Depois do sonho, de André Galvão

Se a arte é salvação e refúgio nos momentos mais difíceis da vida, em sua obra mais recente André Galvão nos revela o quão duro e vil é o mundo que nos cerca, sem deixar de evidenciar toda a sua beleza.

Dividido em cinco partes, os 35 poemas que compõem Depois do sonho (Penalux, 2020) são mais que o registro de um olhar atento sobre a condição humana. Eles também formam um mosaico do que há de mais cotidiano e sublime em nosso ser e estar no mundo.

A cidade feito um organismo vivo, um titã faminto em busca dos filhos reclusos em seus lares; o instinto egóico de sobrevivência alimenta ainda mais a violência manifesta em todos os lugares de diversas formas. “Somos o motor insano de sua verve/ enquanto torpes conveniências cegam/ nossos olhos aos que sofrem diariamente”. Benção e desgraça caminham de mãos dadas, aliviando a sede de alguns afortunados enquanto soterra de lama os miseráveis.

A violência é o mote que rege os poemas que compõem a primeira parte da obra em questão. Ela é o sangue que corre nas veias da cidade, das gentes que nela habitam e até mesmo nos elementos da natureza.

André Galvão não poupa a tinta na composição dos seus versos e das imagens poéticas, com suas cores frias. Ainda que o tempo não seja demarcado, a impressão é a de que estamos permanentemente cobertos pelo manto da noite. Os gélidos esgotos ao léu, a poeira que corta as avenidas, os cães desterrados, o passeio do trôpego cambaleante que sorri dos indiferentes que o cercam. A escuridão encobre até mesmo os pensamentos, tornando as saudosas lembranças do passado ainda mais distantes.

Na segunda parte de Depois do sonho, o poema de abertura estabelece um diálogo com Alberto Caeiro, ou entoa uma elegia em sua homenagem, para falar de uma aldeia que já não é mais a mesma de outrora. “A minha aldeia”, lembra ainda a máxima saramaguiana sobre a necessidade de sair da ilha para vê-la e a nós mesmos. Há que se ter um olhar crítico para perceber a inércia daquele que anda em círculo, guiado por ideias extremadas.

A desumanização daquele que “precisa matar um igual/ para seguir vivendo sua mentira”, “o cheiro de pólvora/ e de carne queimada” destilados pelo fervor do sangue de quem ameaça o futuro, o mundo cada vez mais perverso ante a ambição humana, a fome de amor e paz, “A rapsódia surda da política brasileira”, eternamente encenada por novos atores. Diante do espanto perante o terror da vigília, a pergunta feita por Rita Queiroz em seu texto de abertura se torna ainda mais latente: “ainda podemos sonhar?” depois do sonho?

Quer seja encarado como uma resposta ou não, na terceira parte o eu lírico de Galvão nos lembra que mais importante do que as vitórias são os aprendizados que as derrotas ensinam. E que no jogo de luz e sombra constituído em cada palavra, a perda de si mesmo é um risco constante, e tanto o externo quanto o interno pode ser a causa da mesma. Em “Muito além de todos os motivos”, o inexplicável motivo de sonhar, “mesmo quando não há sono/ quando não há alegria/ diante de tanto desalento”, se impõe diante da certeza de “que viver é urgente demais para deixar de lutar”.

É no fazer artístico, na labuta com a palavra e na feitura da poesia que os sonhos e a própria vida se tornam possíveis. Em tempos sombrios como estes, em que a vida se desfaz no escárnio de cada palavra proferida por aqueles que deveriam protegê-la, “Viver é urgente/ para além dos sonhos/ ousadia/ ou prudência// Urge sermos hoje/ tudo aquilo/ que projetamos/ para amanhã”. E se, de fato, há poesia em tudo, como afirma André Galvão, em “A estranheza do mundo”, é justamente nesse estranhamento que a beleza se revela em toda sua plenitude.

Os poemas finais de “Depois do sonho” reservam um quê de alento, após superado o susto e o desespero de um despertar abrupto. Alento para seguir em frente apesar de, às vezes, tudo e todos se portarem como forças contrárias. Quando os sonhos se esvaem, a realidade é o que sobra, seja ela indigesta ou benquista. Não por acaso na quarta e na quinta parte há mais lirismo em seus versos. Até mesmo a rima, renegada e inexistente na torrente inicial, se faz presente como uma mão que acalma, acolhe e protege. Como exímio artesão em seu ofício, André Galvão conduz as palavras como quem bem-conhece os limites, as possibilidades e o tom certeiro para expressá-las — sem excessos nem insuficiências.

Autor do livro de poemas A Travessia das Eras (Penalux, 2018) e do livro O Coronelismo na Literatura: Espaços de Poder (UFRB, 2018). Coautor do livro Redescobrir-se: poesias de fim de século (Selo Editorial Letras da Bahia, 1998) e do livro Crítico Intrépido! Filósofo Tímido? Sílvio Romero e o ensino secundário de Filosofia no Brasil (CRV, 2018). Associado ao NALAP – Núcleo de Artes e Letras de Portugal e membro da ANE – Associação Nacional de Escritores (Brasil) e da Academia Independente de Letras (Brasil).

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