estrAbismo, por Mr. Oculus

Ode à agoridade das coisas, ao cotidiano e suas excentricidades. Instante eternizado ao se transformar em texto. Imagem fotográfica daquilo que de outro modo seria esquecido. Os poemas que abrem a antologia estrAbismo (Viseu, 2018), por Eduard Traste e Ramon Carlos sob o pseudônimo Mr. Oculus, dão a tônica aos 102 poemas que compõem a obra, marcada pela ironia, o insólito e o absurdo. Miscelânea poética que se revela desde a sua apresentação e preliminares, acompanhada ainda por 17 ilustrações distribuídas ao longo das 212 páginas.

A simplicidade é outra marca, ou mote sublinhado logo no quinto poema intitulado: “Natureza”, que em seus últimos versos afirma: é assim que “todos poemas / de alguma maneira / deveriam soar”. Simples também é o tom satírico com que Mr. Oculus imprime sua pena (ou melhor, digita suas teclas), sem apelar para a zombaria. Arrisco dizer que seu estilo se aproxima da galhofa machadiana, ora para falar de si mesmo e os imbróglios que a vida o condiciona, ora para se referir às coisas e àqueles em seu entorno — inclusive ao leitor, alertando-o sempre dos perigos eminentes.

O eu lírico de estrAbismo subverte o sentido comum daquilo que nos cerca, duplicando o entendimento de tudo, como forma de ampliação da visão. Noutras palavras, ele se diverte com esse jogo entre a trivialidade daquilo que meramente existe e as grandes questões humanas, como, por exemplo, no diálogo sobre a finitude estabelecido com um cigarro. Cada trago é um aproximar-se ardentemente da derradeira resposta, cujo preço é a extinção do que somente a certeza e a dúvida conhecem como ninguém, ou seja, aquele que as carregou consigo até o seu último instante.

Ao utilizar a diplopia como matéria prima ou ferramenta para erigir a sua estética, Mr. Oculus transita habilmente entre a realidade crua e o delírio tácito, sendo este último perceptível apenas para os não-habituados com a normalidade das coisas ou a obviedade das suas condições fenomênicas. Como o próprio título sugere, a experiência poética é um mergulho nesse abismo sensorial, em que o sentir-se atônito e o perder-se são partes constitutivas do mesmo processo. A atemporalidade, o envelhecimento do passado, a derrota do eu, a orgia, o derrame, o delírio diário martelando a emoção entalada.

Visto como um todo, estrAbismo pode ser definido como um mosaico de frases que se reúnem para compor seus poemas sem a obediência-restrição a uma forma única. O que lhe confere uma diversidade de estilo, tornando a passagem de uma leitura a outra mais dinâmica e fidedigna ao próprio conceito estético estabelecido. Ignorar sua heterogeneidade ou conjecturar que o caminho mais seguro fosse a adoção de um padrão no tamanho, na forma ou no que queira, incide no risco de transparecer o não-alcance da essência anunciada antes mesmo do livro aberto, além de indicar a permanência na superficialidade da análise crítica e do gosto pessoal.

O que esperam da poesia / aqueles que ainda hoje / feito galinhas hipnotizadas / seguem linhas estipuladas / pelo poeta das coordenadas? / quem poderia por mim pensar / melhor maneira de se expressar? / porque deveria então hoje / continuar seguindo o perdido / cantando na corte de Frederico / que nem se quer foi o primeiro? / porque encaixar minhas ideias / em uma forma estabelecida? / talhar da natureza sua beleza? / não tenho dúvidas só certezas / de que formas ou coordenadas / honestamente, pouco ou nada / me importa”.

Contra essas e outras imposições e arcaísmos, Mr. Oculus avança sem a pretensão de estabelecer uma nova ordem, ou reformular o gosto e o entendimento humano sobre as ideias do sublime e do belo. Em sua verve com ares insurgente, seu lirismo se torna quase nulo em alguns casos, muito mais prosaico do que melódico, como se, para além de demonstrar uma visão outra, quisesse abrir os ouvidos para as melodias cotidianas, ou ascendê-las ao palco ocupado por sonoridades mais nobres. Talvez para provar o equívoco dos acusadores ou simplesmente encerrar o assunto demostrando, Eduard Traste e Ramon Carlos finaliza a empreitada com uma “Sonata dos infernos”:

toco o dantesco piano / com minhas patas de cachorro / humano / esperando soar como satã / mas a música é simples / sem nenhum elã / ainda assim persisto / porque o agrado precisa ser feito / ainda hoje, ou nada / feito”.

Ler ou queimar o livro é o único tratamento para o estrAbismo, indicado pelo próprio Mr. Oculus.  Como quem optou pela primeira alternativa e se deu por satisfeito com o resultado, ainda que a automedicação seja uma conduta veementemente condenada, sugiro a ingestão dos poemas de tal obra em doses cavalares nos primeiros sinais de inconformidade com o status quo das coisas. Os efeitos colaterais já foram aqui advertidos: visões distorcidas, vertigens, alterações no humor, etc, etc. Caso a experiência tenha um efeito placebo, sugiro a cobrança de uma nova antologia numa dosagem maior ou apenas a aplicação de uma nova dose.

Mr. Oculus é o pseudônimo de Eduard Traste (1985) e Ramon Carlos (1986). O primeiro descobriu que não tinha salvação. Desde então vem destilando os necessários pingos de vida para seguir em frente, de seus escritos e outros tragos. Escreve no projeto http://www.estrAbismo.net, e tem materiais publicados em periódicos diversos, entre estes: Aboio, Alagunas, Amaité Poesias & Cia, Arribação, Escambau, Gazeta de Poesia Inédita, InComunidade, LiteraLivre, Literatura & Fechadura, mallarmargens, Olho Vivo, Pantagruelista, Philos, Ruido Manifesto, Subversa, Via Lateral, Jornal Plástico Bolha e Jornal RelevO. O segundo, costuma resumir sua carreira literária dois contos publicados em uma antologia, além de materiais diversos em revistas como: Inutensílio, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau, Bacanal, Ruído Manifesto e Literatura & Fechadura.

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