Somente nos Cinemas, de Jorge Filholini

Após estrear com o seu aclamado “Somos mais limpos pela manhã” (Demônio Negro, 2016), finalista do Prêmio Jabuti, 2017, Jorge Ialanji Filholini retornou à cena literária em 2019 como mais uma coletânea de contos intitulada: “Somente nos Cinemas”, pela Coleção LêProsa, da Ateliê Editorial.

Logo no conto de abertura somos introduzidos numa “Ilha de Edição”, lugar onde se torna possível os cenários e cenas do diretor que não se efetivaram no set de filmagens, e se põe limite aos desvarios de toda espécie. Ciente de que um filme, uma obra literária e qualquer outra expressão artística ganha mais vida e se realiza no contato com o público, Filholini expande os limites territoriais de tal ilha para ecoar as vozes dos mais variados personagens, que, como dito, mais do que desempenhar uma mera participação figurativa, se estabelece como parte constitutiva na relação com a obra de arte. Trazendo à tona todo tipo de palavrório em torno do universo cinematográfico, dos profissionais da área aos mais autênticos cinéfilos e os pseudos de plantão, incluindo nesse elenco os ignorantes no assunto, estejam eles diretamente envolvidos com a sétima arte ou não.

Em “Projeto: Favela”, Filholini rompe de modo contundente qualquer linha tênue ou fronteira que se queira estabelecer entre Vida e Arte, bem como a ideia de que uma imita a outra, para dizer que ambas são indissociáveis, ou melhor, que uma é substrato da outra, sem a qual nenhuma existiria. Nessa perspectiva, por mais cenográfico que seja, o que torna um cenário o que ele é — ou deveria ser —, não é a mimese perfeita de um espaço, por mais minúsculo, colossal, fantasioso ou realista que seja, que tornará crível-verossímil a sua existência. E no caso de uma favela, não são as suas construções irregulares que, por vezes, desafiam a lógica e a física; menos ainda a decadência evidente e/ou suas heteróclitas texturas e cores, cheiros e sons; mas aquilo que dá vida ao corpo — fluidos e mente, sangue e alma —, e no caso em questão de uma comunidade periférica, aqueles que nela habitam. Afinal, como dito pelo próprio autor: “Cenários são atores sem falas”.

Cliffhanger, In media res, Justiça poética, Plot twist, Peripeteia, Red herring, Flashbacks e Flashfowards, Filholini reúne em seus contos um arsenal de recursos narrativos para desenvolvê-los, por vezes, recorrendo a mais de um no mesmo conto para dar robustez a tramas que poderiam ser resumidas a um fastioso acerto de contas com o passado; não fosse o tão famoso e significativo “Como” contar as histórias, e não a dúvida sobre “O que contar?”. Como nos casos de “Bianca Movies” e a saudosa lembrança de um antigo amor feito um clássico do cinema, reassistido sempre que a oportunidade se faz latente; e de “Eu Sou Sérgio Caetano” e a superação de traumas e fantasmas do passado e do presente, com direito ao enigma se o desfecho aconteceu de fato ou não passou de um devaneio.

Em “Fila de Cinema”, o conto segue a estrutura temática sugerida, perfilando as vozes de personagens inominados, inertes e indiferentes. Por mais simples que pareça, a sucessão das falas reproduz, em certa medida, a incomunicabilidade contemporânea de uma sociedade egóica e insensível aos apelos daqueles que sofrem alguma penúria, mendigando o amparo ou a devida atenção dos que se dizem preocupados com os caminhos que esta mesma sociedade segue. No conto em questão, a falta de empatia e alteridade entre as personagens torna o desespero e a angústia da voz que clama por um mísero cortador de unhas mais intensos a cada frase. Resta saber se algum leitor permanecerá igualmente alheio e apático após a experiência, ou se se compadecerá com o desespero da pobre criatura e, assim como ela, entoará a mesma pergunta feita após a derradeira exclamação.

À medida que Filholini avança com as cenas dos próximos episódios, Somente nos Cinemas lista uma série de filmes, diretores e atores, elencando temas complexos como: eutanásia e suicídio, por exemplo, explorando-os tanto na cotidianidade do lar quanto nos ambientes de trabalho, desenvolvidos de modo primoroso pelo autor — notadamente um dos elementos narrativos que mais chama a atenção na obra em questão. Ora, se “Um bom filme tem que dialogar com a imagem”, os espaços em que as narrativas se desenvolvem tornam a leitura num verdadeiro mergulho para dentro das cenas.

Ao que tudo indica, mesmo num país tido como uma pátria de escassos leitores e apreciadores do Cinema Nacional, Somente nos Cinemas se assoma a outras obras na construção de uma história sobre a nossa produção artística, cujo o caminho a trilhar é longo e repleto de gratas surpresas — apesar dos ataques, menosprezos e desmontes advindos de toda parte. E se a obra aqui analisada alcançará os mesmos feitos e prestígios do seu antecessor ou não, isso não é possível prever. O que é lícito afirmar é que o seu autor mais uma vez demonstra a que veio, nutrindo ainda uma expectativa sobre o que virá pela frente.

Jorge Ialanji Filholini nasceu em São Paulo, mas viveu mais de vinte anos em São Carlos, interior do Estado. Escritor, editor e produtor cultural. É fundador do site cultural Livre Opinião – Ideias em Debate. Em 2016, publicou o livro Somos Mais Limpos Pela Manhã (Selo Demônio Negro), finalista do Prêmio Jabuti.

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