Essa gente, de Chico Buarque

Como dito por aqui em alguma postagem, segue mais uma Nota da seção sobre obras estrangeiras, clássicas e não-ficcionais, com a finalidade de ampliar e diversificar as análises literárias do blog. O autor da vez dispensa maiores apresentações, e por isso, vamos ao que interessa. Em seu sexto romance lançado pela Companhia das Letras, “Essa gente” (2019), Chico Buarque usa e abusa da velha temática sobre “o escritor em crise” para falar de uma das fases mais obscuras de nossa recente/atual história. Uma tragicomédia composta de “frases objetivas, desprovidas de ornato”, como dito por seu narrador-protagonista, Manuel Duarte. A metaliteratura é apenas um, entre tantos outros recursos da escrita, utilizado pelo premiadíssimo escritor, que, de quebra, aproveita para falar sobre Autoficção dentro da própria ficção — o que também não é nenhuma novidade, embora seja uma das melhores sacadas do enredo. Há quem diga que “Essa gente” é a obra menos expressiva do Chico Buarque, tanto pelo tema quanto pelo estilo “curto e grosso” sublinhado anteriormente. Com o perdão do trocadilho, eu só me pergunto o que essa gente espera de um escritor que se propõe a falar sobre o que há de pior em nossa política e sociedade? Em momentos como estes que estamos vivendo, pré-pandêmico e pandêmico, não há o que ser romantizado, com firulas estilísticas e floreios, só para agradar os fãs do velho Chico, compositor de inúmeros clássicos da MPB! Aos escritores de plantão em busca de publicação do seu primeiro livro, uma dica: esqueça a “crise do escritor” como tema do seu original, e isso não sou eu quem digo. Muitos editores são categóricos em dizer que ao primeiro sinal do tema, o corte na avaliação é sem dó nem piedade. O uso e abuso anteriormente dito não é mera retórica. O autor de “Essa gente” e o seu personagem-autor destilam uma série de estratégias narrativas, que vão desde o uso de alguns clichês e expressões populares às mais sofisticadas digressões, metalinguagem, frases decassilábicas e até mesmo o exemplo de um palíndromo — por puro exibicionismo do autor ou do seu personagem-autor? Gostem da obra ou não, Chico Buarque não precisa provar mais nada a ninguém, ainda que “Essa gente” esteja longe de ser a sua obra prima.

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