Como usar um pesadelo, de Bruno Ribeiro

Se a vida é uma inevitável tragédia que deve ser ressignificada para valer a pena, o escritor Bruno Ribeiro soube como poucos ressignificar o ano de 2020, sagrando-se vencedor dos prêmios Brasil em Prosa (jornal O Globo e Amazon), Todavia de Não Ficção e Machado Darkside. Com uma escrita fluida, ácida e envolvente, o Mestre em Escrita Criativa finalizou o pandêmico ano com a obra Como usar um pesadelo (2020),publicada pela Editora Caos & Letras.

A indiferença com o outro, com sua identidade e origens; a aparofobia escancarada, sem nenhum constrangimento ou peso na consciência; o charlatanismo travestido de oportunidades, vida nova e sucesso; as paixões humanas e suas obscuridades aos olhos de todos são algumas das questões problematizadas nos 13 contos que compõem a obra supracitada. E ao contrário da sensação penosa e angustiante que os pesadelos tendem a causar, um dos desejos que surgem logo no primeiro conto é o de devorar os demais no mesmo ritmo e intensidade que algumas de suas histórias são narradas.

O desenvolvimento dessas narrativas talvez seja o maior mérito de Bruno Ribeiro, com trechos alucinantes e uma visceralidade bem conhecida por quem acompanha suas produções. E ainda que os amantes do Gore/Splatter não tenham a mesma experiência visual que o gênero garante no cinema, há mais ultraviolência e sangue jorrando de suas páginas do que em muitas obras assumidamente alinhadas ao gênero.

Não bastasse a dosagem certeira de ironia e robustez ao abordar os temas espinhosos e os preconceitos que assolam o país, o autor harmoniza ainda o trágico e o cômico com requintes de crueldade e beleza. O que pode até parecer absurdo dizer, mas a coexistência entre o Grotesco e o Sublime não apenas se mostra perfeitamente possível nas obras literárias, como se torna perceptível em “A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero”.

Outro trunfo de Ribeiro é a exploração de alguns temas clássicos, como o do “forasteiro” no conto “Monstros”, para falar sobre racismo sob a ótica da não-aceitação do diferente, do incomum e o medo do desconhecido, numa pegada muito próxima do que é visto em Lovecraft Country (2020). Com a diferença de que, ao contrário do que Misha Green e a Cheryl Dunye fazem para representar o terror — utilizando o homem branco como causa e efeito —, Bruno Ribeiro escancara a realidade para tornar ainda mais explícita a estrutura racista que alicerça a sociedade, tornando a ficção ainda mais verossímil, apesar do seu caráter fantástico.

Assim como ocorre em “Talvez seja o paraíso”, a dúvida entre o estado onírico e a realidade transcende a mera estratégia narrativa para tornar os pesadelos, o fantástico, o distópico e o terror muito mais próximos da realidade — e aqui poderíamos igualmente o aproximar daquilo que Jordan Peele faz em seus longas e séries. Por mais brutal, irracional ou desumano que sejam as ações representadas em Como usar um pesadelo, não há como não reconhecer tais comportamentos em nosso cotidiano.

Ribeiro apresenta ao seu leitor e aos interessados em escrita criativa uma gama de alternativas e soluções no desenvolvimento dos elementos narrativos, e o próprio título não deixa de ser uma indicação disso. Ao dizer “como” usar um pesadelo, não está em jogo sugestões incertas, passíveis de erro ou de caminhos perigosos. Ele é categórico em sua afirmação de “como” deve ser feito, porque isso é o que caracteriza as obras desse calibre: ser modelo de “como” utilizar algo a seu favor. A exemplo do que ocorre no conto “Corda”, em que é possível acompanhar o exercício da escrita, a partir da frase “três homens parados”, no desenvolvimento das cenas seguintes até o seu desfecho.

Por certo há inúmeras formas de ler uma obra literária, ou de se ter uma experiência estética, quer seja na busca do entretenimento pelo entretenimento ou por algo que vai além, aos que não deixam escapar aos olhos o fator crítico. Seja qual for a intenção do leitor que se depara com a obra de Bruno Ribeiro, a experiência não decepciona. Não à toa o autor vem se firmando a cada ano como um dos nomes mais importantes numa cena tão complexa e desleal quanto a literatura nacional.

Bruno Ribeiro nasceu em Pouso Alegre-MG e é radicado em Campina Grande-PB. Escritor, tradutor e roteirista. Autor do livro de contos Arranhando Paredes, traduzido para o espanhol, e dos romances Febre de Enxofre, Glitter, Zumbis e Bartolomeu. Mestre em Escrita Criativa pela universidade Nacional de Tres de Febrero (UNTREF), de Buenos Aires, além de vencer os prêmios anteriormente citados, foi finalista da 1ª edição do Prêmio Kindle e Menção Honrosa do 1ª Prêmio Mix Literário. Site do autor: brunoribeiroblog.wordpress.com

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