Eu sozinho, brincando de vazio, de Samuel Malentacchi

Quando a vida se resume a um acúmulo de catástrofes pessoais, como enxergar a beleza e a poesia soterradas em suas ruínas? Ainda que a questão levantada não seja a principal na obra mais recente de Samuel Malentacchi, Eu sozinho, brincando de vazio (2020, Caos & Letras), ao longo dos seus 54 poemas a pergunta se torna latente, como se o autor nos convidasse a encarar o aspecto trágico da vida feito um jogo.

Os nietzschianos dirão que o peso das escolhas — que o eu lírico evoca logo no segundo verso do poema de abertura, “Manual de poesia não ocultista” — devem ser suportado como quem ama e afirma a vida, apesar de todo sofrimento inerente e inevitável. Se aceitarmos tal afirmação, acostumar-se “com o sabor narcótico do chão” para quem se reconhece “um viciado em estragos”, se revela, de algum modo, meio caminho andado para respondermos a arguição feita no início desta resenha.

Apesar da doença e a proximidade da morte, há uma espécie de ímpeto em sentir-se mais vivo que as pessoas superficiais, com suas tagarelices econômico-financeiras; reconhecendo ainda no ofício poético a única razão de ser, quando todo o resto não faz mais sentido; mesmo que não haja mais “encanto na destruição” e as tragédias se tornem entediantes, sem deixar de sentir orgulho dos demônios que o devoram.

Carregado de acidez nas palavras, sarcasmos e, porque não dizer, uma virulência precisa e necessária, em cada verso de seus poemas, Malentacchi apresenta-nos o seu olhar sobre a vida, despida de todo e qualquer lirismo barato e visões artificiais.

Em “visceral antes dos onze” o autor enfatiza uma questão que se apresenta desde os primeiros poemas e se estende até o último: a reinvenção de si por meio do fingimento, ou o conhecer a si mesmo pela negação. O que nos levaria a indagar se negar e afirmar a vida não seria um ato contraditório e incompatível, passível de resumir a questão numa espécie de absurdismo desenfreado. E de fato seria, se entendêssemos a negação como uma mera não-aceitação de como a vida se impõe. Por mais paradoxal que pareça, a negação neste caso se volta para o não-enxergar aquela beleza anteriormente citada, por mais indigesta e dolorosa que ela seja. Em seu fingir bem até acreditar no que escreve, o poeta se apodera das ruínas de uma vida feita de ilusões — e por isso mesmo, desprezível e negativa —, para conceder a ela o direito de ser aquilo que verdadeiramente é, com toda a sua violência, choro e ranger de dentes, como diria Schopenhauer, despida do véu de Maya que cega os homens comuns (pra não chamá-los de risíveis e superficiais).

Os pedaços de quem não é, depositados em cada verso que escreve, encaixam-se feito peças pertencentes a um quebra-cabeças, tornando o fazer poético e a própria leitura num jogo ôntico-existencial, ou como referido no título da obra em questão: a manufatura vertiginosa da linguagem de um solitário brincante. O que resulta de tal jogo não poderia ser outra coisa senão a carne viva como contenção do aniquilamento; a vivência dos dias, de ruínas em ruínas; a solidão como um hematoma antigo, doloroso e incurável. Sofismas de uma metafísica do impossível neste jogo solitário de destruição como apelo estético. Até sobrevir a alegria no despreparo de sua chegada.

É nesta reunião de palavras atrás de palavras que Samuel Malentacchi compõe seus versos, assemelhando-os a um rastro em direção aos cumes do desespero, onde “só a paixão do absurdo ainda pode alcançar uma luz demoníaca sobre o caos”. E se o pessimismo que ora e outra submerge dos escombros espalhados nas páginas de Eu sozinho., flerta ou não com a corrosividade cioraniana, tal qual ao filósofo romeno, o poeta paulistano se entrega à criação poética por meio da escrita, não mais para se salvar como aquele outro, pois ela “não faz a dor passar”, “não ameniza o tranco”, e “não muda nada”. “Escrever é dar um nome diferente / para a morte que me intenta”; enquanto busca por uma paz sepulcral dentro do seu pior e se torna no fracasso absorvido do mundo, como uma obsessão, para encontrar um lugar distante através de seu inferno pessoal.

Cansaço, exaustão, reminiscência da infância. O exercício metapoético e autoacusatório na aridez do ofício e a feitura como castigo. O apocalipse como ameaça-promessa-desejo. Morte e mais morte, sempre uma atrás da outra, e o seu canto sedutor ecoando ao encontro de quem a ouve. “A felicidade / é um golpe fulminante / bem no meio / da fratura que me molda”. Malentacchi não faz acerto de contas com o passado, como em vão se atrevem os que não se entendem com um presente malquisto, repleto de ausências e sombras. Se não há êxito na tentativa de uma reconciliação parental, visto que é preferível a fugacidade das relações imperfeitas do que a tortura de uma conexão violentamente incômoda; o eu lírico menos ainda se atreve a buscar reconciliação consigo mesmo.

A solidão que Samuel Malentacchi nos apresenta em sua obra não é para poucos. E muitos são aqueles que não suportam a companhia de si mesmos. Longe de se resumir a uma imagem misantropa-agorafóbica, brincar sozinho pode até parecer tedioso, egóico e autodestrutivo, para os que se acostumaram com as multidões — os mesmos que em vão tentam preencher o nada que habita o ser por inteiro. O que Eu sozinho, brincando de vazio talvez queira nos dizer seja justamente o oposto dessa impressão: só é capaz de suportar a si mesmo aquele que não teme encarar no espelho o próprio Eu, por mais revelador e assombroso que seja — desconfio que estes são os únicos capazes de reconhecer o verdadeiro valor das coisas insignificantes. Mas há os que preferem a espetacularização da vida e a inautenticidade, e sequer se atreverão brincar de qualquer coisa. São altivos demais para tanto.

Samuel Malentacchi nasceu em São Paulo no ano de 1985 e cresceu na zona norte da cidade. psicanalista ferencziano e poeta, autor de Miscelâminas, O abismo é um instante, Teratoma, Precário de absolutos, entre outros. Tem poemas publicados em revistas e periódicos no Brasil e em Portugal.

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