de Belas Artes (UFRJ) como professor substituto no curso de Gravuras e Pinturas; Universidade Estácio de Sá, Metodista do Rio (Bennett) e Senai Cetigt. Foi Curador da estenda Galeria do SESC Copacabana de 96 a 2000. Como escritor tem publicados Haikai e Homo Sapiens Sexualis (2000-2015). A Cara do Rio (2018), e Erótica (2019), parceria entre o poeta Armando Freitas Filho e Marcelo Frazão.

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