Ruído Branco, de Fábio Mariano

Após publicar O Gelo dos Destróieres (2018) e Habsburgo (2019), ambas pela Editora Patuá, Fábio Mariano retorna ao gênero de estreia com Ruído Branco (2020), obra premiada pelo PROAC-SP/19, publicada pela Editora Patuá, em parceria com a Editora Ofícios Terrestres.

O assassinato, o vício, as relações pessoais, sobretudo a amizade são alguns dos temas recorrentes nos dez contos que compõem a obra em questão, conduzidos com uma certa expertise narrativa dominada por poucos.

É o que se observa logo no conto de abertura, “Território”, em que o autor discorre sobre os limites territoriais, tanto físicos quanto simbólicos, e a possibilidade de penetrá-los. Os espaços explorados no conto em questão podem ser resumidos à cidade de Cartago e ao próprio texto literário. Enquanto no primeiro os personagens confabulam sobre a impenetrabilidade e o desaparecimento de um território, no segundo, o autor utiliza a metaliteratura como meio para explorar a territorialidade do texto. Mesmo recurso que aparece em “Trinta e Quinze”, onde os personagens Bernardo e Germano discorrem sobre um texto escrito pela personagem Stella Faber.

Assim como a estrutura de alguns contos, os personagens de Ruído Branco são seres complexos, que nos revelam uma camada nada superficial da natureza humana. Por mais perverso, bárbaro e condenável que possa parecer os pensamentos e ações exploradas aqui e ali, na construção de alguns personagens, seria demasiado ingênuo não imaginar que tais tipos povoam as mais diversas comunidades mundo a fora, e até mesmo não nos identificarmos com alguns deles.

Entre os temas recorrentes em Ruído Branco, o pertencimento ou a falta dele pode ser definido como um leitmotiv, ou mote, que paira pelas tramas tecidas por Mariano. Diferentemente do desassossego, igualmente caracterizado como uma constante angústia oriunda de um não-se-encaixar-na-vida, há uma espécie de busca que move os personagens, quer seja nas relações afetivas e pessoais, ou nos mais variados ambientes. Ou seja, assim como os espaços se apresentam às vezes como um não-lugar, aquilo que fora um dia e já não é mais o mesmo, Mariano mergulha na psique humana, nas diversas experiências físicas e sensoriais do ser para dar corpo, vida e voz aos seus personagens, seja a partir deles próprios, ou por meio do Outro; como no caso da personagem Amanda, que aparece nos contos “Inferno” e “Abrigo”, sob a ótica das demais personagens que compõem as respectivas tramas.

Narrados em primeira pessoa, independentemente da variação do tom e do estilo, o que mais chama a atenção em Ruído Branco é um clima permanente de suspense. Quer tenhamos o conhecimento prévio de alguma ação futura ou não, a expectativa alimentada no desenvolvimento das histórias, sobretudo por meio dos diálogos, acentua um estranho sentimento ou percepção da eminência de algum acontecimento ou ameaça. O oposto desse suspense é marcado por um constante sentimento de vazio ou de falta, quer seja de algum lugar não-revisitado, ou de alguém apenas mencionado por algum personagem.

Por todos os pontos anteriormente citados, outra questão a ser destacada na obra de Fábio Mariano diz respeito à desmitificação de que todo conto só é bem construído quando reservado alguma reviravolta no final, seja ela mirabolante ou não. E aos que ainda conservam a noção de que os contos são ideais para serem lidos numa sentada, vale ressaltar que, apesar de o conforto proporcionado pelo tamanho da fonte e a curta extensão de algumas narrativas (contendo nove páginas em média), raríssimos são os contos que não são dignos de uma segunda leitura, terceira ou mais — a não ser que o objetivo seja o bel prazer de uma única experiência e não a tentativa de explorar ao máximo o que a obra tem a oferecer como um todo.

Seja como for, os votos desse crítico é o de que Ruído Branco ecoe por todo canto, chegue a outros leitores e que esses possam fazer ressoar uma obra que certamente merece um destaque entre as recentes produções nacionais.

Fábio Mariano nasceu em São Paulo, SP, mas vive em Campinas, interior do mesmo estado, desde o primeiro ano de vida. Publicou pela Editora Patuá O gelo dos Destróieres (2018) e Habsburgo (2019), além de contos nas revistas Mallarmargens, Ruído Manifesto, Gueto e Literatura&Fechadura.

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