Efêmera, de Lara Utzig

Após lançar Trilogia Poética – Os opostos existenciais (Chiado, 2016), em parceria com outros escritores, a poeta, musicista e ativista cultural macapaense, Lara Utzig, lança a sua primeira obra solo: Efêmera (Lura Editorial, 2020). Trata-se de um compêndio de poemas oriundos do blog mensagemefemera.blogspot.com, que traz o Tempo como elemento central e as demais questões inerentes a ele.

Dividido em três partes, “Frágil ampulheta”, “Nudez dos ponteiros” e “Lirismo das horas”, os sessenta e quatro poemas também podem ser descritos como uma ode à natureza paradoxal do Tempo, tanto no que diz respeito à maneira como nós o sentimos quanto, de fato, ele nos afeta independentemente da nossa subjetividade.

Em seu poema de abertura, “Ciclo do Rio”, Lara nos fala sobre a felicidade feito as ondas de um rio e o seu constante ir e vir para conceder lugar a outros instantes. A sutileza do poema engana quem dele tira conclusões precipitadas. Assim como a aparente calmaria de um rio que, volta e meia, leva consigo aqueles que o subestimam, há mais intensidade nos versos de suas estrofes do que a leveza que seus poemas sugerem.

Essa mesma imagem do rio perpassa a primeira parte da obra, contrariando a recorrente alusão feita ao deus Cronos esfomeado e impiedoso. Em “Quanto tempo o tempo tem?”, por exemplo, a relação do eu lírico com o Tempo se estabelece na mesma proporção do amor que se sente, e as indagações que se repetem em seus versos feito canção, reverberam outra questão inerente a tal grandeza física sobre a finitude da vida e de tudo aquilo que existe. Embora a poeta não seja obrigada a indicar o melhor caminho para a travessia ou o lugar perfeito para o mergulho, a sugestão para tanto submerge de seus versos assim mesmo, indicando a alegria como um dos possíveis meios, para quem quiser acolhe-la. Um gesto simples, porém, capaz de afetar tanto aquele que o realiza quanto os que estão à sua volta.

Em “Calendário”, essa alusão ao riso e a festa aparece de modo sorrateiro, ou, se preferirem, dito nas entrelinhas, ao fracionar o Tempo em meses a(o)gosto de fevereiro. A festa de Pierrot e Colombina também se faz presente em “Porta-bandeira da Dor”, para lembrarmo-nos que, assim como “o confete e a serpentina/ com repentina alegria anual/ se esvaem entre algumas marchinhas./ E como morte, fatal:/ Findam na quarta-feira de cinzas…”, ainda que a síntese de tudo seja como o carnaval, haverá sempre um compromisso irremediavelmente marcado desde o primeiro dia de nossas vidas.

O caminho que pode ser solitário e devastador — mesmo diante de meios para se perpetuar no tempo, numa espécie de legado existencial por meio da lembrança dos outros —, também pode ser percorrido com serenidade e muito afeto na proximidade do fim de tudo, única condição para saber se alguém teve ou não uma vida boa, segundo Aristóteles. De acordo com o estagirita, de nada adianta acumular riquezas e honrarias se ao término da vida restar apenas a dor, a solidão e o arrependimento. E se assim como na velhice retratada em “Seu Zeca” a vida como um todo é cheia de prós e contras, a música que surge de tal poema é outro indicativo de como tal jornada pode ser atravessada.

Enquanto a primeira parte reserva um tom suave, irônico e por vezes idílico, na segunda, os poemas desnudam-se de todo pudor para falar de ódio, egoísmo, maldade, sacrilégio e tudo o que é inerente à nossa efêmera existência, sob o signo da palavra e da escrita.

As paixões, desejos e ideais platônicos; a obsessão pela glória a qualquer preço; a saudade feito maldade daquele que se encontra distante; o reflexo dos erros simbolizado pelas coisas inanimadas; a fera que urge no íntimo de cada poeta e leitor; entre a batuta e a pena, Lara Utzig rege as palavras feito notas em busca de uma melodia capaz de harmonizar as dissonâncias da vida. Quer seja por meio de sonetos ou de formas mais livres, impressiona a sonoridade que emana de seus poemas, algumas lembrando até cantos populares como a embolada, o repente e o marabaixo. Canto sussurrado ou em alto e em bom som, proclamando o direito à loucura, como na ode à Ismália; o pedido de perdão aos poemas descartados; o aprendizado da vida que carrega a feitura de um poema que não coube no papel.

Na terceira e última parte de Efêmera, o amor é ascendido ao palco como elemento central. Descrito como um “sentimento que rasga/ os limites, os medos e a razão”, e um precioso dom que “ultrapassa tranquilas marés”, por mais intensa que seja a vivência de tal sentimento, o eu lírico nos lembra em “Antes da Meia-noite” que ninguém permanece imune aos dissabores de uma relação.

O ciúmes, o medo de que a pessoa amada diga adeus, a ausência, a saudade permanente, o vazio dos cômodos e a solidão na cama. Mais do que intimistas, os derradeiros poemas de Lara Utzig compõem um inventário sobre os encontros e desencontros, a violência, os horrores e a beleza das horas, dos lugares, das ações humanas e do que há no íntimo de cada ser. Algo assim merece alçar voos mais altos do que os que foram alçados e ultrapassar o tempo.

Lara Utzig nasceu em Macapá, AP, em dezembro de 1992. Licenciada em Letras/Inglês pela UNIFAP, especialista em Língua pelo IESAP e doutoranda pela UNESP em convênio com a UNIFAP, e teve o seu primeiro poema publicado na coletânea Jovens Poetas de Lajeado, e demais obras publicadas em coletâneas nacionais e regionais. Em 2012, recebeu o Troféu Equinócio da Palavra e foi reconhecida pelo Conselho de Cultura do Estado do Amapá por relevantes serviços prestados à área de Literatura. Lançou Trilogia Poética – Os opostos existenciais (Chiado, 2016), em parceria com os escritores Tiago Quingosta, Samila Lages, Rodrigo Ferreira, Gennifer Moreira e Gûlval Auridan Junior; é membro fundadora do grupo de Artes Integradas Pena & Pergaminho e vocalista da banda Desiderare.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s